(Foto: Acervo documental da Fundação Iberê Camargo)
(Foto: Acervo documental da Fundação Iberê Camargo)

Por Leonel Mittmann

A data é 5 de dezembro de 1980, uma sexta-feira, e são três horas da tarde. No Rio de Janeiro, a temperatura ultrapassa os 30°C, e a decoração natalina convive com a paisagem natural do Pão de Açúcar e a suntuosidade do Cristo Redentor sobre o Corcovado. Iberê (Bassani de) Camargo sai de seu atelier, localizado na Rua das Palmeiras, acompanhado pela jovem secretária de 27 anos Sueli dos Santos Silva, à procura de uma loja, em busca de cartões de Natal para entregar aos amigos. O consagrado pintor gaúcho de 66 anos está na Rua Sorocaba, quase esquina com a Voluntários da Pátria, bairro Botafogo, quando é surpreendido pela discussão de um casal, acontecimento que o faz parar e observar a situação. O homem percebe o olhar indiscreto do artista gaúcho e lança uma indagação de advertência:

– O que você está olhando?

Iberê responde:

– Não estou olhando nada.

Logo após, o mesmo homem anda em sua direção e lhe dá um empurrão com as duas mãos, o que faz o artista perder o equilíbrio e cair no chão. Suely, vendo a situação, se mete no meio e também leva um empurrão, ferindo o braço ao tombar. Iberê tira de sua bolsa estilo capanga um revólver Smith-Wesson, do tipo Magnum, de carga dupla e calibre 38, e ameaça:

– Não vem que eu atiro.

O ameaçado não revida e segue contra o senhor que, com a mesma facilidade com que manuseia um pincel, segura a arma. Iberê mira e faz cinco disparos: dois no tórax, dois no braço direito e um no braço esquerdo. O estranho cai de joelhos, as mãos e a cabeça tocam o chão. O homem está morto. O sangue pinta de vermelho o cinza do asfalto.

A versão de Iberê, presente em sua biografia Iberê Camargo: Origem e Destino, de Vera Beatriz Siqueira, narra o episódio em um mesmo contexto, mas aborda detalhes diferentes, vitimando-o e justificando os tiros contra Sérgio. “Na verdade, caminhava tranquilamente com minha secretaria à procura de cartões de Natal, quando fui surpreendido por grosseira e brutal interpelação de alguém que nunca havia visto antes. Fui agredido, ferido, derrubado, perseguido, sem compreender o motivo e, sentindo-me sob ameaça de maiores e mais graves agressões, saquei da arma para defender-me, disparando dois […] tiros”, assim descreve o artista. Outras versões, porém, relatam o disparo de três tiros, e não cinco ou dois.

O acontecimento, tido como a grande tragédia da história de Iberê, não mudaria somente sua vida pessoal, mas também, e muito, a sua produção artística. O fato foi um divisor de águas em sua existência. Tanto é que dois anos mais tarde ele decidiu ir embora do Rio de Janeiro e voltar para Porto Alegre. O impacto do episódio no espírito do pintor deixou traços que emergem da sua obra. Essa mudança de caráter pode ser observada fazendo uma comparação entre as telas de 1960-70 e as do início da década de 1980. O ápice da decomposição em elementos abstratos adquirido em obras como Desdobramento (1978), Painel (1966), Núcleo (1963) e Ascensão I (1973), a diluição das formas e a deformação da linguagem, oposta à mimese dos anos 1950, é atenuada pelo reaparecimento da figura humana. Obras como Carretéis com Figura (1984), Reminiscência I (1980), Ciclistas (1989), Fantasmagoria (1987) e A Idiota (1991) se concentram sobre a imagem humana. Esse novo fôlego à figuração é acompanhado de um simbolismo poético melancólico, uma atmosfera ilusória e formas plásticas tomadas de expressividade. O drama é perceptível pelas cores frias e escuras, a densidade das formas, a pouca luz e as pinceladas nervosas.

– Acompanhei a obra dele, que mudou no sentido de se tornar figurativa. Quando ele voltou pra Porto Alegre fizemos uma exposição no Centro Comercial da Azenha, e já aparecia uma figura humana, a abstração sumiu, os trabalhos foram ganhando forma. – analisa o crítico de arte e marchand Décio Presser.

