ClaireCarre_director_300dpiNa saída de Apagados (2015, 85 min.), um conhecido comenta que achou o filme “regular”, referindo-se à pesquisa de opinião que o Fantaspoa pede que preenchamos ao final de cada sessão. Pergunto por que e ele diz que o longa não tem uma história capaz de nos prender, de nos identificar  com as personagens. Em certa medida concordo, mas rebato: se não há memória, como pode haver história?

Apagados – coprodução polonesa e estadunidense, com direção de Claire Carré – nos apresenta um futuro distópico em que a Terra está destruída e um vírus se alastrou pela humanidade. Até aqui nada de novo no front das distopias. Só que este vírus não provoca doenças deformantes, não transforma os seres humanos em zumbis, não provoca as forças da natureza a se voltar finalmente contra nós. Este vírus ataca a memória: poucos minutos em contato respiratório com o ar da Terra, aparentemente todo contaminado, é suficiente para que os sujeitos esqueçam o que viveram, quem são, quais as razões para estarem onde estão.

Sobre esse argumento, poderíamos imaginar as mais engenhosas peripécias e reviravoltas, mas o grande trunfo do longa é justamente fazer coincidir o seu tema com a forma e a linguagem utilizadas para abordá-lo. Num mundo esvaziado da carga de sentidos que cada pessoa lhe confere, dos significados que cada sujeito atribui à narrativa de sua vida: o que resta? O que resta de humanidade em humanos sem memória? Mais que uma obra narrativa, Claire Carré constrói um ensaio poético e imagético sobre essas questões. Se não há enredo envolvente, há uma soma de instantes significativos. Se não há uma trama engenhosa, há imagens e planos silenciosos e provocadores de reflexões.

No total, são cinco unidades de personagens que compõem um panorama sobre esse mundo distópico. Não sabemos seus nomes, por que estão daquele jeito, e não vemos perspectivas de mudança. Nesse sentido, não somos espectadores privilegiados: tirando algumas exceções, sabemos tanto das personagens quanto elas de si mesmas. O que assistimos, portanto, são excertos de um contínuo presente em que tudo permanece em aberto, ao sabor do acaso –  são vidas que não mudam porque não possuem o passado como referência, porque nenhuma experiência vira lembrança, porque nenhum acontecimento se acumula para dar sentido ao passar do tempo.

Dentre as cinco histórias, a única que escapa a essa descrição é a de Miranda Sandoval e seu pai, que vivem dentro de um bunker, isolados do resto do mundo, desde que o vírus se alastrou.  Se para os outros personagens, tudo é sempre novo, para Miranda todos os dias são iguais: aprisionada pelo tédio, ela acaba optando por deixar o abrigo e se juntar ao destino em branco do resto da humanidade. As outras quatro células do filme são um menino (Silvan Friedman) que vaga sozinho, encontrando abrigo com adultos que se dispõem a cuidar dele temporariamente; um casal (Iva Gocheva e Jason Ritter), que acorda na mesma cama sem saber que relação possui, tendo por único laço – sintam a ironia – um bracelete do mesmo tecido amarrado nos seus pulsos; um senhor ex-pesquisador (Tucker Smallwood) que busca nos livros e nas anotações uma forma de estabilidade que vença a perda de memória; e um homem jovem (Karl Glusman) movido apenas pela fome e a violência.

Cada um destes núcleos sensíveis nos dá amostras daquilo que sobra quando perdemos a massa de elaboração narrativa que constitui nossas memórias. Pode restar apenas o instinto de sobrevivência, que identifica os outros como potenciais inimigos ou presas. Pode restar o desejo de saber, a vontade de poder. Pode restar o desejo de conexão, a necessidade de amor, eternamente redescoberta. Em todas essas possibilidades, está a presença realçada do corpo e seus cinco sentidos. A cena que deixa isso mais evidente é quando o casal que desperta na mesma cama decide beijar-se para saber se “estão juntos”. A reação física de ambos – lembrança de toques, gestos e gostos – lhes permite admitir que sim (não dá pra negar uma intertextualidade com “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”). O núcleo narrativo do menino que vaga sozinho também insiste nessa preservação do afeto, porque, diferentemente das outras personagens, o garoto não fala, e todo o abrigo e alimento que ele consegue vem do desejo de cuidado que desperta nos adultos.

“Agora é agora (…) E agora é agora”, repete um dos homens que este menino encontra pelo caminho. Se para algumas filosofias de matriz hedonista este é o mantra que nos permite ser livres e seguir em frente para viver o eterno novo, o primeiro longa de Claire Carré  nos provoca a pensar em sentido contrário. Basta o agora? – O foco no presente se reflete no foco da câmera em trocas de olhares, gestos, planos fixos em paisagens e rostos. Bastam essas imagens para nos dizer o que importa (pela presença e pela falta) – É isto: agora pode ser potente, mas não basta. Por essa razão, concordei apenas em parte com as afirmativas do rapaz referido lá no início do texto. A questão não é que o filme falhe em apresentar uma narrativa sólida e apaixonante, o filme acerta em nos mostrar na telona o esvaziamento de sentido, da vida e do mundo, quando não há memória que costure a teia dos acontecimentos, quando se perdem as narrativas significativas de cada sujeito.

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