nicolas nardi
Com uma tiragem de 100 unidades, o primeiro livro de Nícolas Nardi foi reproduzido artesanalmente (Foto: divulgação)

Um “desescritor consagrado de gaveta que tem publicado há alguns anos livros de forma independente dentro de sua cabeça”. É desse modo que se descreve Nícolas Nardi, 20 anos, ao final de seu livro amanual de formação de um desescritor. Não que se possa defini-lo de forma tão simples. O próprio título do livro já ironiza os rótulos do universo literário. Basta sentar para tomar um café com ele para notar que o jovem poeta, inquieto, vislumbra vários planos para si e para seus projetos.

Nascido em Novo Hamburgo, Nícolas conta ter seguido todos os passos para uma formação, digamos, mais convencional. Fazia curso técnico em química quando, para surpresa da mãe, decidiu fazer vestibular para o curso de letras. Em 2014, portanto, aprovado no vestibular da UFRGS, mudou-se para Porto Alegre, lugar que considera mais aberto para suas manifestações artísticas.

Foi na capital, por exemplo, que ele conheceu o escritor Marcelino Freire, considerado um “padrinho” que vive a dar conselhos para o (des)escritor em formação. Em novembro, Nícolas esteve em São Paulo para participar da Balada Literária, evento organizado por Marcelino. Lá, além de lançar seu livro e participar de um debate com um escritor argentino, foi escalado como um “faz-tudo”, tendo a chance de interagir com autores de diversas regiões.

Em Porto Alegre, participou também da Feira Além da Feira, evento paralelo à Feira do Livro, realizando uma intervenção poética na cidade. Junto com os parceiros de seu coletivo Quarto Ambiente, distribuiu balões com poemas para quem passava pelo centro e em frente à Palavraria, no Bom Fim. Em outubro, no período próximo às eleições, espalhou pela cidade divertidos cartazes com escritos tais como “vote no band-aid: sen.a.dor”. Uma forma de descontrair quem já estava cansado de se deparar com as imagens dos candidatos, mas também de divulgar o seu amanual.

Dentro da programação da Feira Além da Feira, Nícolas realizou uma intervenção poética na cidade Foto: divulgação
Dentro da programação da Feira Além da Feira, Nícolas realizou uma intervenção poética na cidade Foto: divulgação

O cotidiano em frases curtas                                

A participação em um concurso de contos e a realização de um trabalho para uma disciplina de produção textual da faculdade serviram de impulso para que o amanual tomasse forma. Marcelino lhe aconselhou a trabalhar mais as frases curtas presentes nos textos que Nícolas já havia lhe mostrado. Logo em seguida, coincidentemente, ganhou de um amigo a antologia Bíblia do Caos, de Millôr Fernandes, mestre das formas breves.

Mas é o poeta Manoel de Barros um dos preferidos de Nícolas. Talvez venha um pouco daí a escolha de um discurso aparentemente ingênuo, apoiado no prosaico e na simplicidade do cotidiano. Em 2013, quando participava de uma feira de ciências no Mato Grosso do Sul, Nícolas descobriu o endereço do poeta. Não contendo sua admiração, foi até sua casa para lhe entregar uma carta. Um funcionário bem avisou: Manoel já estava doente e, por isso, dificilmente responderia.

Para Nícolas, às vezes o processo de brincar com as palavras, de desconstruí-las e de procurar para elas significações diferentes vale mais do que o resultado em si. Conta andar sempre com um bloco de anotações no bolso, “para não perder nenhuma ideia”. As frases vêm das situações banais de seu cotidiano, ao observar detalhes que muitas vezes passam despercebidos.

“uma folha caindo é

uma árvore chovendo”

A "orelha" do amanual de Nícolas
A “orelha” do amanual de Nícolas

Esse tom próximo da inocência é a marca principal do amanual de Nícolas. Percebe-se uma confusão intencional entre as naturezas racional e não-convencional do discurso. O que há exatamente de errado em colocar a fotografia da orelha do amigo – no lugar do texto paparicador padrão – nas primeiras páginas de um livro que já foge do formato tradicional?

Há, na poesia de Nícolas, uma aproximação ao imaginário infantil (“alimentar lagartixa/até ser dinossauro”), bem como a constante junção de termos em oposição, conferindo, assim, uma assimetria semântica ao texto (“vendo manual explicativo e ilustrado de como voar debaixo da água”). Do mesmo modo do português Gonçalo M. Tavares, de quem não esconde a influência, Nícolas é adepto do “erro”. Afinal, a poesia não deixa de ser a busca desse ângulo inusitado, inesperado, peculiar. E é arriscando que o desescritor vai se formando.

Um amanual feito à mão

A primeira edição do livro, um total de 100 exemplares, foi produzida manualmente por Nícolas. Tem o formato de um bloco de anotações, com capa de papelão ilustrada com desenhos seus. Em um saco de pão, dentro do qual o livro é entregue ao leitor, estão também adesivos e marcadores de páginas artesanais. A confecção de cada exemplar demanda pelo menos uma hora de dedicação. Assim, por enquanto, são poucos os que têm acesso ao trabalho do poeta.

Nícolas, no entanto, tem planos de lançar seu livro no formato tradicional, de forma independente. Para isso, pretende em breve colocar seu projeto em alguma plataforma de financiamento coletivo. Enquanto isso, os interessados podem conferir seu trabalho em sua página do Facebook.

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