Como Mãe Bia de Iemanjá articula Carnaval e educação para fortalecer sua comunidade em Porto Alegre

Se hoje a mestra Bia da Ilha é referência para tantas pessoas, é porque nunca parou
Foto: Desirée Ferreira/Nonada Jornalismo

Porto Alegre (RS) – É dia de Carnaval na Ilha da Pintada, no arquipélago da capital gaúcha, e o bairro  vivencia uma movimentação diferenciada, com alguns foliões uniformizados com abadás e crianças fantasiadas. Mas o coração, a mente e a voz dessa festa se concentram no fundo da Ilha, em uma casa de madeira, perto do antigo Estaleiro Mabilde. Quem passa pela rua consegue ouvir uma mulher cantando um samba. Logo na entrada da sala, uma pequena roda de músicos acompanha a performance da dona da casa. Ela é uma mulher preta, na casa dos 60 anos, que gesticula e dança no ritmo da música. Essa é Beatriz Gonçalves Pereira, mestra de cultura popular, Mãe Bia de Iemanjá e conhecida por todos como Bia da Ilha.

O encontro musical é um ensaio da Escola de Samba Unidos do Pôr do Sol, da qual Bia é presidente. Quem vê a maneira leve, divertida e empolgante com que ela canta na sala de casa não imagina o trabalho que ela teve para “colocar o bloco na rua”. Desde às 7h da manhã, Bia está dando orientações que vão desde onde colocar os banheiros químicos do evento, como fritar o pastel de carne do lanche até quais são as músicas que devem compor o repertório da Pôr do Sol no desfile que vai acontecer naquela noite. 

Bia é conhecida por ser assim mesmo: capaz de mover mundos e fundos para promover cultura na comunidade, com ênfase nas tradições afro-brasileiras. Como uma boa mestra de cultura, ela não é só detentora de saberes e tradições. Ela se preocupa em propagar esse conhecimento, em fomentar as atividades culturais e ampliar os acessos. Articuladora nata, desde 1999 Bia mobiliza pessoas e recursos dentro e fora da Ilha para que o Carnaval aconteça.

“A gente não quer só comida e bebida. Nós queremos diversão e arte, porque isso faz parte do desenvolvimento humano. A gente não é gaveta! Nós somos um ser inteiro”, afirma Bia, parafraseando a famosa frase dos Titãs. 

Em 2025, o evento é ainda mais importante e simbólico. O bairro Arquipélago, do qual a Ilha da Pintada faz parte, foi um dos lugares de Porto Alegre mais atingidos pelas enchentes do ano anterior. Permeados pelas águas desde sempre, inundações não são novidades para o povo das Ilhas. Mas a tragédia climática de 2024 foi em uma proporção jamais vista. Milhares de pessoas perderam casa, móveis, itens de trabalho, carros, animais… Muitas nem voltaram. 

A casa de Bia também não foi poupada. Entre tantos objetos e móveis que ficaram submersos, estavam os instrumentos da escola de samba. Alguma coisa conseguiu ser salva ou recuperada, o restante dos equipamentos ela conseguiu emprestado em uma cidade próxima.

Para ela, todas as dificuldades e sofrimento que a enchente trouxe são, justamente, os motivos que reforçam a necessidade do Carnaval da Ilha da Pintada acontecer. “A música traz movimento, te levanta. O toque do tambor faz com que tu te movimente e transcenda o teu astral para outro mundo. Por alguns minutos, tu vai esquecer a tristeza e o que passou. Isso é bom porque faz com que a pessoa ande pra frente”, explica.

Mestra Bia na beira do rio Guaíba, olhando para o Centro de Porto Alegre. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Resistência cultural

Essa teimosia em seguir em frente é a marca registrada de Bia, característica que ela adquiriu de forma ancestral e que repassa para as novas gerações. Aretusa Gonçalves Pereira aprendeu dentro de casa a ter fé e confiar no caminho. Hoje com 45 anos, a filha de Bia cresceu vendo a mãe e outras mulheres da família não poupando esforços para recalcular rotas e persistir, mesmo em meio aos obstáculos. “Eu não tive muita representatividade masculina na minha família. Por isso, sempre fui ensinada a ser forte”, diz Aretusa. 

