“O que o August fez foi muito lindo, ele honrou o negro comum. Às vezes nós não precisamos sacudir o mundo e criar algo que estará nos livros de história. O fato de nós respirarmos, viver a vida e ser um Deus para as nossas crianças já é motivo para que a nossa história mereça ser contada. Nós merecemos estar no cânone, no centro de qualquer narrativa e foi isso que o August fez. Ele elevou meu pai, minha mãe, meus tios que foram até a 8ª e 5ª séries, e os encapsulou na história. Obrigada, August. Obrigada.” (Viola Davis ao receber o SAG Awards 2017 de melhor atriz coadjuvante em filme, por “Fences“)

 

O criador do The Pittsburgh Cycle

Uma das primeiras lições que uma pessoa negra aprende é a de que não basta ele ser comum, ele tem que ser melhor. Isso porque ele é negro. Todo negro sabe que para conseguir algo, ele precisa fazer duas vezes mais esforço que uma pessoa branca, pelo menos. Infelizmente, essa é uma das características em ser negro. Essa lição guiou a carreira de August Wilson (1945-2005), um dramaturgo que dedicou sua vida a contar histórias sobre a vida dos afro-americanos.

Sendo o quarto de seis filhos, Wilson nasceu Frederick August Kittel Jr., nome de seu pai alemão. Entretanto, assumiu o sobrenome de sua mãe, Daisy Wilson, em 1965 após a morte de seu pai não muito presente. Wilson aprendeu a ler com quatro anos de idade e com 12 passava dias na Carnegie Library of Pittsburgh (biblioteca pública da cidade) lendo apenas autores negros, como Ralph Ellison, Richard Wright, Langston Hughes e Arna Bontemps. Ele chegou a trabalhar em publicações impressas como a Harper’s Magazine, pois tinha o sonho de ser escritor, contrariando o desejo de sua mãe, que queria um filho advogado.

Em 1968, Wilson fundou seu primeiro teatro, o Black Horizon Theater, no Hill District, um conjunto de bairros majoritariamente negros de Pittsburgh. Suas primeiras peças tinham ingressos a 50 centavos. A pró-atividade de Wilson fez com que mais produções e teatros fossem criados para comunidade negra. A prolificidade do dramaturgo chamou a atenção de Lloyd Richards, negro, diretor de teatro e reitor da Yale School of Drama. Richards introduziu Wilson na Broadway em 1984 com a peça “Ma Rainey’s Black Bottom”, uma das dez peças escritas por Wilson com a mesma temática: elevar a consciência pelo teatro e mostrar a poesia na linguagem cotidiana da América negra: o The Pittsburgh Cycle.

The Pittsburgh Cycle 1
Em Janeiro de 2017 “Jitney” estreou na Broadway, era a única peça de Wilson que ainda não tinha ido para o distrito teatral

Conforme a tradução, O Ciclo de Pittsburgh é um conjunto de dez peças que passa a experiência de ser um negro americano ao longo do Século XX. Tanto que o conjunto também é conhecido como The Century Cycle (O Ciclo do Século), pois cada peça se passa em uma década e conta histórias sobre as relações entre famílias negras. “Gem of the Ocean” (década de 1900, estreou em 2003), “Joe Turner’s Come and Gone” (década de 1910, estreou em 1986), “Ma Rainey’s Black Bottom” (década de 1920, estreou em 1984), “The Piano Lesson” (década de 1930, estreou em 1987), “Seven Guitars” (década de 1940, estreou em 1995), “Fences” (década de 1950, estreou em 1985), “Two Trains Running” (década de 1960, estreou em 1990), “Jitney” (década de 1970, estreou em 1982), “King Hedley II” (década de 1980, estreou em 1999), “Radio Golf” (década de 1990, estreou em 2005).

A única peça que não se passa em Pittsburgh é “Ma Rainey’s Black Bottom”, situada em Chicago. O título faz alusão à música de Ma Rainey (1886-1939) que tem o mesmo nome, e fala sobre a black bottom dance, dança popular na década de 1920. Essa foi a primeira das dez peças a receber produção da Broadway, no ano de 1984. Assim como outras cinco produções do Cycle, essa peça foi premiada pelos críticos de Nova Iorque. Além desse reconhecimento, August Wilson também recebeu o Drama Desk Award, o Tony Award e o Pulitzer Prize por “The Piano Lesson” e por sua principal peça: “Fences”.

 

A grande história da família negra americana

The Pittsburgh Cycle
Troy Maxson já foi interpretado por atores como James Earl Jones (1987), Denzel Washington (2010), Esau Pritchett, (2013) e Lenny Henry (2013)

“Fences” estreou em 1983 no Eugene O’Neill Theater Center’s, em Connecticut, durante uma conferência nacional de dramaturgos. Porém ganhou notoriedade em 1987 quando chegou a Broadway e levou o Pulitzer de drama e o Tony Award de melhor peça.

