Por enxergarem tão pouco e não verem o horizonte ao longe, nunca viam o sol nascer e nunca viam o sol se pôr. Em Yvy Ruxã’i só aproveitavam o sol em uma parte do dia.
Pouco tinham, pouco sabiam, pouco queriam. Mas sonhavam à noite. Enquanto dormiam, enxergavam tudo aquilo que durante o dia sua vista não teria alcançado jamais: as velhas histórias de seus avós, dos tempos de fartura e felicidade.

veredas-banner-300x300px (1)Desde quando a escritora Angela Hofmann veio até a Casa Veredas – espaço também conhecido como minha residência – para entregar seus livros, eu soube que dali teria de sair uma entrevista. São duas obras: Yvy Porã Porau e o rio de mel (Editora Mediação, 40 págs., 2014), a qual pertence o trecho que abre a presente entrevista, e o mais recente A fada e a fiandeira (Coleção Novos Contos de Fada, 32 págs., 2015). Ainda que esta última também mereça destaque – por trabalhar com uma protagonista feminina, Lysandra, que passa por um processo de transformação – o Veredas irá tratar da primeira obra citada.

O costume de folhear aleatoriamente as páginas de um livro recém recebido deixa de ser banal quando se tem Yvy Porã Porau… em mãos. Já na capa, Jaci, a personagem principal, nos olha de lado, com parte de seu rosto iluminado pela luz branda de um sol que se põe ou acaba de nascer. A mirada fixa soa quase como uma advertência: “leia-me com atenção”.Yvy Pora Porau e o rio de mel

A ilustração, feita pelo artista plástico, designer gráfico e ilustrador, Dane D’Angeli, é uma obra de arte. O processo de construção das imagens se deu a partir da pintura abstrata inspirada pelos grafismos, cosmologia e cultura dos Mbyá-guarani. As faces dos personagens parecem receber uma luz constante, seja da lua ou do sol, dando a impressão de estarem envoltos por uma aura.

Abre parênteses: escritora de livros infantis e infanto-juvenis, Angela é mestre em educação e licenciada em Ciências Sociais (Unisinos). Ela atuou em projetos educacionais e de assessoria pedagógica e, hoje, também desenvolve trabalhos com literatura voltada às escolas. Um dos contatos mais estreitos com o tema aconteceu entre 2002 e 2004, durante o seu mestrado em Educação, na área de políticas educacionais para escolas indígenas.

Na ocasião, durante uma tarefa acadêmica, a educadora visitou uma comunidade, em Viamão, na região Metropolitana de Porto Alegre. Lá, tomou conhecimento de problemas relacionados às demandas da escola indígena que não estavam sendo atendidas. “Eu me identifiquei com a causa. Acabei conversando com o cacique e os professores para saber se havia o interesse de eu auxiliar nesta discussão e na visibilidade da luta pela escola diferenciada e bilíngue”. Como resultado, Angela produziu a dissertação “Karaí nhe’e Katu: discussões em torno da escola de uma comunidade Guarani”. Mas Yvy Porã Porau… nasce bem depois. Fecha parênteses.

A generosidade, as relações de reciprocidade e trocas entre as aldeias norteiam a narrativa da obra, além do resgate da identidade e da memória ancestral destes povos. Tudo começa quando Jaci, desejosa de um filho que nunca gerava, assim como todas as mulheres da aldeia, sonha com uma abelha, a eiruba. Rayra, companheiro de Jaci, alerta para o significado enigmático da presença do inseto. Com o tempo, a visita das abelhas se torna constante, até que desperta, através da produção do mel, o sentimento de generosidade na comunidade indígena. Mas, caro leitor (a), não se deixe levar por este brevíssimo resumo, pois Yvy Porã Porau carrega sutilezas significativas.

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Angela é mestre em educação e licenciada em Ciências Sociais Foto: Priscila Pasko)

Ao contrário de obras que costumam explor este universo de forma idílica, Angela optou por dar espaço às sociedades indígenas emergentes. A escritora fala da sua vontade de representar o índio de forma atual. “Não mostro uma imagem idílica. Alguns livros que tratam da temática indígena se situam contando lendas. Assim, tu ficas dentro de um ambiente restrito e acaba não tratando da fome, por exemplo.”

Este trabalho, conta Angela, recebeu diversas influências. Uma delas, foi um livro que ganhou de um amigo, no qual era trabalhada a etnogênese (processo de autoconsciência de identificação). “Muitas comunidades, para continuarem existindo, tiveram que não falar. Optaram por não se autodenominar para não serem expulsas de terras.” Angela explica que não é algo racional, contudo elas são forçadamente caladas para não se expressarem, seja pelas religiões distintas, seja pela língua falada. Sendo assim, muitas pessoas escolhem por não se declararem índios ou negar que são.

A escritora lembra que, para os povos indígenas, tais processos são complicados. Para ela, a posse de terra e a questão agrária no Brasil montam o preconceito racial. A luta é por posse, pelo poder de território. “As elites conservadoras tentam construir um imaginário de que ‘índio não pode ter terra porque não trabalha’”. Os quilombolas também passam por isso, explica a educadora, assim como todas as culturas que têm uma relação com a natureza de equilíbrio, que não cultivam a ideia da superprodutividade. “Dizer que não tem índio ou dizer que não são quilombolas é poder dizer, ‘vocês não têm nada a ver com este território, ele nos pertence’. É uma não existência. A história do Brasil é uma luta por território, por resistência.”

