O distanciamento paterno é estruturante no Brasil. Relacionado a uma construção patriarcal e histórica, a ausência do pai do núcleo familiar é uma história que se repete no país, criando um lugar difuso no imaginário social. Essa falta de contornos acerca da figura do pai se reflete na literatura contemporânea, conforme aponta o poeta e escritor chileno Alejandro Zambra ao afirmar que o campo carece de uma tradição literária acerca do tema.
Na última década, essa tradição tem dado sinais de estar em processo de formação na literatura brasileira, a partir da produção tanto de autoras e autores com maior projeção na cena, quanto de nomes emergentes. A experiência em relação à figura paterna, em grande parte das obras, se dá como uma espécie de expurgo emocional e pessoal daquilo que a paternidade deixou sob um verniz fino, ou como algo não resolvido, seja para o bem, seja para o mal.
É fato, porém, que existem vários tipos de paternidades, na vida e na literatura: os pais que fogem e abandonam; os pais que ficam e protegem; os pais que morrem, pela presença ou pela memória; os pais que se tornam mártires do amor dos filhos. Isso para citar os exemplos que costumam ser mais presentes na literatura brasileira contemporânea.
João Silvério Trevisan, escritor, ensaísta e autor do libertário Devassos no Paraíso, caracteriza como um inventário de fantasmagorias o seu romance autobiográfico Pai, pai (2017), em que narra as memórias de sua vida a partir das marcas deixadas pela sua delicada relação com o pai, José Trevisan. “Tudo que meu pai me deu foi um espermatozoide”, diz a sentença que abre o livro.
Dentro do que compreende a experiência brasileira de paternidade a partir de estudos e dados, perceber a figura paterna como uma presença fantasmagórica está longe de ser um artifício mental, muito menos um floreio literário. Conforme João Silvério escreve, “histórias tristes com pais ausentes ou violentos pululam na vida de um sem-número de crianças mundo afora.” Dos cerca de 27 milhões de nascimentos registrados nos últimos dez anos no Brasil, 1,6 milhões não possuem o registro paterno, de acordo com o Portal da Transparência do Registro Civil.
Mesmo quando a paternidade se dá através da permanência e permite o crescimento do afeto, seja no aspecto social brasileiro, seja na literatura, esse lugar raramente é salvo de complexidades. No ensaio autobiográfico O que é meu (2023), o sociólogo paulista José Henrique Bortoluci parte da trajetória de seu pai, caminhoneiro aposentado, para elaborar a sua experiência como filho, ao mesmo tempo em que delineia um panorama sobre a classe operária brasileira. Embora a relação do escritor com o pai seja de amor profundo e aprendizados, suas idas e vindas, em função do trabalho cortando as estradas do país, são uma constante que o transforma em uma presença mais memorialística do que real.
O mesmo ocorre nos poemas de Holograma (2023), da atriz, poeta e professora paulista Mariana Godoy. No caso da escritora, a presença memorialística vai ainda mais longe ao transformar a imagem do pai morto, a partir dos poemas que compõem a obra, que revisitam lembranças ao mesmo tempo em que criam uma nova experiência paterna, em um holograma.
Na literatura estrangeira, já no século passado, a busca por um retrato da paternidade colocava em xeque a imagem do pai como uma figura fantasmagórica ora distante, ora perseguidora, infligindo, nos filhos, uma autoridade austera ou um medo ad infinitum – em alguns casos, as duas coisas. Em O Sol é para todos (1960), da escritora estadunidense Harper Lee, embora o viúvo Atticus Finch seja um personagem de moral respeitável e reconhecido pela sua comunidade como um pai presente na vida dos filhos, sua relação simbiótica com o trabalho, bem como sua personalidade reservada, o distancia de suas vidas íntimas.
Em Carta ao pai (1919), o escritor tcheco Franz Kafka escreveu confissões ao pai que muitos filhos gostariam de ter escrito:
“Querido pai, você me perguntou recentemente por que eu disse que tinha medo de você. Como de costume, não soube como responder, em parte por causa do medo que tenho de você e em parte porque há detalhes demais para justificar esse medo para que eu consiga manter tudo isso junto metade do tempo ao falar. E se eu tentar te responder por escrito aqui, isso vai ser muito incompleto, porque o medo e suas consequências também me impedem de escrever para você e porque a magnitude do assunto está muito além da minha memória e do meu entendimento. Para você, a questão sempre pareceu muito simples, pelo menos até onde você falou sobre isso para mim e, sem escolha, para muitos outros.“
Conheça 8 obras de escritoras e escritores brasileiros que abordam paternidade:
Holograma (2023), de Mariana Godoy | Poesia

Em Holograma (Fósforo, 2023), a atriz, professora e poeta paulista Mariana Godoy elabora com poemas o luto pela morte do pai ao reconstituir as lembranças de sua infância e adolescência, cercadas pela presença paterna. Publicado pelo Círculo de Poemas, série de publicações de livros de poesia da Editora Fósforo, o livro adentra o terreno da memória como forma de resgatar momentos do passado, reexaminá-los e esclarecê-los, como se Mariana construísse, com seus versos, um holograma, através do qual enfatiza a presença-ausência de seu pai. Para ela, “Colocar os fantasmas em seus devidos lugares/ é também uma forma de proteção”.
“Separação total de bens / agora contamos os desaniversários / os anos como morto / que hoje somam nove / nove anos / meu pai / ainda uma criança na morte /lembro que nessa idade eu já dizia / que se os meus pais se separassem/ ficaria mesmo é com a minha mãe”
Pai, pai (2017), de João Silvério Trevisan | Autobiografia