A história se passa em 1957 no quintal de uma família negra de Pittsburgh. Troy Maxson é um homem que trabalha como lixeiro, porque sua vida como jogador de baseball não deu certo. Troy não conseguiu alcançar a Major League (liga de times brancos e ricos, como os Yankees e os Red Sox). Ele jogou apenas nas Negro Leagues, o campeonato onde só jogavam negros e que não dava dinheiro. Ele culpa esse fracasso profissional ao racismo da época e não aceita que seu filho, Cory Maxson, queira seguir os passos esportivos do pai. Rose é a esposa de Troy que dedicou sua vida à família. Ela criou Cory e Lyons, filho de outro casamento de Troy. Gabriel é o irmão mais novo de Troy, veterano de guerra que possui sequelas psicológicas do tempo em que serviu o exército. E Bono é o melhor amigo de Troy, que trabalha junto na coleta de lixo e é vizinho da família Maxson.

O nome fences (cercas) serve como uma metáfora para as relações dos Maxson. Ao mesmo tempo que uma cerca está sendo construída pelos Maxson, Troy procura ser rígido e distante de seus filhos, para que eles não se sintam despreparados ao enfrentar o mundo. Enquanto isso, Rose quer a cerca na casa para se proteger dos fatores externos, para que a família se una mais. Com este enredo, Wilson consegue discutir muitos temas sobre a vida de um negro nos Estados Unidos. Estereótipos como a melancia e Uncle Remus são postos em questão. A melancia foi trazida por escravos à América, logo associada à negritude. E a forma como os escravos comiam (com as mãos, se lambuzando) desqualificava o negro enquanto pessoa, do ponto de vista branco. E o Uncle Remus é a figura do negro “sábio” que sabe contar histórias como ninguém, popularizado pelo filme “A Canção do Sul”, no papel de James Baskett (1904-1948). Ele também representa o “negro mágico” que tem poderes e os usa para ajudar um branco.

As condições dos negros impostas pelo racismo também são abordados em “Fences”. Troy vive uma briga judicial para conseguir uma posição melhor em seu trabalho, alegando que não é promovido devido a sua cor. Gabriel mostra o descaso para com negros que lutaram pelos Estados Unidos nas guerras do Século XX e — como toda história negra americana — a peça discute o peso dado a quem é negro na sociedade, a relação com crimes. E aponta um problema dentro da comunidade negra: o estupro.

Diversos elencos de atores negros já encenaram "Fences"
Diversos elencos de atores negros já encenaram “Fences”

A importância de “Fences” para a comunidade negra é demonstrada pela reprodução da peça ao longo dos anos. A primeira aparição na Broadway foi de março de 1987 a junho de 1988. Foram mais de 500 apresentações com o elenco formado por: James Earl Jones (Troy Maxson), Mary Alice (Rose), Ray Aranha (1939-2011) (Jim Bono), Frankie Faison (Gabriel), and Courtney B. Vance (Cory). Em 2010, a peça voltou a principal palco do país com Denzel Washington vivendo Troy Maxson e Viola Davis no papel de Rose Maxson. Essa reedição foi indicada a dez Tony Award, ganhando melhor reedição, melhor ator e melhor atriz. Em 2013, a adaptação britânica, como Lenny Henry como Troy, foi aclamada na Inglaterra. E ainda existem outros diversos grupos de teatro formados por negros que encenaram “Fences”.

No final dos anos 1990, um estúdio de Hollywood procurou Wilson a fim de fazer uma adaptação para o cinema da peça. Ele recusou afirmando que apenas um diretor negro poderia trabalhar com o filme de “Fences”. “A minha decisão de não aceitar um diretor branco não foi tomada com base na raça, mas com base cultural. Diretores brancos não estão qualificados para o trabalho. Era necessário alguém que compartilhasse das especificidades da cultura negra americana”, declarou. Anos depois de estrelar a peça na Broadway, Denzel disse que tinha interesse em dirigir a adaptação para o cinema. Assim, o mesmo elenco que atuou junto do ator no teatro foi escolhido para o longa.

 

O legado

Wilson é considerado o maior dramaturgo negro dos Estados Unidos. (Crédito: David Cooper/Divulgação)
Wilson é considerado o maior dramaturgo negro dos Estados Unidos (Crédito: David Cooper/Divulgação)

August Wilson foi diagnosticado com câncer no fígado em junho de 2005 logo depois da estreia de “Radio Golf”, a única peça que faltava ser encenada do The Pittsburgh Cycle. No mesmo ano, ele terminou o roteiro para o filme “Fences”, que lhe rendeu uma indicação à categoria de Roteiro Adaptado no Oscar 2017. Wilson faleceu em outubro de 2005.

A casa onde Wilson morou na infância virou ponto histórico do estado da Pensilvânia, em 2007. No ano seguinte, o Conselho de Pittsburgh colocou a casa na Lista de Locais Históricos de Pittsburgh. Em 2013, a casa entrou para o Registro Nacional de Locais Históricos. Em 2009, foi criado o Centro August Wilson para Cultura Afro-Americana, localizado no centro de Pittsburgh. E no dia 16 de outubro de 2005, duas semanas após sua morte, o Virginia Theatre de Nova Iorque, parte do distrito de teatros da Broadway, foi renomeado como August Wilson Theatre. Wilson foi o único negro a conseguir o feito.

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Editor, apaixonado por Carnaval e defensor do protagonismo negro. Gosta de escrever sobre representatividade, resistência e identidade cultural.
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