Ela lembra do momento em que Bia e outros moradores tiveram a ideia de montar uma escola de samba na Ilha da Pintada e conta, com orgulho, que ajudou a escolher o nome: Unidos do Pôr do Sol. “No início, era a criançada aqui na frente da casa da mãe que ficava tocando. Foi difícil, porque a comunidade não tinha a cultura de Carnaval. Aos poucos, foram aceitando e querendo participar.”

Hoje, Aretusa é rainha da escola que ajudou a nomear. Ela reconhece a importância que a sua mãe tem e a resistência cultural que a sua família representa, desde a geração da sua avó. Dona Leoni Gonçalves Pereira, mãe de Bia, chegou na Ilha da Pintada criança, acompanhada do pai e irmãos, em 1956. Eles faziam parte das primeiras famílias negras a morarem no local. E isso não é pouca coisa.

Naquela época, a Ilha era povoada por uma dezena de famílias de pescadores, em sua grande maioria brancos. Ofensas racistas, discriminação e ataques contra as religiões de matriz africana acompanharam o crescimento não só de Leoni, como de Bia e toda a família. “Fui crescendo querendo fazer diferente. As pessoas falam que sempre foi assim. Aí eu digo: mas nós vamos ter que mudar”, declara a mestra.

Bia rodeada da família. Da esquerda para a direita: Aretusa Gonçalves Pereira (filha), Leonan Gonçalves da Silva (sobrinho), Leoni Gonçalves Pereira (mãe), Sabrina Cardoso Madruga (sobrinha) e Lair Adolfo Contreira (marido). Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Mil em uma

Quem conhece a Bia desde pequena diz que ela sempre foi assim: corajosa e determinada. Logo cedo, ela entendeu que precisava lutar por si mesma e pelos seus para ter a garantia de direitos mínimos de moradia, segurança, educação e cultura. Foi com esse ímpeto de provocar transformações que a trajetória de Bia cruzou com a militância negra, com as práticas de cultura popular e com as tradições religiosas da Umbanda.

Ao longo da vida, Bia foi acumulando diferentes funções e atividades, mas o propósito continua sendo o mesmo: fazer a diferença. Ela não quer passar pela vida em vão. Aliás, ela diz que não pode deixar que isso aconteça por respeito a todos os ancestrais pretos e pretas que vieram antes dela. “Se hoje eu tô aqui e posso falar é porque muita gente foi humilhada e morreu. Então, qual é o meu papel? Não posso passar em branco”, declara.

Além de cantora e presidente da Pôr do Sol, Bia também é educadora social e dá palestras sobre a cultura afro-brasileira. Carrega seu tambor para encontros com diferentes tipos de grupos, desde escolas até policiais civis. Entre conversas e batucadas, ela educa e combate o racismo. Também já ministrou dezenas de oficinas de bonecas Abayomi, feitas com retalhos de tecido e nós, símbolo de resistência negra. Hoje, ela lidera duas instituições sem fins lucrativos dedicadas a ações de impacto social: a Associação Afrosol e o Instituto Camélia.

Mas o trabalho como agente transformadora da Ilha da Pintada não para por aí: Bia também é conselheira do Orçamento Participativo de Porto Alegre, representando o bairro Arquipélago nas decisões de uso dos investimentos públicos. Cultura é uma das bandeiras que carrega e conta orgulhosa de como ela e os colegas conseguiram aprovar recursos para financiar os gastos com o Carnaval, com festas religiosas e populares e oficinas culturais em escolas e entidades do bairro. “É 100% voluntário. Tu tem que ter amor pela comunidade e pelo próximo, porque é um trabalho para o coletivo”, afirma.

