Na fluidez das sonoridades de David Gilmour

Foto: Edu Defferrari

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Na coletiva de imprensa que realizou em São Paulo antes de seu primeiro show no Brasil, David Gilmour, guitarrista e vocalista do Pink Floyd, comentou sobre a dificuldade de construir um repertório para a turnê de seu mais recente disco, “Rattle that Lock”. “Entre 1968 (ano em que começou a carreira no Pink Floyd) e hoje, há muito o que considerar. Há questões abordadas em canções antigas que não são mais relevantes hoje”, afirmou. O olhar cuidadoso para a seleção é o de um artista que conecta a sua consagrada trajetória musical de quase cinco décadas com a vontade de escrever o novo, e de falar para um mundo que se transformou – mas nem tanto – desde seus primeiros passos no rock. Um músico cuja produção vem fluindo pelos anos com uma marca sonora única e inconfundível.

Na noite da última quarta-feira, dia 16 de dezembro, Porto Alegre recebeu o quarto show dessa turnê na América Latina. A Arena do Grêmio sediou a apresentação do inglês e de seus parceiros de giro musical. Desde que subiu ao palco, às 20h55, cinco minutos antes do início previsto para o início do evento, até o final do show, após aproximadamente três horas de música, Gilmour conduziu uma noite de nostalgia para os fãs da lendária banda inglesa. Interpretou também finíssimas canções de sua carreira solo, dando destaque para faixas do CD lançado em setembro deste ano.

A aparente simplicidade de Gilmour ao tocar, com mais dramaticidade do que velocidade, extraindo solos elegantes e melódicos dos instrumentos, sem tirar um pé do terreno do blues, se traduziu em diversas formas no passar das horas, começando pela primeira música. Depois de uma introdução envolvente com a instrumental “5 AM”, que abre o disco “Rattle that Lock”, veio a faixa-título do álbum e da turnê. O espetáculo visual entrou em cena com a projeção, no telão circular ao centro do palco, da animação feita pela Trunk Animation para o clipe da composição, inspirada, assim como as imagens, em “Paraíso Perdido” de John Milton.

Foto: Edu Defferrari

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Em seguida, veio “Faces of Stone”. Abrindo mão das belas imagens da cineasta ucraniana Maya Deren utilizadas no clipe da música, cada instrumento que surgia em um crescendo foi responsável por hipnotizar os fãs pelo andamento. Ao longo da primeira parte da apresentação, desse disco, ainda seriam tocadas “A Boat Lies Waiting”, com seus teclados marcados e destaque para o conjunto de vozes, e “In Any Tongue”, acompanhada pela impactante projeção de animação dirigida por Danny Madden. As imagens de guerra, conectadas com a letra relacionada à violência, provaram que os temas de Gilmour são de ontem e de hoje.

Mas primeira música do setlist do Pink Floyd, a terceira a ser tocada em Porto Alegre, foi a que colocou gás no público do estádio. Os primeiros acordes de “Wish you where here”, do disco de mesmo nome, levaram milhares a levantarem seus celulares para registrar o momento e, em seguida, ouviu-se o grande coro cantando com Gilmour. A composição, homenagem a Syd Barrett, um dos criadores do Pink Floyd, trouxe à memória o artista falecido em 2006.

A catarse também foi grande com a execução de “Money” e “Us and Them”, faixas de “The Dark Side of The Moon” que, em vários momentos, levaram o foco ao saxofonista brasileiro João Mello, integrante da banda de Gilmour nessa turnê. “High Hopes” fechou a primeira parte do espetáculo rememorando uma das mais emblemáticas obras do grupo, que está no disco “The Division Bell”. Apesar de parecer totalmente conectado com o público e com a música que estava levando à Arena, Gilmour, simpático em seu jeito reservado, falou apenas ao final deste primeiro bloco do show, agradecendo com um sorridente “obrigado” em português e anunciando o intervalo.

Foto: Edu Defferrari

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O retorno foi poderoso e, mais uma vez, acompanhado pela lembrança de Barret. A psicodélica “Astronomy Domine”, do disco “The Piper at Gates of Dawn”, abriu o segundo trecho do show, seguida pela esperadíssima “Shine On You Crazy Diamond (Parts I-V)”, do disco “Wish you where here”. Após a interpretação dessa música, cujo refrão ecoou diversas vezes pelo estádio, Gilmour rememorou, empunhando o violão, “Fat Old Sun”, de “Atom Heart Mother”. Os versos “Sing to me, sing to me”, cantados com uma voz já rouca pelo tempo, mais ainda imponente, traduziram o sentimento de gente que esperou muito tempo para escutar a lenda do rock em terras brasileiras – impossível não reparar nos coetâneos do britânico de quase 70 anos que marcaram presença.

Nesse segundo bloco, “Rattle That Lock” ainda se fez presente através da vibrante “Today” e da jazzística “The Girl in the Yellow Dress” – mais uma beneficiada pelas belíssimas animações de Danny Madden, no caso, do próprio clipe, projetadas no telão. O disco solo de Gilmour “On the Island” teve uma música incluída: “In the Blue”, na primeira parte do espetáculo.

Do Pink Floyd, “Sorrow” foi a representante no setlist do disco “A Momentary Lapse of Reason”. A surpresa foi “Coming back to life”, de ” “The Division Bell”. “Run Like Hell”, que encerrou a apresentação antes do bis, trouxe a contribuição de Gilmour para o lendário “The Wall” para o estádio, com direito à banda usando óculos escuros. E, falando em bis, nada melhor do que encerrar a noite retornando a “The Dark Side of the Moon” e ao próprio “The Wall”: “Time/Breathe (reprise)” e “Comfortably Numb” deixaram a plateia em êxtase.

A relação sinérgica entre os membros da banda proporcionou um som de primeira e a própria conexão com o público, estabelecida mesmo sem muitas palavras por parte do britânico. A sensação que ficou é a de se ter presenciado um show histórico, com algumas das músicas mais fundamentais da trajetória do rock, ou ao menos algumas das mais bem costuradas no imaginário sobre o gênero. Ficou também a evidência de que a fluidez temática e sonora da música de Gilmour o fez atravessar as décadas e chegar ao ano de 2015, e à América Latina, como um jovem que carrega uma prolífica e antiga estrada dentro de si. Gilmour, com o legado do Pink Floyd e também para além desse legado, ainda tem muito a dizer e a fazer sentir.
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