Por Carolina Teixeira (http://about.me/teixeiracarol)

O músico já gravou cerca de 30 trabalhos, todos independentes (Crédito: Divulgação)

Giancarlo Rufatto, músico e produtor paranaense de 31 anos, ficou conhecido na internet ao lançar o blog “50 discos para Cecília” (50discosparacecilia.tumblr.com), uma carta aberta para a filha, que nasceu este ano, onde apresenta e comenta os discos que fizeram parte da história do autor e da sua esposa, Daniela.

 Porém, a paixão de Rufatto pela música vai além dos discos preferidos. Ele conta que começou aos 12 anos, tocando Guns’n’roses e o disco de covers do Ramones, mas só começou a compor aos 17. “Felizmente ainda estávamos nos anos 90 e não era fácil gravar músicas como seria pelos anos 2000, mas tenho certeza que eram todas piores do que as músicas que a Mallu Magalhães gravou com 13 anos”, brinca.

 O compositor, que leva a música como exercício de criatividade ou uma válvula de escape, já gravou cerca de 30 trabalhos, todos independentes e lançados pela internet. Com influências de Jeff Buckley e Bruce Springsteen, pode ser considerado uma banda de um homem só – todo o processo de composição, gravação e mixagem é feito por ele em sua casa. Mas não é o processo de gravação que define o estilo das canções de Rufatto. “Para mim é tudo musica pop, mas como é feito em casa e lançado na web é indie e o indie engloba qualquer coisa. O melhor rotulo foi myspace quem deu: Música Popular Melodramática”, brinca.

Seus discos estão liberados gratuitamente em seu blog (www.giancarlorufatto.blogspot.com) com destaque para o EP “Record Store Day”, lançado no dia 20 de abril, que traz três músicas autorais e de bônus uma versão para “Quase”, canção que encerra o quinto álbum do Pato Fu, “Isopor”. Ainda estão lá os álbum “A vida secreta das referências” (2012), “Machismo” (2010) e “14 Canções” (2008), entre outros singles.

 O músico se apresenta neste sábado em Porto Alegre durante a programação do Festival do  Movimento HotSpot, a partir das 17h no Gasômetro (Avenida Presidente João Goulart, 551 – Centro Histórico). Neste show, o público poderá conferir algumas músicas do EP recém lançado, além do disco anterior “A vida secreta das referências”, uma ou outra dos trabalhos mais antigos e, segundo Rufatto, talvez algumas versões. A programação do evento pode ser conferida aqui.

Confira abaixo a entrevista que o músico concedeu ao Nonada: 

Nonada – Quais são as tuas principais referências e influências musicais?  

Giancarlo Rufatto – Eu sempre gostei mais de cantores – principalmente daqueles que disfarçavam a péssima voz com letras longas. Durante muito tempo minha maior influência foi Paul Westerberg (The Replacements), Jeff Buckley, Eddie Vedder e Sparklehorse – uma banda de um homem só. Quando montei a banda Hotel Avenida, em 2009, eu queria ser Solomon Burke e Bruce Springsteen, mas o resultado não deu muito certo, talvez porque eu era branco e desafinado demais. Mas seja qual for a influência, as pessoas sempre vão achar parecido com Legião Urbana ou Bob Dylan.

Nonada – Você grava os álbuns em casa. Todo o processo é feito por ti, desde composição até a mixagem ou tem colaboração de alguém?

Giancarlo Rufatto – Compor, gravar e editar é tudo uma grande válvula de escape e eu realmente gosto de fazer tudo – da gravação às capas dos discos, é uma pira minha. Eu entendo quem goste de reunir a galera para fazer música, eu até tentei ter uma banda, mas tinha de ensaiar e as coisas demoravam demais pra sair. Hoje os maiores colaboradores da música independente são os blogs e sites que lançam trabalhos e divulgam sem pedir nada em troca. O meu dilema atual é não conseguir usar o Youtube como gostaria, fazer vídeos, etc.

Nonada – Você disponibiliza todos os álbuns no seu blog, de forma gratuita. Por que essa opção?

Giancarlo Rufatto – A internet é o meio oficial da minha música e ela é gratuita porque não custa nada para fazer – só tempo e luz elétrica. E também tem o fato de que eu gravo e lanço muita coisa que ficaria impossível de trabalhar num ambiente off-line, ou numa gravadora, por exemplo. Eu fiz algumas cópias em CDs para divulgação e para meus pais, o restante é pela web e pronto. Fiz os cálculos que, desde 2004, gravei uns 30 trabalhos, destes 30 eu ainda consigo ouvir e gostar de uns 10 – o resto eu posso apagar e economizar lixo no mundo e espaço nos sebos.

 Nonada – Tuas gravações são em lo-fi, o que dá um ar meio “sujo”. É a tua estética?

Giancarlo Rufatto – Eu gosto do lo-fi porque dá um ar de verdade a coisa toda, mas ser lo-fi nunca foi a intenção. Depois de tanto tempo gravando em casa, eu me dei ao luxo de comprar microfones decentes para gravar “A vida secreta das referências”, de 2012. O problema é que o microfone também melhorou os defeitos e começaram a aparecer barulhos externos, os vizinhos conversando, etc. Os microfones que eu usei até o disco “Machismo”, de 2010, custavam R$ 36,90 nas lojinhas do Paraguai.

 Nonada – Qual tua relação com a internet?

Giancarlo Rufatto – Se não fosse a internet, eu não existiria, nem essa entrevista. O modo operacional da música pop atual é via internet, os artistas lançam discos on-line para conseguir shows que pagam a gravação do trabalho. O único problema é que a internet é imediatista, se você lançar um disco em janeiro, em junho não lembram mais de você. Por isso que eu adoro singles e EPs.

Nonada – Quais são teus projetos futuros para a tua carreira na música?

Giancarlo Rufatto – Não penso muito no futuro musical, eu tenho 31 anos e não sei o que estarei fazendo aos 35 ou 40, mas pelo menos não sou uma banda que precisa “acabar”, né? Existe uma piada ótima sobre ganhar a vida numa banda de rock: certa vez um jornalista perguntou ao vocalista de uma banda independente se ele ainda pensava em ser famoso e o cara respondeu que pensava, sim. Resultado: no roda pé da foto da matéria sai “fulano de tal, no auge de seus 30 e tantos anos, ainda pensa em ser um rockstar”.

Nonada– Você ficou bem conhecido pelo 50discosparacecilia.tumblr.com. Qual foi o primeiro álbum que você colocou para ela ouvir após o nascimento?

Pois é, o blog da Cecília teve mais notoriedade do que qualquer outro projeto meu e abriu um nicho para eu pensar o futuro, música e crianças. O primeiro disco que ela ouviu para valer foi “After the gold rush” do Neil Young e ela dormiu rapidinho. Agora toda vez que eu quero que ela durma, eu fico dançando Neil Young com ela, mas só funciona com esse disco.

Nonada– Além dos discos recomendados no tumblr, o que você ouve e destaca da atual cena independente brasileira?

Giancarlo Rufatto – Eu gosto muito da Letuce, do Rio de Janeiro, participamos do tributo ao Raça Negra e ela tem uma genial versão de “Poderosa” da banda Brasil, o disco de versões que eles gravaram está na minha lista dos favoritos dos últimos 5 anos. Dos discos de 2012, teve o Lupe de lupe, uma barulheira de um pessoal de Minas Gerais e o disco do Thiago Pethit, “Estrela decadente” – que muita gente torceu o nariz, mas eu achei bem legal. De Curitiba tem os Penitentes – banda do Koti – mais conhecido pelo projeto O Lendário Chucrobillyman.

 

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