E completa:

– Acho o trabalho dele importante dentro do Estado, mas fora do Brasil não, ele não é uma figura internacionalmente conhecida.

A Idiota (1991), óleo sobre tela
A Idiota (1991), óleo sobre tela

O mercado da arte não deixou nas arestas este fato que prejudicou a imagem do artista e o fez sofrer retaliação. Mas, apesar desse desfavorável acontecimento na valorização de seu trabalho, Iberê vivia um momento bastante próspero em sua carreira. A partir dos anos 1950, no Brasil e no exterior, a arte abstrata era avaliada por um ramo da crítica especializada como sinônimo de qualidade estética. Clemente Greenberg, um famoso crítico norte-americano, defendia que a história da pintura moderna se devia ao avanço da planaridade e da abstração, compreendidas por ele como atributos fundamentais da linguagem pictórica. Nos anos 1980, a produção artística da década de 1950 teve um aumento de mais de 400%. Iberê torna-se, junto do pintor Eduardo Sued e do escultor Franz Weissmann, um dos artistas brasileiros mais valorizados. A propagação da pintura neoexpressionista dentro e fora do Brasil também explica o sucesso de Iberê na época, aliado ao seu elevado padrão de qualidade nos trabalhos.

As obras produzidas pelo artista na década de 1980 foram o norte da exposição Iberê Camargo: As Horas (O Tempo Como Motivo), que inaugurou em março de 2014 e teve curadoria do italiano Lorenzo Mammì. Na fala do curador, ele diz que quis mostrar na exposição que o fato do pintor ter voltado à figuração dramática, em que mistura objetos e autorretratos, já integrava um processo que estava em andamento.

– A mudança depois do crime não foi tão marcante como se diz, na verdade tinha acentuado alguns aspectos, mas elementos que estão nas obras de 1980 já estavam nas do final de 1970 – explica Mammì, que é um dos críticos de arte mais influentes do Brasil e professor na Universidade de São Paulo (USP).

Uma novidade que aparece nesse período é a descontinuidade do espaço, elementos mais antropomorfos e a mistura de elementos. Com essa mudança de comportamento, pela qual Iberê fez essa alteração da gestualidade e da figuração, ele antecipou um pouco o que aconteceu no Brasil com a pintura jovem dos anos 1980.

– É o momento em que ele muda, mas ao mudar ele se torna, apesar da idade, uma espécie de vanguarda da pintura brasileira. Embora seu pouco interesse pela vanguarda, ele se tornou uma referência. Naquela época, os jovens artistas olhavam para ele porque o tipo de espaço e representação que ele usava era antecipador e muito mais madura do ponto de vista técnico – esclarece o crítico, para quem a entronização de Iberê como grande pintor brasileiro começa na década de 1980.

Iberê era um homem que vivia rodeado de amigos. Sua casa estava sempre cheia, jantares eram promovidos para os mais chegados e, em seu atelier, era comum encontrar pessoas assistindo a ele pintar. Era muito vaidoso e cuidadoso com sua aparência, estava sempre impecavelmente bem vestido. Tinha reconhecimento por trabalhar arduamente e ser muito perfeccionista. Geralmente iniciava a labuta às 10h e, muitas vezes, entrava noite adentro produzindo. O artista literalmente morreu trabalhando. Quando estava no leito do hospital, prestes a morrer, ainda fazia desenhos. Ele jamais chegaria atrasado em qualquer lugar, hábito que não tolerava. Tinha como praxe chegar sempre cinco minutos antes do combinado. A única vez que se sabe que faltou trabalho foi quando estava na Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do sul. Em sua ficha, resgatada por uma amiga para uma posterior exposição, só há uma falta em um dia no turno da tarde. O motivo da ausência foi uma visita que fez a uma namorada, em Canoas, para resolver um assunto com ela. Por ser uma personalidade muito influente, o pintor recebia considerável número de cartas, e nunca deixou de responder uma que fosse, conforme contam amigos. Iberê era dono de uma personalidade forte. Costumava dizer o que o desagradava sem titubear. Tinha várias manias

– Ele sempre fazia o caminho mais bonito, mesmo se esse não fosse o mais curto e prático – conta Lia Raffainer.

