(Crédito: Não Editora)
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Texto João Vicente Ribas – autor do blog Pampurbana

Uma besta-fera que guarda um labirinto; um índio branco especializado em tocaias; um padre que pulou a cerca; um contrabandista de livros; um homem com o coração do lado direito do peito. São ricos os personagens do romance Quatro Soldados (Não Editora) de Samir Machado de Machado. O título inclusive resume demais a trama, e não sugere a dimensão diversa de sua literatura.

Seres fantásticos e homens mundanos, com defeitos tão evidentes quanto as virtudes, habitam a grande região de fronteiras fluidas entre Colônia de Sacramento e Laguna, nos anos finais da Guerra Guaranítica. O quarteto é o epicentro de quatro histórias que se cruzam, ou não.

Não sou um leitor entusiasmado de literatura fantástica, com a qual Quatro Soldados flerta. A verdade é que dediquei meu tempo ao livro pelo interesse na história e no imaginário das missões jesuítas e guaranis. Aconteceu que no final me deixei levar pelas criaturas. Evidentemente, a leitura proporciona dois níveis de fruição. Esse primeiro, pela qual fui seduzido, já garantiria um belo livro de aventura.

O autor privilegia anedotas inacreditáveis, que envolvem o leitor. Mas ao mesmo tempo oferece citações, intertextos e versões que remetem a outros livros, a lendas e principalmente às reduções jesuítico-guaranis que formavam os Sete Povos, onde hoje é o Rio Grande do Sul.

Minha leitura foi em trânsito, enquanto viajava de Porto Alegre a Posadas, na Argentina, para conhecer as ruínas de antigas missões no país vizinho e no Paraguai, próximas a Encarnación. No caminho estavam as rodoviárias de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Borja, etc., ponteadas pelas cruzes brancas de Lorena à beira da estrada. Claro que me interessei demais por trechos em que havia menção a um alferes morto e decapitado, ou à batalha de Caiboaté, ou ao discurso “Esta terra tem dono”, mesmo que o nome Sepé Tiaraju não estivesse explícito ali.

quatro soldados ilustra (1)
(Crédito: Não Editora)

A imaginação de visitante às ruínas, somada às sugestões do livro, formaram uma mistura instigante. Garantiram uma leitura desafiadora. Quem não ficou sonhando o que aconteceria se houvesse passagens subterrâneas nas reduções, após uma primeira visita a São Miguel na idade escolar? Pois em Quatro Soldados há túneis debaixo da terra, padres que guardam segredos e lugares obscuros.

Dando asas à imaginação, há coisas não ditas claramente no romance. Nos primeiros parágrafos, aborda a terra a qual deram o nome de um pau. No início parece estranho, parece que o autor está a esconder informações. Poderia escrever “Brasil”, logo. Mas depois vamos sendo levados pelos fatos, esses sim sua prioridade. Fossem os dados, datas e nomes, poderia se tornar apenas um livro chato de história.

Num dos pontos altos do volume, Machado reconta a lenda da mula sem cabeça. Mas só vamos nos dar por conta disso lá pro final da história, quando começamos a juntar os pontos. Sua versão macabra pode ser adjetivada também de realista, pois explicaria racionalmente como teria sido criada a lenda, baseada em fatos inusitados e na imaginação popular.

(Spoiler)Lá pelo meio da leitura, o narrador passa para a primeira pessoa e revela que é um dos personagens. O Andaluz, sujeito gaudério que participa ativamente de duas histórias, é quem nos conta sua versão dos fatos (Spoiler). Desculpem pelo spoiler (asseguro que a informação não irá comprometer em nada o suspense). Tive que comentar este detalhe porque é meio irônico. Afinal, o tipo gaúcho não é protagonista da história missioneira, ao contrário de boa parte da nossa literatura, que trata de outros períodos. Machado não cai na vala comum do heroísmo e bairrismo gauchescos. Seu narrador é valente, ok. Mas também é um leitor ávido. E estas são só características mundanas. Assim, sem romantizar homens e seus feitos, o livro não oferece elementos de culto. Não são tempos maravilhosos ou de martírio louvável, que poderiam servir de gênese de um povo ou de uma identidade.

(Crédito: Não Editora)
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Como na desmitificação da mula sem cabeça, o romance sempre evoca a racionalidade. Podemos lê-lo como entretenimento e nos darmos por satisfeitos. Ou tentarmos fazer ligações entre a ficção e o pouco que aprendemos no colégio sobre o período missioneiro, absorvendo uma visão despojada, cética e alternativa da história.

Afinal, como é enfatizado ao longo das mais de 300 páginas, desde aqueles tempos coloniais, a Idade Média era pra estar acabando, cedendo lugar a um mundo mais iluminado. Quantos soldados perfilaram-se deste lado da trincheira?

Clique aqui para saber mais sobre o livro no site da Não Editora.

Clique aqui para ler mais sobre a Guerra Guaranítica no blog Pampurbana.

 

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