Abordagem do filme é eficaz, mas nada tem de memorável. (Crédito: divulgação)
Abordagem do filme é eficaz, mas nada tem de memorável. (Crédito: divulgação)

Os Últimos Sobreviventes (The Well, EUA, 2014)

Direção: Thomas S. Hammock

Roteiro: Jacob Forman e Thomas S. Hammock

Com: Haley Lu Richardson, Booboo Stewart, Max Charles, Jon Gries, Nicole Arianna Fox, Michael Welsh, Rena Owen, Michael Massee, Leo Lee, Barbara Cramton, Jacqueline Emerson e Michael McCarthy.

Os Últimos Sobreviventes é povoado por figuras violentas, na pior das hipóteses, e sem esperanças, na melhor. Habitando uma Terra árida na qual os recursos de água doce estão próximos de se esgotar e a última chuva caiu há dez anos, o tom do filme é melancólico como o de seus heróis. Embora por vezes não saiba o que fazer com a própria ideia e se perca em seu clímax, Os Últimos Sobreviventes é correto na caracterização daquele mundo sem lei, que remete fortemente ao western.

Kendal (Richardson) e Dean (Stewart) são dois jovens irmãos adotivos que vivem escondidos numa velha ruína, vivendo do poço que mantêm oculto e ocasionalmente ajudando os passantes. Como a escassez de água prejudica Dean, que tem insuficiência renal, Kendal vive à procura de uma peça para um pequeno avião monomotor abandonado com o qual pretendem fugir para um lugar mais generoso junto com o pequeno Alby (Charles), que também vive escondido nas redondezas. Naquela região, todos temem a influência de Carson (Gries), que possui um monopólio da exploração de água – e, somado ao seu fundamentalismo religioso, o sujeito passa a matar quem explora poços subterrâneos, poupando apenas os jovens e fortes que aceitem se aliar a seu grupo.

Como dito, a obra remete não apenas ao western não apenas em sua temática, mas em sua ambientação, com uma fotografia levemente superexposta que dá uma impressão de calor sufocante (algo que, infelizmente, o longa não aproveita como deveria ao trazer quase todos os personagens sempre limpos e bem penteados) e uma direção de arte que explora bem a aridez daquele mundo (a piscina vazia e os barcos cobertos de areia podem ser exagerados, mas funcionam). E se o elenco não preza por grande expressividade – algo que o filme consegue usar a seu favor, visto as enormes dificuldades que todos enfrentam -, isso é compensado pela eficiência da direção, que, seguindo um estilo direto e sem muitas firulas, consegue imprimir tensão às sequências de “ação” (que não são bem isso, já que Kendal sabe que é mais seguro se esconder do que atacar) e se destacando pela boa misé-en-scène nos confrontos físicos, que soam sempre dolorosos e sangrentos.

Em outro aspecto, o filme também lembra alguns elementos da atual onda young adult, envolvendo jovens buscando sobreviver num mundo pós-apocalíptico. Aliás, Kendal parece um papel escrito com Jennifer Lawrence em mente, pois é o tipo de personagem que a atriz se especializou em fazer (e não duvido que um grande estúdio escalaria Lawrence): independente, capaz de se defender sozinha, responsável pela segurança de outra pessoa e tem uma visão pragmática do mundo que a cerca, onde ajudar até passantes sedentos pode não resultar em coisa boa – e mesmo a dinâmica estabelecida pelo roteiro entre Kendal e Dean lembra a de Katniss e Peeta na franquia Jogos Vorazes. Já o vilão desperta interesse por sua insistência em matar todos os que exploram “sua” água, mas parecendo fazê-lo menos por crueldade do que por um desejo de livrar os outros de toda aquela miséria; no entanto, ganha relativamente pouco tempo de tela, o que é uma pena.

Fragilizando-se consideravelmente em seu terceiro ato, quanto Kendal abandona o modo stealth de ataque que usara até então para se transformar na Noiva de Kill Bill (com direito a espada de samurai e tudo!), Os Últimos Sobreviventes é eficiente em fazer com que o espectador simpatize com seus protagonistas, torcendo (como eles) pelas poucas chances de sobrevivência que possuem. Já a história em que se encontram falha em envolver da mesma forma, tornando a obra um passatempo interessante, mas esquecível.

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