Ele nunca se filiou a nenhum movimento estético. Também não tinha religião. Sobre as características pessoais de Iberê, Décio comenta:

– Ele era uma pessoa muito geniosa. De vez em quando, eu frequentava o atelier, mas Iberê tinha uma personalidade forte e bipolar, tudo estava bem, mas de uma hora pra outra ele mandava todo mundo ir embora, e eu não gosto desse tipo de pessoa.

A reconstituição do processo sobre o homicídio e o rico detalhamento da apuração dos fatos só foi possível pelo material jornalístico que o escritor e jornalista Ivan Yazbeck possui guardado. Além de uma crônica publicada, ele tinha interesse em produzir um longa-metragem com a história. “Se esse crime tivesse acontecido com um artista de qualquer outro lugar do mundo, certamente viraria filme. Mas nesse país esses casos são ocultados.”

A vítima, o engenheiro Sérgio Alexandre Esteves Areal, tinha 32 anos, 1,75m e pesava 80 quilos. Trabalhava como projetista na Engesa, empresa de artefatos militares, e tinha como hobby pintar quadros a óleo, com temas de paisagens, barcos e casas. Pai de quatro filhos (dois, quatro, seis e sete anos na época do fato) e casado há oito anos com Sandra Maria Fernandes Leal, 29 anos no episódio. Morava com a mulher e as crianças em um confortável apartamento de três quartos, na Rua Sorocaba, a meio quarteirão da Voluntários da Pátria e da São Clemente, em Botafogo. Duas empregadas domésticas trabalhavam com a família de seis integrantes. Viviam bem financeiramente. Sérgio tinha um salário de Cr$ 130 mil, cerca de R$ 12 mil, em valores atualizados, e fazia pouco menos de um ano que adquirira o imóvel, financiado por um longo prazo. Em um perfil feito para um projeto de um filme (que não se realizou), Ivan Yazbeck descreve a vítima como “um profissional capacitado e habilidoso, estimado pelos colegas e respeitado pelos diretores”. A segurança era uma de suas preocupações. No jornal impresso, no rádio e na televisão as notícias do crescimento irrefreável da violência assustavam, mas a proteção dos bens adquiridos lhe garantia tranquilidade.

Na tarde ensolarada em que foi morto, o engenheiro recém havia retornado de uma viagem de trabalho a São Paulo. Ao chegar, encontrou um clima tenso: a esposa estava ocupada com as tarefas domésticas cotidianas, somadas à inquietação com o filho mais novo, Ricardo, internado com diarreia e ameaça de desidratação. “Ele botou uma calça e desceu para comprar remédio, Kaomagma (para o tratamento de problemas intestinas), e aspirina infantil”, disse Sandra em entrevista para a repórter do jornal O Globo, Norma Couri. A esposa também desceu para ir à farmácia e, no caminho, quando estavam na rua, em frente ao prédio em que moravam, o casal teve uma desavença banal. Ele encerrou a discussão, se afastou e seguiu caminhando, despretensiosamente, calça e chinelo de dedo. “Foi uma discussão besta. A gente não costumava discutir, a gente se tratava de amor pra cá, amor pra lá”, lembrou ainda Sandra. Nos próximos minutos, um atrito banal com um desconhecido o levaria à morte, baleado com tiros à queima-roupa. Em outra versão, presente em reportagem do jornal O Globo do dia seguinte ao crime, consta que ele trabalhou pela manhã, almoçou com o chefe e “pediu para não trabalhar na parte da tarde porque tinha que levar um dos filhos ao médico”, informou o superior, relatando ainda que eles se despediram por volta das 14h, antes de Sérgio foi embora para casa. Segundo pessoas da família do engenheiro, ao chegar no apartamento, ele levou o filho ao médico. Depois voltou à residência e colocou um short, dizendo que iria ao bar da esquina comprar cigarros. Antes de chegar ao bar, foi assassinado.

