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Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance, EUA, 2014)

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alexandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo

Com: Michael Keaton, Edward Norton, Zach Galifianakis, Emma Stone, Andrea Risenbourgh, Naomi Watts, Jeremy Shamos, Amy Ryan, Merritt Wever e Lindsay Duncan.

Tratar de vários assuntos e personagens em um único longa-metragem é sempre um risco elevado, dadas as possibilidades de que o mesmo soe inchado, cansativo, aborrecido e/ou pretensioso. Birdman, que chega como o grande líder de indicações ao Oscar 2015, não se encaixa em nenhuma dessas categorias: sob a superfície de filme “cabeça” da competição está um fantástico estudo de personagem, uma análise sobre o meio das altas produções teatrais e um desafio técnico absolutamente memorável – e tudo isso acompanhado de diálogos frequentemente hilários – algo especialmente inesperado vindo do mexicano Alejandro González Iñárritu, conhecido por obras pesadas e deprimentes.

Riggan Thomson (Keaton) é um ator que já viu dias melhores: conhecido especialmente por ter interpretado um popular super-herói no passado, ele busca revitalizar a própria carreira ao produzir e estrelar na Broadway uma peça baseada em Raymond Carver (autor cujos contos inspiraram o excepcional Short Cuts, de Robert Altman). No entanto, o processo se torna infinitamente mais complicado quando Riggan contrata por impulso Mike Shiner (Norton), cuja obsessão pela “verdade” na atuação colocam os dois em frequentes atritos. Somando-se a isso sua relação turbulenta com a filha e assistente Sam (Stone), recém-saída de uma clínica de desintoxicação, e o crescente medo do fracasso num meio em que a única pessoa que parece realmente levá-lo a sério é a ex-esposa (Ryan), Riggan vai se tornando mais instável à medida que a estreia se aproxima, enquanto mantém violentas discussões com um alter ego imaginário.

Buscando aproximar-se de uma abordagem mais teatral, Iñárritu aqui busca disfarçar ao máximo a existência de cortes, investindo em longos planos-sequências nos quais a câmera passeia pelos bastidores, camarins, coxias, palco e até mesmo movimentadas vias públicas – o que já seria impressionante mesmo se o diretor não buscasse diferenciar os devaneios do protagonista do “mundo real”, o que acontece por vezes apenas com simples movimentos de câmera, atingindo um ponto belíssimo quando “Birdman” se materializa na mente do protagonista e vemos suas alucinações se tornarem mais fortes. Assim, não é surpresa alguma que o longa tenha como diretor de fotografia o sempre excelente Emmanuel Lubezki, responsável pelas tomadas impossíveis de Gravidade e Filhos da Esperança. Complementando a instabilidade do protagonista, está a trilha vibrante de Antonio Sanchez, na qual marcam presença fortes solos de bateria.

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Keaton volta a brilhar anos depois de Batman, auge de sua carreira (crédito: divulgação)

O virtuosismo técnico de Birdman, no entanto, cresce ainda mais acompanhado da performance magistral de Michael Keaton. Já beneficiado simplesmente por sua inspirada escalação (afinal, como discordar que o auge de sua carreira foi interpretar Batman nos filmes de Tim Burton?), Keaton ainda surge incrivelmente vulnerável na pele de Riggan: mesmo sem jamais minimizar os inúmeros erros que certamente cometeu no passado (especialmente para com Sam), o sujeito se mantém sempre fascinante por estar lidando com uma crise pessoal com que qualquer um pode se identificar: um medo profundo de ser visto como uma fraude (algo que Sam atira contra ele de maneira cruel em um dos melhores momentos do filme). Presente em quase todas as cenas, Keaton se entrega ao papel sem qualquer sombra de vaidade, exibindo o corpo fora de forma e a ação do tempo sobre seu rosto e cabelos – e passa a genuinamente preocupar o espectador à medida que as pressões pessoais, profissionais e existenciais vão se acumulando em um nível perigoso.

Já Edward Norton volta a brilhar com um personagem igualmente interessante: passando uma impressão de absoluta segurança em seu ofício (indo a extremos para “autenticar” suas performances), Shiner não demora a deixar claro que considera Riggan um ator medíocre, passando a esforçar-se para arruinar a peça e ainda assim sair incólume – mesmo que mostre-se em certos momentos inseguro com relação ao próprio legado artístico, algo que fica patente quando percebe que Riggan ainda é lembrado e querido pelo papel de Birdman. Por sua vez, o elenco secundário também consegue aproveitar um tempo de tela menor para criar personagens marcantes: Zach Galifianakis está infinitamente mais eficiente (e engraçado) abandonando sua persona típica como o melhor amigo de Riggan; Emma Stone surge como a mais triste daquelas figuras ao carregar a dor constante pela ausência do pai por anos; e Naomi Watts cria uma Lesley carente ao perceber-se usada pelo meio teatral e por Mike em particular (e é pena que a personagem praticamente desapareça depois de algum tempo, um problema do qual Watts seguidamente sofre quando assume papel de coadjuvante).

Da mesma forma que que lida com seu núcleo humano e criativo, Birdman também acerta na breve discussão que propõe sobre a natureza da arte. Inicialmente, o filme parece perigosamente prestes a inclinar-se a uma crítica moralista (quando todos os atores sugeridos por Riggan estão ocupados em filmes de super-heróis), mas as intenções de Iñárritu, para seu crédito, vão além. Sua acidez sem dúvida se dirige a blockbusters genéricos e ao próprio mundo de egos inchados que aborda – basta ver que todos os personagens sofrem de insegurança (Riggan), arrogância (Mike), frieza (Jake) ou profunda carência (Lesley) –, mas não chega a ser tão cáustica quanto a que demonstra com relação à crítica Tabitha (Duncan), que está determinada a destruir a peça de Riggan apenas por considerá-lo um intruso naquele templo de “arte elevada” – ou seja, o tipo de opinador cujo desprezo instantâneo por obras populares (filmes de ação, séries de TV, quadrinhos, etc.) e/ou por aqueles que as apreciam mal consegue esconder uma visão incrivelmente pedante e elitista de mundo ou de arte.

Divertindo não apenas com sua inspirada verborragia, mas também prendendo a atenção graças a seu visual arrebatador (e é absurdo que sua montagem não tenha sido reconhecida pela Academia), Birdman é um dos melhores e mais singulares trabalhos na disputa pelo prêmio principal – mesmo, para desgosto de figuras como Tabitha, enquadrado num gênero popular como a comédia.

 

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