A diversidade do mangue da Nação Zumbi invade o Rio Grande do Sul

A Nação Zumbi trouxe seu maguebeat ara o bar Opinião (Foto: Fernando Halal/Nonada)

A Nação Zumbi trouxe seu maguebeat ara o bar Opinião (Foto: Fernando Halal/Nonada)

Fotos e vídeo Fernando Halal

Roubando conceitos da geografia, o manguezal é um ecossistema costeiro que pode ser entendido como um mosaico de diferentes formações, em que cada uma delas desempenha funções importantes para o equilíbrio do sistema em toda a sua extensão. A existência dos manguezais é extremamente importante para a manutenção da vida marinha, pois eles produzem alimento, produzem material orgânico. No Brasil, podem ser encontrados do litoral do Amapá até o de Santa Catarina.

Só o Rio Grande do Sul parece ter ficado fora de toda essa bela diversidade. Mas a seca acabou na última quinta-feira (7) quando a NAÇÃO ZUMBI subiu no palco do Opinião para apresentar na íntegra o clássico álbum AFROCIBERDELIA, que traz toda essa mistura do mangue pernambucano com ritmos como maracatu, eletrônico, rock, hip hop, e tudo mais que gere organicidade. Na década de 90, o conjunto Chico Science & Nação Zumbi foi o principal pilar do mangue beat, movimento cultural de Recife e uma verdadeira aula de como criar uma cena artística e influenciar toda uma geração (e as futuras). Vale a pena ler o famoso manifesto escrito por Fred Zeroquatro, do conjunto Mundo Livre S|A também muito importante para o movimento, intitulado “Caranguejos com Cérebro”, de 1992. Desde lá, a música brasileira até teve momentos de grande criatividade, mas nada tão original como esse. Afrociberdelia também foi o último álbum de Chico Science, o músico morreu precocemente em um acidente de carro em 1997. O que mais um cara desse poderia ter feito?

A banda tocou o Afrociberdelia na íntegra (Foto: Fernando Halal/Nonada)

A banda tocou o Afrociberdelia na íntegra (Foto: Fernando Halal/Nonada)

Toda essa aura em torno da banda deixou o Opinião bem lotado e agitado; havia, assim, uma atmosfera de LAMA no ar, que combinada com o calor e o som carregado de ORGANICIDADE de Du Peixe, Lúcio Maia, Dengue, Toca Ogan, e  Pupilo transportou o público para uma época em que a criatividade transparecia na música nacional. Um som tipicamente brasileiro, calcado na mistura e na diversidade de estilos para um público também diverso, gente que viveu a época e que agora está na casa dos quarenta e poucos anos; gente que conheceu através dos pais e também foi escutar; gente ainda mais jovem, que no ano da morte do Chico Science nem era nascido ainda. Mas essa é uma das características da boa arte: ela atravessa gerações, atravessa momentos e se constrói como um horizonte para os outros.

Em certo momento do show, uma fala de Jorge Du Peixe, o vocalista, expõe a preocupação com a intolerância, tão em voga ultimamente no País. Muitos gritos de apoio do agora público-manguezal grudados pelo suor e pela lama que descia de Pernambuco. Um verdadeiro caldeirão em ebulição que presenciou uma banda afinadíssima em uma noite que deve servir de inspiração para os caranguejos gaúchos. Se a natureza não nos deu manguezal, não deveríamos pelo menos tentar diversificar o nosso fechado sistema cultural? Falta para nós um solo com mais diversidade de caranguejos. Enquanto outras regiões do País parecem fundir melhor a música com outras manifestações artísticas, aqui ainda estamos arraigados a tradições que quase nunca são questionadas ou reinventadas.

O Nação Zumbi lá na década de 90 estava muito a frente do seu tempo, talvez ainda esteja a frente do seu tempo agora em 2016. Sempre é bom escutar as letras de Chico Science, não só com os ouvidos, mas com a mente aberta. Que o público gaúcho nunca se limpe da lama recebida nesse dia sete de abril.

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