Fantasmagoria IV (1987), óleo sobre tela
Fantasmagoria IV (1987), óleo sobre tela

Iberê, o assassino, foi preso em flagrante e levado para a 12ª DP, na Rua Bambina, onde alegou legítima defesa. Foi encaminhado à prisão, no Ponto Zero, em Benfica. Logo em seguida a notícia do caso se espalhou. Amigos e adoradores de sua arte foram visitá-lo e acalmá-lo, entre eles o marechal Cordeiro de Farias, que entrou em contato com outro militar, o general Edmundo Murgel, na época Secretário Estadual de Segurança. Eles tomaram as atitudes para que Iberê recebesse uma deferência especial no cárcere. “Iberê é como se fosse meu irmão”, declarou o marechal para a jornalista Norma Couri de O Globo. “O homem mais decente que conheci na vida”, completou. Segundo Yazbeck, na crônica O pintor, o engenheiro e o repórter, nos veículos de comunicação que deram ampla cobertura ao crime – os jornais O Globo e Jornal do Brasil – não há registros sobre a interferência, também, do general Golbery do Couto e Silva, um dos homens mais influentes da ditadura militar, responsável, ao lado de outras pessoas, por proporcionar regalias e conforto mesmo que pintor não tivesse curso superior, como prevê a lei.

Em 5 de janeiro, Iberê Camargo recebeu habeas corpus e deixou a prisão. Participaram do julgamento, na 2ª Câmara Criminal, os desembargadores Jovino Machado Jordan (presidente), Arnaldo Duarte (relator), Sávio Soares de Souza (procurador) e Décio Itabaiana (membro). Na sessão, o advogado Técio Lins e Silva, que defendeu o pintor, disse que Iberê “entregou-se ao fato, à tragédia, enquanto poderia ter fugido, já que estava armado”, como está documentado em O Globo, de 6 de janeiro de 1981. O advogado da família de Sérgio, a vítima, criticou, dizendo que todos estavam ali “para julgar mais um privilégio para um privilegiado”. O último a falar foi o relator, desembargador Duarte, que justificou seu parecer favorável dizendo que “apesar da igualdade dos Direitos Humanos que a Constituição assegura, na sistemática da lei processual penal deve o juiz diversificar os indiciados ou réus ante as suas condições personalíssimas, separando, desde logo, em tanto quanto possível, na gama dos infratores, o joio do trigo”. Acrescentou também: “O réu em favor de quem se interpreta o habeas corpus não é um homem comum e, muito menos, de vivência de submundo amoral e criminoso”.

“Deus escolhe seu instrumento. O que posso dizer? Sofri, sofri”, foram as palavras do artista para o jornal, que definiram os 28 dias que ficou recluso na cela X-2 do xadrez especial do Regimento Marechal Caetano de Faria, no Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ele deixou a cela às 16h20min, vestindo camisa verde e calça bege, junto de amigos e parentes. Na Rua Frei Caneca, a movimentação de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas era grande. Às 18h47min, Iberê apareceu no portão do Regimento da PM, acompanhado do advogado, de assistentes e demais pessoas, e abordado insistentemente por jornalistas lançou a frase que inicia este parágrafo.

Durante o período em que esteve em cárcere, 28 dias, Iberê não parou de produzir, apesar da diferença do ambiente – o atelier dele, em Botafogo, tinha as janelas pressurizadas, totalmente isolado do barulho externo. Dentro da prisão ele fez alguns desenhos, um deles mostra a fachada interna do Regimento Caetano de Farias. A obra foi dada de presente a Wanderlei Gonçalves de Quintão, o Van, seu companheiro de cela, condenado junto de Maria de Lourdes de Oliveira, a Lou, por um crime em que foram assassinadas duas pessoas. Questionado sobre a não interrupção do trabalho na cadeia, Iberê respondeu: “A minha situação é como a de Pablo Picasso, quando lhe perguntaram o que faria se fosse preso e proibido de pintar. Ele respondeu que pintaria com a língua sobre o pó”.

Menos de dois meses depois do crime, em 30 de janeiro de 1981, Iberê ganhava liberdade. Fora absolvido liminarmente, pelo juiz Sérgio Verani, do 4º Tribunal do Júri. No julgamento do magistrado, Iberê teria agido em legítima defesa e usou o argumento de que foi o único meio possível e eficaz para se defender. “A inferioridade física era evidente. Enquanto o acusado tem a saúde debilitada, a vítima, jovem e forte, já tinha experiência em brigas, segundo se vê dos processos em apenso”, acrescenta a sentença, conforme está no jornal O Globo de 31 de janeiro de 1981. O promotor Roberto Ceglia fez alguns pedidos de diligência no processo. Um deles tinha como objetivo tomar os depoimentos dos peritos que assinaram o laudo de exame de corpo de delito em Iberê e em sua secretária. Ele desconfiava de que os peritos tinham assinado o laudo sem terem participado dos exames. O juiz não atendeu ao pedido, argumentando a perda dos prazos para alegações finais. “Não devo nem posso comentar as razões que levaram o jovem juiz a absolver sumariamente Iberê Camargo. Esses comentários serão feitos nas minhas razões do recurso. Mas uma coisa é certa: neste país, e disso tenho certeza absoluta, rico não vai para a cadeia”, criticou Ceglia.

