Coluna Gemis – A mídia e a relativização da pedofilia e da violência contra a mulher

O cartunista Ribs retratou o caso Láercio: Quanto mais mulheres tratadas como loucas, mais mulheres abusadas.

O cartunista Ribs retratou o caso Láercio: Quanto mais mulheres tratadas como loucas, mais mulheres abusadas.

por Nádia Campos Alíbio, do grupo Gemis – Gênero, Mídia e Sexualidade

Às mulheres, nos é imposto desde cedo que somos objetos de desejo para os homens. Nossa sexualidade é regulada e controlada, não somos criadas para termos autonomia dos nossos corpos. O consentimento muitas vezes é relativizado. Nossa criação nos fragiliza e nos deixa muitas vezes em situação de vulnerabilidade. São muitos os casos conhecidos em que há décadas separando casais. A vulnerabilidade de mulheres jovens dentro de relacionamentos com homens mais velhos está relacionada a diversos fatores. Em muitos casos também há não só a dependência emocional de mulheres jovens pela pouca experiência em relacionamentos, mas também dependências financeira e física em homens mais velhos.  

O caso de Laércio, ex-integrante do BBB16, é mais um exemplo de como assuntos como a pedofilia e violência contra a mulher são tratados na mídia: com relativização. O integrante do reality show foi acusado de pedofilia por declarações dentro do programa e com base em suas redes sociais. As condutas de Laércio foram denunciadas por Ana Paula dentro dessa edição do Big Brother Brasil. Apesar das denúncias, a reação da sister ao denunciar as condutas de Laércio foram encaradas como uma estratégia de causar polêmica e afetar um componente no jogo.

Segundo a lei, crimes de pedofilia, que incluem atos sexuais ou exposição em fotos, vídeos ou situações de cunho sexual, tem como a baliza a idade de 14 anos. Assim, segundo a lei, jovens de 15 anos já teriam responsabilidade legal para decidirem sobre sua sexualidade. Cabe lembrar que a lei é feita por uma camada privilegiada da sociedade, que é comandada por homens brancos cisgêneros ricos heterossexuais de meia idade. Assumir a lei como único argumento para balizar nossas condutas sociais é por vezes ignorar uma grande parcela da sociedade que é marginalizada e não tem seus direitos contemplados em políticas e leis por não pertencerem a lugares de poder simbólico e capital financeiro.

A naturalização da violência e de relacionamentos abusivos em narrativas da mídia hegemônica contribuem para a culpabilização das vítimas e para o silenciamento dessas violências. A discussão os colocou no segundo paredão do programa, em que Laércio foi eliminado com 54% dos votos. O caso ganhou repercussão nacional e diversos programas da Rede Globo colocaram em pauta a questão da pedofilia. Foi mais um caso em que houve relativização de uma situação de violência por parte da cobertura midiática.

Para além de casos isolados, a desigualdade de gênero que envolve a violência de mulheres jovens é um problema social generalizado. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular no final relevou que três em cada cinco mulheres jovens já sofreram violência em seus relacionamentos. Já um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que dentre as ocorrências de estupros, cerca de 70% dos casos notificados no país, ocorrem com menores. Mais da metade (50,7%) ocorreram com crianças com idade inferior a 13 anos.

Em 2014, ocorreram 47,6 mil casos de estupro registrados no Brasil segundo dados do 9º Anúario Brasileiro de Segurança Pública. Isso equivale a uma média de um estupro cada 11 minutos. O número é alarmante e, segundo o Ipea,, estima-se que o número de casos registrados representam apenas 10% dos casos. O perigo consequente da demonstração desse tipo comportamento em rede nacional contribui para a naturalização de relacionamentos abusivos.

O campo jornalístico também tem responsabilidade na transmissão de saberes em situações sociais. Desde 2015 existe a lei do feminicídio, de portaria 13.104/15. Essa nova lei alterou o código penal para incluir uma especificidade em crimes praticados por decorrência da condição de gênero. Apesar da realidade brutal diante da violência contra a mulher, é recorrente que em notícias haja o termo “crime passional” para definir agressões a mulheres. Dos 4.762 homicídios de mulheres registrados em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo a maioria desses crimes (33,2%) cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Isso significa que a cada sete feminicídios, quatro foram praticados por pessoas que tinham relações íntimas com a vítima. A estimativa foi feita pelo Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil, com base em dados de 2013 do Ministério da Saúde.

Desde cedo, somos criadas para cuidarmos de nossas bonecas, panelinhas e sermos vaidosas e dóceis. Enquanto os meninos são estimulados a conquistar e descobrir, nós mulheres somos embonecadas e cobradas se nos despenteamos. Precisamos nos cobrir, nos cuidar. Assim, ouvimos que “mulheres amadurecem mais cedo”. Em livros, histórias, propagandas, novelas, filmes e séries, o papel da mulher como frágeis e dependentes e dos homens como heróis fazem do campo simbólico um mantenedor de desigualdades de gênero. Para além de um caso isolado, exemplos como o de Laércio nos atentam para o perigo de mulheres jovens em relações abusivas com homens mais velhos e em como precisamos falar sobre a violência que nos silencia e nos atravessa dentro de casa, na televisão ou nas ruas.

Leia mais: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/

gemis*O Gemis – Gênero Mídia e Sexualidade tem como proposta a discussão sobre a produção jornalística relacionada as temáticas de gênero e sexualidade e suas implicações na construção da percepção social sobre estes sujeitos. O grupo escreve quinzenalmente no Nonada.

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