Instrumentos usados pela Escola de Samba Unidos da Por do Sol no desfile do Carnaval da Ilha da Pintada 2025. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Oi, mãe!  

Leonan Gonçalves da Silva cresceu ouvindo a voz de Bia: seja no Carnaval, no terreiro, reivindicando direitos ou falando sobre empoderamento. Ver a tia em ação desde cedo — colaborando com a cultura do bairro, lutando nas enchentes ou pelos povos de tradição africana — moldou o seu caráter. Conforme foi crescendo, ele passou a compreender a grandeza e a importância do trabalho de Bia e, hoje, a define como alguém “necessária”. “Ela é necessária para tudo que a gente já viveu, está vivendo e ainda vai viver. É alguém que tem um poder muito forte na oratória e que consegue defender e dar voz para muitas pessoas”, afirma.

O sobrinho foi uma das crianças que tocaram no início da Escola de Samba Unidos do Pôr do Sol e segue na arte até hoje. Além do envolvimento com o Carnaval, Leonan trabalha com música e produção artística, levando os ensinamentos de Bia por onde quer que vá. “Quando penso no que ela me ensinou, poderia citar fundamentos religiosos ou a música, mas ela tem uma sabedoria muito grande com a vida. Sabe a hora de falar, de calar e de se posicionar.”

Segundo Leonan, não há uma vida sequer ali que não tenha sido impactada pela mestra. Fica fácil perceber isso ao caminhar pelo bairro ao lado de Bia e ver tantas pessoas parando-a para cumprimentar e conversar. “Oi, mãe!” é uma frase bastante ouvida nesses momentos, já que Bia tem cerca de 60 filhos e filhas de santo, acolhidos ao longo dos anos em sua trajetória religiosa. E a responsabilidade de uma dirigente espiritual é grande: além de oferecer cuidado e apoio para seus filhos, Mãe Bia de Iemanjá também protege e perpetua o conhecimento e a tradição da Umbanda.

Aos 15 anos, quando sua mediunidade começou a se manifestar, Bia jamais imaginou que um dia estaria à frente de um terreiro. Inclusive, sua mãe, Dona Leoni, não apoiava que a filha seguisse esse caminho, justamente por toda a repressão que sofreu no bairro, quando a intolerância era tão grande que não havia espaço para as religiões de matriz africana. Mas não teve jeito: a espiritualidade e a liderança de Bia falaram mais alto, para a felicidade de todos que hoje encontram acolhimento e força em seu axé.

Ela foi, pouco a pouco, conquistando o espaço que antes lhe era negado. Os olhares de discriminação foram se transformando em curiosidade, até chegar a uma convivência mais pacífica e respeitosa. Bia organiza festas religiosas não só no seu terreiro, mas também em outros pontos do bairro, abertas para toda a comunidade. É a oportunidade de marcar presença, construir diálogo e promover convivência em um território que já foi muito hostil para quem segue uma religião de matriz africana.

“Eu posso tocar meu tambor na escola de samba, na religião e no meu trabalho como educadora. Assim eu consigo trabalhar os três pilares: a tradição, o social e o cultural”, conta Bia.

Esses pilares, que fazem parte da sua vida, também compartilham o mesmo espaço físico na Ilha da Pintada: a mesma casa que construiu para morar é a sede da escola de samba, da Associação Afrosol e do terreiro.

Hoje, há também um ponto especial na beira do Lago Guaíba destinado às oferendas: o “Recanto de Oxum”. O espaço é delimitado por um cercado de madeira, com vegetação natural, pedras, areia e uma imagem de Oxum no alto, abençoando quem chega. Além da beleza, o local carrega um forte simbolismo: é ali que Bia e seus filhos realizam práticas religiosas, agradecem e pedem proteção à orixá das águas doces. De frente para o Centro de Porto Alegre, Oxum parece se unir ao povo da Ilha da Pintada, clamando por justiça climática e melhores condições de vida.