Em Yvy Porã Porau, Angela quis levantar o tema de fortalecimento da identidade e da presença indígena até de quem não seria considerado como tal. No entanto, a escritora ressalta que não teve a pretensão de escrever um livro didático. Procurou inserir o assunto partindo de uma parte subjetiva pessoal. E o objetivo parece ter sido alcançado.

A palavra sagrada e o juruá 
Yvy Porã Porau e o rio de mel_Divulgação

Uy’a, alegria! Assim traduzo nosso momento. Eroma’endu’a!” Entre as 40 páginas de Yvy Porã Porau e o rio de mel, o leitor irá encontrar inúmeras expressões do vocabulário guarani e de origem tupi-guarani misturadas à narrativa. E tudo flui naturalmente, tanto que, lendo a história é perfeitamente possível compreendê-la sem decifrar o significado exato de cada palavra. Desta forma, a empatia com a trama acontece sem didatismo. O glossário fica lá no final, na última página.

Angela Hofmann pesquisou as palavras e as escolheu de forma que pudessem se encaixar poeticamente com a narrativa. ”Se ouvirmos um guarani, veremos que as traduções já são poéticas na maneira como eles falam”. A escritora ressalta que há certas expressões que não têm tradução, pois os indígenas usam menos palavras de quem não é, pois o vocabulário é menor. “Uma palavra pode significar muita coisa. Daí reside a poesia de que uma palavra é um oceano. Nós explicamos, falamos muito e perdemos o sentido, intelectualizamos demais. E eles, em poucas palavras, dizem muito”, diz admirada Angela.

O tema desperta o interesse da repórter que vos escreve e, indo de encontro à filosofia dos que pregam o condimento da palavra, volto a falar e pergunto à escritora sobre a importância que os indígenas dão à palavra. Angela esclarece: o uso das palavras são sagradas, eles não são educados para falar inutilmente. O povo guarani mantém esta orientação. “Eles fazem um silêncio que cala, mas é um silêncio necessário”, conta a educadora, destacando que os indígenas nos chamam de juruá (rio de boca larga). Dizem que a nossa fala perdeu tanto o sentido que precisamos escrevê-la no papel para que tenha valor.

Mediação e resistência 

Yvy Porã Porau Dane D'Angeli
Ilustrações do livro foram feitas por Dane D’Angeli Foto: reprodução)

Angela conta que os professores buscam Yvy Porã Porau… também em função da lei 11.645, que trata da obrigatoriedade do ensino da cultura indígena e afro-brasileira. “Infelizmente, ou felizmente, em função do dia do índio (19 de abril), a procura aumenta. Digo ‘infelizmente’ porque lembram do índio apenas nesta data. Por outro lado, acho bom que as pessoas estão buscando informação para não repetir a ideia do índio estereotipado”, explica Angela.

Os indígenas estão presentes na rotina urbana de grande parte dos brasileiros. Mas, como esta cultura não faz parte do núcleo de convívio de muitos, passa-se com indiferença por eles sem nenhum tipo de diálogo. O “estranho” representa perigo. Por isso, Angela tenta fazer o papel de mediadora nas escolas através do público infantil. “Às vezes, a criança tem vontade de colocar a mão nos objetos de artesanato e não coloca, tem vontade de se abaixar e não se abaixa”. Quando convidada, a educadora conta a história de Yvy Porã Porau…, canta a música que criou e brinca de roda. Aproxima elementos e realiza atividades de sensibilização ao tema.

É sabido que não apenas as crianças alimentam tal estranhamento. Por isso Angela faz um esclarecimento dando um exemplo: as mulheres indígenas sentadas nas calçadas, entre seus artesanatos e vigiando cestos com doações em dinheiro, não fazem mendicância. Em Porto Alegre, é garantido por lei que as indígenas possam exercer o pororó, o ato de poder sentar e estender a mão. “O exercício de pedir e receber é algo da cultura que elas exercem. Ou seja, não é uma mendicância como a gente está acostumado a tratar. É digno poder pedir e receber. Se tu pedes, sabes que estás dentro de uma ordem de abundância e, sendo assim, tu também podes dar. Não é inferior estar ali pedindo”.

Ivy Porã Porau… circulou além dos não-indígenas. Ele foi entregue em uma escola de aldeia guarani. É este ponto que Angela faz questão de explicar. “Para os indígenas, um livro não tem importância. A letra escrita não tem a relevância que nós damos. Para as crianças guaranis e para os mais velhos que estavam presentes quando eu entreguei o livro ao líder daquela comunidade, receber um livro é um aculturamento.” A escola, contextualiza a escritora, está em um lugar relativizado, onde eles estão inseridos porque precisam. Pelas consequências históricas, devem aprender a língua portuguesa para resistirem e sobreviverem (aqui, Angela faz questão de ressaltar que essa é a sua opinião e não necessariamente a dos indígenas).

Levando em conta que a cultura indígena é predominantemente oral, um livro como Yvy Porã Porau… tem maior importância para os não-indígenas. “Para nós, serve mais como aproximação não só da temática indígena, mas da poética. [o livro] É importante por representar um universo, mas não por ter um valor em si. Os indígenas não precisam ficar atrás agradecendo, entende? Eles têm outra relação. Isso não é um favor, na verdade, é um dever nosso.”

 

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