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Angelina Jolie volta à direção com cinebiografia Invencível (Crédito: Universal Pictures)

Invencível (Unbroken, EUA, 2014)

Direção: Angelina Jolie

Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravanese e William Nicholson, baseado em livro de Laura Hillenbrand.

Com: Jack O’Connell, Dohmnall Gleeson, Finn Wittrock, Takamasa Ishihara, Garrett Hedlund, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, John Magaro, Alex Russell C.J. Valleroy e John D’Leo.

Ainda é novidade para muita gente as recentes investidas de Angelina Jolie na própria carreira, que pretende migrar gradualmente da frente para trás das câmeras. Infelizmente, se no início da década passada a atriz ficou estigmatizada pela constante aparição em projetos de gosto duvidoso (algo de que nunca se livrou totalmente), seu primeiro esforço na direção (Na Terra do Amor e Ódio, de 2011) dividiu a maior parte da crítica. Ainda não assisti àquele trabalho, então não sei dizer se os diversos problemas que atravessam esse Invencível são um acidente de iniciante ou sinais não muito promissores do que podemos esperar de Jolie no comando de longas-metragens.

Não que o filme seja um desastre absoluto, pelo contrário: o trabalho dos atores é competente e de total entrega, a reconstituição de época é brilhante e há quadros belíssimos espalhados pela projeção (mérito também do celebrado diretor de fotografia Roger Deakins). Além disso, Jolie também acerta nas sequências de ação, com destaque para a batalha aérea de abertura do filme, que aproveita bem a direção de arte e o design de som para ressaltar a precariedade dos aviões e a violência do tiroteio; e os dois ataques sofridos por um bote em alto mar, que chocam pela maneira aleatória com que surgem. É pena, portanto, que os acertos da diretora não consigam elevar o filme a um patamar maior, pois acaba se mostrando inócuo e cansativo.

Escrito pelos irmãos Coen, Richard LaGravanese (As Pontes de Madison, P.S. Eu Te Amo) e William Nicholson (Os Miseráveis), Invencível é uma cinebiografia do atleta Louis Zamperini (O’Connell), que, depois de uma juventude problemática (na qual é vivido por C.J. Valleroy, parecidíssimo com o Christian Bale da época de Império do Sol), desponta como um corredor incrivelmente veloz, quebrando recordes de velocidade em sua participação nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Anos depois, Zamperini veio a lutar nas tropas do Pacífico na guerra contra o Japão, tendo seu avião abatido e sobrevivendo por semanas à deriva no oceano apenas para ser capturado pelos japoneses e passando os anos seguintes em campos de prisioneiros.

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Com uma infância conturbada, Louis torna-se um corredor e acaba chegando a Olimpíadas (Crédito: Universal Picture)

Por essa descrição, não é difícil imaginar que o longa funcione bem melhor em sua metade inicial: ainda que tenha sua parcela de erros (os flashbacks da juventude de Zamperini e sua carreira como velocista são disparados a esmo e sem razão aparente, cessando depois de algum tempo) e seus excessos melodramáticos (como um irmão especializado em soltar pérolas de sabedoria/auto-ajuda), ao menos conta com um pequeno arco dramático de superação – uma temática naturalmente cinematográfica que Jolie consegue fazer funcionar mesmo com uma competição que não tende a ser muito interessante visualmente. Da mesma forma, a longa sequência em que Zamperini e dois companheiros se encontram perdidos no oceano é interessante o bastante pela situação desesperadora dos personagens, provocando uma tensão consistente a partir da proximidade dos japoneses e dos onipresentes tubarões.

No entanto, depois de minutos perturbadores em que Zamperini é cativo numa prisão improvisada na selva, o filme começa a ruir a partir do instante em que o soldado é levado para o campo de prisioneiros: depois de estabelecer sem demora a vilania do cabo Watanabe (Ishihara) e sua constante ameaça aos internos, Invencível logo se entrega a uma rotina maçante em que o sujeito insiste em humilhar Zamperini diversas vezes. O resultado é que essa estratégia repetitiva acaba drenando a força de dois momentos que tinham tudo para se tornar icônicos no gênero “drama de guerra” – e o segundo, por mais que impressione, surge num momento em que a estratégia da repetição já venceu o espectador pelo cansaço, conduzindo a uma conclusão aborrecidamente melodramática (ainda que menos do que o esperado).

Invencível não é um filme ruim, mas sua condução burocrática o torna rapidamente esquecível. Sim, Jolie tem sua parcela de decisões inspiradas, como incluir uma breve cena na qual os prisioneiros americanos confrontam a destruição e as vítimas causadas aos inimigos pelo bombardeio de Tóquio, uma sequência que funciona bem justamente pelo silêncio – mas esse é um exemplo isolado em meio a uma abordagem excessivamente convencional. Basta reparar que a trilha sonora de Alexandre Desplat acaba pecando pelo excesso em tentar comover, soando em momentos que pediam silêncio e investindo em tons épicos em cenas que beiram o prosaico.

Não que exista algo de errado com dramas de superação e sobrevivência; o Cinema já produziu vários inesquecíveis. Mas há uma distância entre o piloto automático e a comoção genuína – uma distância que Invencível falha consistentemente em alcançar.

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