Terreiro da Mãe Bia de Iemanjá, na Ilha da Pintada. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Ser referência

Um dos combustíveis que impulsionam Bia a trabalhar com tanta dedicação pelo resgate e a propagação da cultura afro-brasileira é o desejo de deixar referências sólidas para as futuras gerações. Esse impulso nasce de um lugar de dor e resistência: de quem cresceu ouvindo que seus ancestrais só serviam para trabalhar e obedecer, e de uma época em que não se falava em representatividade preta — tampouco se compreendia o quanto ela é fundamental para a formação da identidade e da autoestima. “Ser uma mestra de cultura é deixar um legado de esperança e de luta para os que virão”, resume.

A trajetória de Bia ultrapassou há muito tempo os limites físicos da Ilha da Pintada, mas, desde 2022, ela se transformou também em um marco visual na paisagem de Porto Alegre. Seu rosto está estampado na lateral do prédio do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem, no coração da cidade. A obra, realizada pelos artistas Mona Caron e Mauro Neri, apresenta Bia com uma Justicia gendarussa, planta sagrada utilizada em rituais das religiões de matriz africana.

O mural, com seus 65 metros de altura por 15 de largura, rapidamente atraiu a curiosidade da imprensa, da academia e de quem passava pelas ruas da capital, instigando a pergunta: quem é essa mulher? Em 2025, o interesse foi ainda mais intensificado quando a obra correu o risco de ser removida por conta de uma reforma no prédio. A partir daí, Bia, que já era uma referência requisitada, passou a ser ainda mais procurada para palestras, entrevistas e rodas de conversa. Foi Luiz Felipe de Oliveira Teixeira , o responsável por ela ter virado “famosa”. Ele organizou a visita dos artistas à Ilha da Pintada e, claro, eles se apaixonaram pela personalidade de Bia.

Bia com seus filhos e pai de santo no Recanto de Oxum, espaço especial na Ilha da Pintada dedicado à práticas religiosas. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Bia e Felipe se conheceram em 2007 na luta do movimento negro da capital. Hoje, trabalham juntos no Instituto Camélia, entidade sem fins lucrativos co-fundada pela mestra, que atua em comunidades periféricas. Ele a define como alguém forte, resiliente e comprometida com as raízes dos seus ancestrais. “Eu aprendi com a Bia a zelar pela essência das coisas. Esse sistema que a gente vive impõe que precisamos nos adaptar a vários ambientes. Ela me ensinou a transitar por eles sem perder a minha conexão com a tradição e identidade preta”, afirma.

Entre as muitas qualidades que admira, Felipe destaca a maneira como a mestra conduz sua prática religiosa, mantendo a tradição original, pautada pela solidariedade, pela simplicidade e pelo cuidado espiritual com as pessoas. “Uma das coisas que eu admiro [na mestra] é que ela mantém a tradição original da religião: a solidariedade, o auxílio espiritual, cuidar das pessoas”, conta.

Mãe Bia da Ilha. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Se hoje Bia é referência para tantas pessoas, é porque nunca parou. Nunca desistiu de buscar suas próprias inspirações — como Baba Diba de Iyemonja, Vera de Oya e Girozinho — mestres que, assim como ela, mantêm vivas as tradições das religiões de matriz africana e do Carnaval em Porto Alegre. Para Bia, aprender com esses e tantos outros detentores de saberes populares é uma verdadeira escola, que reforça sua convicção: o aprendizado acontece na coletividade, na força que nasce da troca e do encontro.

Bia sabe que o caminho é longo e, muitas vezes, solitário. Mas ela não caminha sozinha: carrega consigo a força dos ancestrais e segue ao lado de muitas pessoas que a enxergam como guia e inspiração para as gerações que virão. Porque, para Bia, a luta é contínua — e, enquanto um tambor tocar e uma voz ecoar, a cultura seguirá viva.

*A reportagem integra o livro “Patrimônio Vivo: as histórias e memórias de mestres de cultura do Rio Grande do Sul”, publicado pelo Nonada Jornalismo em 2025. Baixe gratuitamente.

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