Citando o canal ScreenJunkies do YouTube, "O Hobbit" é a primeira trilogia que levará mais tempo para ser assistida do que para ser lida. (Crédito: Warner Bros./divulgação)

O Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, EUA/Nova Zelândia, 2013)

Direção: Peter Jackson

Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro, baseado em livro de J.R.R. Tolkien.

Com: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Luke Evans, Ken Stott, James Nesbitt, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Dean O’Gorman, Graham McTavish, William Kirsher, Stephen Hunter, John Callen, Peter Hambledon, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Lee Pace, Mikael Persbrandt, Sylvester McCoy, Ryan Gage, Stephen Fry, Manu Bennett, Cate Blanchett e Benedict Cumberbatch.

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O Hobbit: A Desolação de Smaug é mais uma prova de que a adaptação do breve livro de J.R.R. Tolkien resultaria numa experiência muito mais prazerosa caso se limitasse a um único filme de 2 horas e meia (ou, sendo condescendente, dois filmes de 2 horas). Transformado em trilogia, é inevitável que o esforço de Peter Jackson esteja se revelando algo que, apesar dos atrativos, soa sempre inchado e com ritmo falho (na trilogia O Senhor dos Anéis, o cineasta teve o bom senso de reservar o material para fãs às edições estendidas em DVD). Dito isso, a segunda parte acaba funcionando um pouco melhor do que o antecessor por trazer um pouco mais de foco à narrativa, eliminando parte da necessidade de fazer referências à trilogia que a sucede.

Iniciando com um breve prólogo que retrata o primeiro encontro entre Gandalf (McKellen) e Thorin (Armitage), logo reencontramos o mago, Bilbo (Freeman) e a comitiva de anões fugindo dos orcs que os perseguiam ao final da parte 1. Depois de escaparem, o grupo se separa: os anões seguem viagem até serem capturados pelo rei élfico Thranduil (Pace), e, ao serem libertados por Bilbo, continuam sua jornada até a porta secreta da Montanha Solitária. Por sua vez, Gandalf segue para a fortaleza sinistra de Dol Guldur para investigar qual é exatamente o mal que lá habita.

(Crédito: Warner Bros./divulgação)

Só por essa descrição, não é difícil perceber que o filme carece de uma estrutura clara – e se as três partes de O Senhor dos Anéis tinham cada uma seu começo, meio e fim, aqui a impressão é que estamos vendo apenas o segundo ato de um longo filme que custará três ingressos ao invés de um, algo reforçado por seu desfecho abrupto e ainda menos conclusivo que o de Uma Jornada Inesperada. Entretanto, o roteiro escrito a oito mãos tem sua parcela de acertos, como introduzir o arqueiro Bard bem antes do momento em que este é apresentado no livro, de modo a tornar seu papel na história menos esquemático (a falta de carisma do personagem e de Luke Evans são um problema diferente).

A verdade é que, sendo inútil insistir na falta de fidelidade ao material original (ou excesso de devoção ao universo tolkieniano), a pergunta que deve ser feita é: as inclusões feitas por Jackson à trama principal de O Hobbit funcionam? A resposta seria: ocasionalmente sim. Se a subtrama “política” envolvendo um conflito de classes na Cidade do Lago vai do nada a lugar nenhum, servindo apenas para desperdiçar Stephen Fry, o romance entre Kili (Turner) e Tauriel (Lilly) é uma adição até curiosa cujo tom se encaixa nos “amores impossíveis entre povos diferentes” tão ao gosto de Tolkien (basta pensar nos casais mais emblemáticos de sua obra, como Aragorn e Arwen e, para os mais íntimos, Beren e Lúthien), conferindo certa poesia à trama sem ocupar espaço excessivo. Já a trama envolvendo a viagem de Gandalf a Dol Guldur, se por um lado parece existir só para impedir que Ian McKellen apareça apenas nos primeiros 15 minutos de filme (além, é claro, de estabelecer ainda mais a ponte com O Senhor dos Anéis), ao menos inclui um confronto relativamente inesperado e que tem seu quê de memorável.

No fim das contas, é ótimo que Gandalf continue recebendo destaque, já que, ao contrário do antecessor, não temos aqui as aparições de Frodo, Gollum e cia. para gerarem arrepios de nostalgia – e assim, ficamos boa parte do tempo com a pouco carismática comitiva de anões, cujos únicos membros distintos são Thorin (por seu papel de liderança), Kili (pela trama romântica), Balin e Bofur (os únicos que ganharam intérpretes mais conhecidos – Ken Stott e James Nesbitt, respectivamente). Como forma de compensação, desta vez os vemos partindo para a ação com mais frequência – e Peter Jackson não decepciona na condução dessas sequências (com destaque para a ótima perseguição com os barris nas corredeiras), assim como o retorno de Legolas é eficaz ao trazê-lo naquelas proezas absurdas da trilogia original (e que, claro, não exigem tanto das limitações de Orlando Bloom como ator).

(Crédito: Warner Bros./divulgação)

Prejudicado por tornar-se um figura ainda mais periférica no filme que seu personagem intitula, Martin Freeman continua a exibir carisma e esperteza como Bilbo, sendo eficiente ao perceber os primeiros indícios da influência maligna do Um Anel, ao passo que Ian McKellen faz o melhor que pode com uma participação reduzida. E se o já citado Luke Evans surge aborrecido como um clone de Orlando Bloom na franquia Piratas do Caribe e Lee Pace pouco pode fazer com um personagem que ganha ares tão antipáticos do roteiro, Evangeline Lilly até se sai bem com uma personagem totalmente inventada, enquanto Richard Armitage, como Thorin, oscila entre a autoridade e os primeiros passos em direção à loucura (além de aproveitar os raros momentos de maior sutileza, como sua comoção contida ao se ver de volta ao lar). Finalmente, o excelente Benedict Cumberbatch confere o tom aventuresco tão desejado pela narrativa ao destilar maldade como Smaug (criado a partir de um motion capture impressionante) – e, não por acaso, as cenas em que este se encontra em cena são indiscutivelmente as melhores do longa mesmo com as descartáveis distorções em sua voz inconfundível (Jackson acerta ao revelar apenas gradualmente a dimensão colossal da criatura – e as estratégias dos anões par derrotá-lo marcam outro ponto alto da projeção).

Voltando a exibir os habituais efeitos visuais impecáveis e uma direção de arte imaginativa (a Floresta das Trevas e a prisão visitada por Gandalf evocam uma atmosfera aterradora de pesadelo), A Desolação de Smaug é um entretenimento correto – e é uma pena ter que dizer apenas isso de um cineasta que, em seu melhor momento, sabia como dosar sua adoração pelo universo da Terra-média sem parecer que seu principal propósito era espremer mais trocados dos fãs que conquistou por merecer.

OBS: como foi dito no texto sobre o original, o uso que Jackson faz do 3D é bastante falho (e aqui irrita ainda mais por sua insistência datada de lançar objetos na direção do espectador), não valendo a pena gastar a mais com ele – a menos que esteja acompanhado da interessante técnica dos 48fps.

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