Rafael Gloria e Thaís Seganfredo

Carijo, fogão campeiro, roda de capoeira, troca de sementes e de saberes entre os diferentes povos que formam o mosaico de culturas próprias no pampa gaúcho. A cidade de Dom Pedrito, quase na fronteira do Rio Grande do Sul, recebeu por quatro dias a segunda edição do Encontro Internacional dos Povos do Campo, que ocorreu no campus da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). 

A ideia era promover a integração entre os os povos do campo e a universidade pública, dando visibilidade às culturas camponesa, indígena e quilombola. Acampados no espaço da própria universidade, os participantes compartilhavam de troca de saberes e experiências também nas conversas coloquiais, criando um espaço diferenciado de aprendizagem. O Nonada também esteve acampado, participando e cobrindo o evento. 

Uma das questões mais discutidas foi o intenso avanço da soja na região do pampa, que vem pressionando economicamente os produtores de hortifruti e pecuaristas familiares, muitos deles assentados do MST. Eles denunciam que a soja, além de prejudicar o bioma, que não é propício para esse tipo de cultura, vem recebendo cada vez mais agrotóxicos, que chega aos pomares e hortas quando há vento. “A soja está na beira do nosso arame, a área que teria que ser respeitada não é. Hoje só me mantenho como pecuarista porque trabalho na cidade também”, lamentou Itamar, que explicou que a atividade de pecuarista familiar não exige que ele altere a vegetação do bioma, já que o pasto do pampa é propício para a atividade.

Pecuarista familiar participa da roda de conversa (Foto – Rafael Gloria/Nonada)

Outra notícia tem alertado moradores da região, ainda que a mobilização esteja incipiente: o projeto de implantação de uma mineradora de fosfato no município vizinho a Dom Pedrito, Lavras do Sul. A empresa Águia Fertilizantes, controlada por capital estrangeiro, já conseguiu licença prévia para construir a mineradora. No estudo aprovado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), um dos aspectos que mais preocupa os moradores é a construção de uma barragem, que pode atingir o rio Santa Maria, que abastece a região, caso haja rompimento. 

Segundo o Relatório de Impactos ao Meio Ambiente (Rima) apresentado pela própria empresa, “dentre as propriedades a serem afetadas pelo Projeto, a grande maioria possui uso destinado à pecuária (Figura 53), com a criação de gado sendo orientada a distribuição de uma cabeça por hectare. Em poucos casos há o arrendamento parcial ou integral do campo para soja.” Ao todo, 60 propriedades serão diretamente afetadas pelo empreendimento.

Em discussão, está o próprio modo de vida dos produtores e das comunidades tradicionais da região. Elizete Rabelo, filha de agricultores, assentada em Santana do Livramento, foi uma das representantes que falou sobre a atividade rural no pampa. “Há 26 anos sou assentada com muito orgulho. Vivo da terra, vivo da plantação. Meu dia a dia é corrido, porque eu trabalho, ajudo a instituição, dialogo com todo mundo. O MST começou começou na época que meu pai foi acampar, em 1984. Ali eu abracei essa causa e estou até hoje”, contou. Os produtores observam que cada vez mais pessoas têm abandonado a atividade e temem ter que seguir o mesmo destino.

Preparaçãao do carijo para produção da erva-mate (Foto – Neabi/Unipampa)

Para o professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) Marcio Neske, “é preciso destacar o papel dos agricultores familiares como guardiões da biodiversidade do pampa”.  Um exemplo dessa atuação é o trabalho dos agricultores com sementes crioulas e sementes orgânicas, caso da cooperativa Bionatur, que comercializa cerca de 30 variedades de sementes orgânicas. “Só não produzimos mais do que isso, porque tudo já está patenteado pelas empresas”, explica Marcelino. Para o pecuarista familiar Gilbran Silva, não é só na academia que existe pesquisa científica. “Agricultores são pesquisadores também, estão sempre produzindo conhecimento”, observou.

Oficinas de cultura quilombola, cigana e indígena também enriqueceram a programação do encontro. Uma das presenças mais marcantes do evento foi a aula da indígena Acuab, liderança charrua, etnia que era considerada extinta até pouco tempo atrás (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45947432). Confira no vídeo um trecho da fala da liderança:

Educação no campo

Foto – Rafael Gloria/Nonada

Voltado a formar professores para atuarem em escolas do campo presentes em territórios como aldeias, quilombos e assentamentos, o curso superior de Educação no campo tem ganhado novos espaços nas universidades federais. Uma das lideranças quilombolas presentes no encontro conta que cursa Educação no Campo para levar ao quilombo informações sobre a luta pelos direitos do seu povo e também sobre questões históricas que permanecem na sociedade, como a ehploraçao sehual de mulheres newras por homens brancos. “Estou cursando Educação do Campo para compreender e levar essas informações, buscando entender porque não conseguimos avançar. Nós temos sabedoria, mas só através da educação é que vamos nos libertar.”

A habilitação de docentes por área de conhecimento tem como um dos seus objetivos ampliar as possibilidades de oferta da Educação Básica no território rural, especialmente no que diz respeito ao ensino médio, mas a intencionalidade maior é a de contribuir com a construção de processos capazes de desencadear mudanças na lógica de utilização e de produção de conhecimento no campo.

Cíntia Saydelles, uma das organizadoras do evento e técnica na instituição, acredita que a importância do curso é muito grande. “Historicamente as populações do campo tiveram negado o direito ao seu próprio conhecimento. E o curso pensa na perspectiva de como trabalhar uma educação que seja dos povos do campo, com o protagonismo deles”, diz. 

Culturas do pampa em destaque na Unipampa (Foto – Cristiano Sant’anna)

Normalmente quando se pensa em campo, o imaginário logo vai para a natureza e os animais. Mas e quanto as pessoas que o povoam? Para o professor do curso Guilherme Gonzaga, o objetivo é também contribuir para que o camponês não tenha vergonha de si mesmo, visto que, muitas vezes, é marginalizado pela sociedade. “No campo tem pessoas, com a sua cultura, seu conhecimento e educação. Nosso curso na importância desses conhecimentos para a Escola, e que o filho do trabalhador rural tenha orgulho de lidar com o campo”, explica. 

Uma das peculiaridades do curso é a sua diferente periodicidade, prevendo dias letivos organizados em tempo na universidade e tempo na comunidade. “Trabalhamos também com o que chamamos de alternância. Então, nossos estudantes vêm em janeiro e em fevereiro para o campus. E de março a maio, nós professores vamos às comunidades, então se tem uma alternância de espaços de conhecimento”, diz Gonzaga. Entre algumas disciplinas do curso, estão Ciências da Natureza: diferentes abordagens, Movimentos Sociais e o Campo e Gênero, sexualidade e educação.

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