Regimento Caetano de Faria (1981)
Regimento Caetano de Faria (1981)

Em entrevista coletiva dada em sua casa após a absolvição, e publicada na edição de 31 de janeiro de 1981, em O Globo, Iberê disse que não sabia o que fazer da vida. Reclamou do Rio de Janeiro e da violência da cidade, disse que estava insuportável viver na capital. Enfatizou também a diferença de quando chegou no Rio, em 1942, e aqueles tempos da década de 1980. Perguntado a que ele atribuía essa mudança ele respondeu: “Não sei. Mas acho que puseram pó-de-mico no mundo”.

O andamento da ação judicial não satisfez alguns dos envolvidos. No dia 9 de fevereiro de 1981 o promotor Ceglia e o advogado Clóvis Sahione entraram com recurso contra a sentença do juiz Verani. Sahione defendeu que a absolvição liminar determinada na sentença é “absurda, antijurídica e contraria o direito e a jurisprudência”. Ainda em sua fala, presente no jornal O Globo de 10 de fevereiro de 1981, ele disse que o processo possuía duas versões antagônicas e esse fato seria o suficiente para que o acusado fosse pronunciado e julgado pelo Tribunal do Júri. Ele rebateu a tese de legítima defesa, embasado em vários autores, alegando que faltou o primeiro tiro para o alto para intimidar a vítima. “Mesmo que esse tiro tivesse sido dado, haveria necessidade de os demais tiros terem sido disparados contra os membros inferiores da vítima, que estava desarmada. Entretanto, o pintor visou unicamente o peito da vítima, ou seja, atirou dolosamente. Ele queria matar o engenheiro”. O advogado declarou também achar estranho a pressa do juiz Verani em dar a sentença, proferida no seu último dia de trabalho, porque entraria em férias. Segundo ele, não havia necessidade de tanta pressa, já que o réu aguardava em liberdade pelo julgamento. Iberê possuía porte de arma e havia treinado tiro ao alvo em silhueta móvel, no stand de tiro do Corpo de Bombeiros de Humaitá. Apesar de provas e notícias sobre o curso, Iberê negou em um primeiro momento que tivesse aprendido a manusear uma arma, conforme está em matéria de O Globo de 6 de dezembro de 1980.

A 2ª Câmara Criminal do Tribunal, ao julgar a apelação, mandou o pintor a júri por homicídio simples. Porém, o desembargador Décio Itabaiana votou para que fosse mantida a primeira sentença, a do juiz Verani, em que o acusado teria agido em legítima defesa. Com base nesse voto, Técio Lins e Silva (advogado de Iberê) entrou com embargos no 1º Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça e pediu que fosse reformada a decisão e mantida a inicial. Porém, foi pedida a rejeição desse recurso pelo procurador Júlio Bergalho. Ele entregou ao 1º Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça um parecer no qual assinalou que mandar o artista a júri por homicídio simples é “a solução que se apresenta mais justa à luz das provas produzidas no processo.”

O caso foi encerrado em 2 de junho de 1982, no 1º Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça, por três votos a dois, e noticiado no dia seguinte no jornal O Globo. Os desembargadores Edgar Maria Teixeira, Faviano Franco e Miranda Rosa votaram pela absolvição liminar de Iberê, entendendo que o acórdão da 2ª Câmara Criminal – que mandara o pintor a júri – não estava de acordo com a prova dos autos. Os dois votos a favor do julgamento foram dos desembargadores Buarque de Amorim e Gustavo do Vale. Sobre a decisão, o advogado de defesa disse: “Além de acatada e justa, impediu a publicidade e o escândalo que se pretendia fazer em torno do fato”.

Quando soube da absolvição, Iberê estava em seu apartamento, em Botafogo, e recebeu a informação por telefonema de amigos. Sua mulher, Maria, que acompanhou o julgamento, disse em entrevista: “Na nossa idade, com tudo o que sofremos, será muito difícil apagar. Tudo o que disseram, as mentiras, a gente sofre muito. Estamos sofridos, é certo, mas agora já podemos respirar”.

