A fórmula da empatia por zumbis

Gostaria de começar esse texto com uma pergunta: você sabe dizer qual foi a última vez em que ficou muito intrigado com algo que viu na TV? Eu sei. No meu caso, foi em outubro de 2015 com o início da 6ª temporada da série norte-americana The Walking Dead.

Rick Grimes e seu grupo irão enfrentar novos desafios a partir do dia 14/02 (Crédito: AMC/Divulgação)

Rick Grimes e seu grupo irão enfrentar novos desafios a partir do dia 14/02 (Crédito: AMC/Divulgação)

A série pós-apocalíptica começou sua nova temporada quebrando recordes na televisão brasileira, fazendo a FOX pular para o 3º lugar no ranking de audiência entre emissoras de canal aberto e fechado, ao realizar a estreia simultânea com os Estados Unidos. Muito disso, acredito, se deve a ótima ideia de fazer uma megamaratona antes de sabermos o que o grupo de Rick Grimes iria enfrentar. O timing foi perfeito, com um feriado nacional (12/10 – Dia de Nossa Senhora Aparecida) logo após a estreia para que todos pudessem se recompor após a sessão de 67 episódios, praticamente sem intervalos comerciais, e a emoção de um começo com milhares de zumbis, talvez uma quantidade maior do que de todas temporadas juntas.

E, assim, essa primeira parte começou eufórica, com picos de vibração e excitação e, claro, alguns momentos de “queda” na ação também. Toda série é pensada dessa maneira, em momentos muito empolgantes que farão o público ficar grudado na TV e aqueles que servem para continuar construindo a história até chegar a outro ponto muito emocionante. Vi e revi muitos episódios de TWD e muito mais dessa última temporada – o fatídico episódio Thank You devo ter visto umas 7 vezes – porque sempre há algo que passa despercebido, uma fala que não pareceu grande coisa no momento, mas quando olhamos novamente lembramos de fatos passados, conectamos situações e temos grandes clicks sobre o que pode acontecer a seguir.

Cena de Thank You, um dos episódios mais comentados da temporada ( AMC/Divulgação)

Cena de Thank You, um dos episódios mais comentados da temporada ( AMC/Divulgação)

The Walking Dead sempre foi uma série muito bem detalhada e com ótimos diálogos. Sempre que olho um episódio novamente percebo algo que não tinha reparado antes. É o jogo de palavras, a interpretação, a associação de fatos correntes com passados o que transforma ela em mais do que uma “série sobre zumbis”.  Não são poucos os episódios que nos fazem voltar no tempo para entender melhor como um personagem se transformou ao longo da série. Nessa 6ª temporada, tivemos um episódio de 90 minutos, o dobro do comum, para explicar a trajetória de um personagem que ressurgiu na trama, explicando a filosofia por trás das novas escolhas dele através de ótimos diálogos – e silêncios – com seu mentor. Confesso que no início também achava que era apenas sobre um mundo pós-apocalíptico, mas acredito The Walking Dead faz mais do que isso. Ela conta a história das relações humanas, claro que em um contexto de mundo caótico, onde em cada esquina você pode ser atacado por um morto-vivo. É sobre a busca de um local seguro para sobreviver, a criação de filhos sendo pai viúvo, o amor entre duas pessoas vindas de circunstâncias diferentes, a maneira de lidar com a morte. A grande moral dos filmes e séries do gênero é essa. A gente acaba tirando o foco dos ditos monstros e começa a lidar com o mostro real, o ser humano, observando como ele lida consigo mesmo em uma situação de estresse e o quão “humano” ele consegue se manter nisso tudo.

Os zumbis da série são criados pelo diretor e maquiador de efeitos especiais Greg Nicotero (Crédito: Instagram/Greg Nicotero)

Os zumbis da série são criados pelo diretor e maquiador de efeitos especiais Greg Nicotero (Crédito: Instagram/Greg Nicotero)

Essa crítica social presente no gênero foi trazida por George A. Romero, dos clássicos A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e Dia dos Mortos (1985), ele reinventou os zumbis e mostrou o que poderia estar por trás do horror. No entanto, a série mesmo trata da parte humana e não dos monstros como Romero fazia. Talvez tenha sido por todos esses fatores que The Walking Dead quebrou recordes de audiência no Brasil – e em todo mundo também. E, claro, não vamos esquecer a engenhosidade dos produtores que ficaram segurando um mistério durante 4 episódios inteiros nessa temporada. Tudo isso, envolvido em diálogos e cenas muito bem pensadas até a equação ser resolvida. Um fato interessante é que esse mistério conectou mais as pessoas, de uma maneira que há muito tempo eu não via. Muitas vezes entrei no ônibus, em bares, em restaurantes e percebi pessoas especulando sobre o que poderia acontecer a seguir. É como falou Scott M. Gimple, showrunner da série, no programa Talking Dead que vai ao ar depois de cada episódio nos EUA, o que eles fizeram foi criar algo que acontecia quando éramos crianças, de poder conversar com um estranho sobre TV, isso em mundo onde todos têm a liberdade consumir e ignorar o que quiserem.


Claro que surgiram muitas críticas falando sobre enrolação, falta de relação com os quadrinhos, etc. No entanto, eu não acho que foi isso o que aconteceu. Nessa temporada, vimos uma sequência de fatos que ocorriam simultaneamente enquanto os personagens estavam separados. O caminho escolhido foi mostrar o que estava acontecendo com cada parte do grupo, o que para mim é sempre interessante, pois ganhamos em detalhes, em cenas, em emoções diferentes. Fomos capazes de entender e sentir um pouco do que acontecia em cada local de uma forma muito intensa.

Se tudo isso foi um erro ou um acerto, se foi um bom início de temporada ou não cabe à quem julgar? Provavelmente, cada telespectador. Eu só aguardo ansiosamente para saber o que vai acontecer depois.

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