Após o caso, Iberê distribuiu as seguintes declarações, que constam no O Globo de 3 de junho de 1982, registradas aqui na íntegra: “O Tribunal não julga pelas versões fantasiosas do fato, mas de acordo com a verdade real. Fui alvo da sanha dos ‘justus’. A minha imagem ilustrou a crônica policial, e a minha desgraça alimentou a subliteratura. Refocilaram no meu holocausto. Dia após dia, ouvi o ulular do lobo, que mora no coração dos perseguidores, presentes na seção de carta dos leitores de certa imprensa, nas chamadas de primeira página, na entrevista de sicários, no enquadramento da notícia. Usaram de todos os recursos para me manter atado ao pelourinho. De agredido transformaram-me em agente de violência. Para combatê-la, agrediram-me. Com o propósito de estigmatizar a minha imagem e atingir o meu saudoso e querido Cordeiro de Farias, amigo também na desgraça, distorceram o fato e manipularam a notícia sem solércia. Permaneci à mercê dos meus detratores, sem possibilidade de proferir uma só palavra de defesa. Calado, sofri o insulto, a chacota e a ignomínia da calúnia. Em Porto Alegre, meus quadros foram retirados da pinacoteca da Aplub. Não só: por um destino irônico – o mesmo que me tem guiado os passos nesta amarga quadra da minha vida –, eu próprio financiei o meu auto-da-fé, uma vez que as obras da pinacoteca eu as havia oferecido a pessoas que, posteriormente, as venderam à Sociedade. Agora, no pleno gozo da minha liberdade, posso repudiar de público a injúria dos escribas que, desrespeitando a verdade, não souberam dignificar o seu nobre instrumento de trabalho. A eles retribuo com o meu esquecimento. A ofensa atinge a quem a pratica. O apoio irrestrito dos amigos, o empenho dos meus advogados, e as dezenas de cartas e telegramas de solidariedade, que me chegaram às mãos, fazem-me esquecer um pouco que a vida me magoou. Justiça não se agradece, mas sou profundamente reconhecido aos meus julgadores.”

As páginas que descrevem a desgraça da vida pessoal de Iberê – mas que influenciou seu triunfo – não existem mais. O processo foi incinerado e nem ao número se tem acesso, segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro. Grandes nomes da crítica artística gaúcha ligados à Fundação Iberê Camargo (Fic) evitam falar sobre o acontecimento. “A Fundação lembra que não falemos muito sobre este fato, pois chama a atenção para fora dos trabalhos”, escreveu no e-mail que solicitava entrevista a crítica, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e responsável pela catalogação da obra do artista na Fic, Mônica Zielinsky. Subjugados às instituições do sistema das artes do Estado, ao que parece, tenta-se encobrir a mancha de um crime em uma (vendida) biografia gloriosa, o que, evidentemente, não arrebata de sua obra as merecidas qualidades estéticas.

*

“O último dos modernos”, assim intitulavam Iberê Camargo, um dos mais importantes pintores da arte brasileira do século 20, conhecido por uma extensa obra, que inclui pinturas, desenhos, guaches e gravuras. Nasceu no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Restinga Seca, em 18 de novembro de 1914, em uma família sem nenhuma tradição artística. Começou os estudos em pintura na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, em 1927. Seu primeiro emprego foi aos 18 anos, como desenhista técnico ferroviário, em Boca do Monte. Foi aprovado em primeiro lugar no concurso público da Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul, na função de desenhista e projetista, quando se muda para Porto Alegre, em 1936. Realiza sua primeira exposição em 1942, ano em que vai embora para o Rio de Janeiro, lugar em que viveu por 40 anos. Iberê conquistou muitos prêmios e participou de importantes exposições pelo mundo. Morreu em agosto de 1994, aos 79 anos, deixando um acervo de mais de 7 mil obras, a mulher, Maria, o gato, Martim, uma filha com quem nunca teve contato, Gerci, dois netos e três bisnetos.“Solidão” (imagem abaixo) é o último quadro pintado por Iberê, no ano de sua morte.

"Solidão" (1994) é o último quadro pintado por Iberê

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