Como descrito pelo próprio autor, Pai, pai (Alfaguara, 2017), de João Silvério Trevisan, é um inventário de fantasmagorias dedicado à infância abandonada e à sua ferida incurável ocasionada pela relação turbulenta com o pai. Neste romance autobiográfico, o autor paulista parte desse relacionamento, marcado pela intolerância e pelo abandono, para compor um quadro que persegue a grande maioria de jovens homossexuais brasileiros que se emancipam muito cedo em face da homofobia sofrida dentro de casa.
Na infância, João Silvério estudou em um seminário para se distanciar do ambiente familiar, no qual passou quase dez anos. Ao abandonar o seminário, deixou o Brasil da ditadura militar e partiu em busca da própria liberdade, a imagem do pai sempre a persegui-lo.
“Meu caso é emblemático: mesmo tendo trabalhado a figura paterna em boa parte dos duzentos e oitenta (ou mais) anos de análise/terapia que fiz, a partir da minha adolescência, chego à velhice ainda preso a essa força que pode ser paralisante, mas também mobilizadora, até o ponto de me conduzir como uma marionete da dor, talvez até mesmo da desesperança.”
A palavra que resta (2021), de Stênio Gardel | Romance

Em A palavra que resta (Companhia das Letras, 2021) do escritor cearense Stênio Gardel, Raimundo Gaudêncio e Cícero, no auge de suas adolescências, se entrelaçam um ao outro com amor, desejo e culpa em meio ao sertão nordestino e ao preconceito familiar. Quando o pai de Raimundo descobre que ele está apaixonado por outro homem, se volta em ira contra o próprio filho e traz à tona um passado familiar que tem em comum com o presente da narrativa a violência da homofobia.
Antes que Cícero possa cumprir com sua promessa de ensinar Raimundo a ler, o casal é separado por um destino trágico em que tudo o que resta de Cícero para Raimundo, além das lembranças, é uma carta. Cinquenta anos mais tarde, Raimundo, depois de viver em negação a respeito da própria sexualidade, decide encarar a sua verdade e aprender a ler, para enfim saber o que Cícero lhe escreveu.
“Nas peles nuas, a saliva dos beijos e o suor dos abraços irrigavam, dentro deles, raízes fortes, de agarrar as tripas e o que mais tivesse dentro. Até a alma. E as raízes faziam das veias seiva e cresciam pelos poros como galhos trepadeiros em direção ao sol. Quando se tocavam, se engarranchavam e viravam uma planta só, com flor que se abria sobre o peito. Papoula amarela de cálice cor de sangue.”
As pequenas chances (2023), de Natalia Timerman | Autobiografia

Enquanto aguarda seu voo no aeroporto, Natalia reencontra Felipe, o médico de cuidados paliativos que acompanhou seu pai, Artur, falecido alguns anos antes. Em As pequenas chances (Todavia, 2023), a conversa entre os dois leva a narradora a revisitar a experiência da perda e a rememorar os acontecimentos que envolveram a morte do pai, também médico.
A partir do momento em que a família descobre que a doença havia retornado, o relato percorre os últimos tempos de vida de Artur, registrando gestos cotidianos e episódios que revelam tanto seu enfraquecimento físico quanto o impacto dessa situação sobre seus familiares. Neste romance autobiográfico, Natalia Timerman elabora o luto pela morte do pai ao revisitar os momentos que precederam a sua partida, partindo de um relato sobre memória, luto, tradição, laços familiares, vida e morte.
“Havia quem me abraçasse com os olhos, de longe, por não conseguir se aproximar muito, seja pela falta de espaço, seja porque não houvesse caminho. Havia tantas partes da minha vida ali, no enterro do meu pai, na presença de tanta gente e do tempo espalhado naquelas pessoas, mas aquilo era um absurdo, havia algo que não se encaixava, tantos amigos de épocas diferentes da vida do meu pai, seria tão óbvio que justo ele estivesse ali, mas não: aquilo estava acontecendo justo porque ele não estava mais.”
O que é meu (2023), José Henrique Bortoluci | Autobiografia

O sociólogo José Henrique Bortoluci cresceu com a imagem do pai caminhoneiro intimamente associada ao caminhão que dirigia, como se fossem um só. Quando voltava para casa, em Jaú, interior de São Paulo, trazia de herança para o filho e para a família um novo vocabulário, além das vivências na estrada, as imagens de um Brasil vasto que por vezes só se apresenta a partir da perspectiva de uma boleia.
No ensaio biográfico O que é meu (Fósforo, 2023), José Henrique escreve sobre distâncias e pobreza, saudades e sonhos, amor e revolução ao narrar a trajetória das idas e vindas do pai ao longo de sua vida, construindo, ao mesmo tempo, um panorama sobre a classe trabalhadora brasileira.
“Palavras eram o presente que meu pai trazia de caminhão em minha infância. Elas ressoavam isoladas — boleia, transamazônica, carreta, rodovia, pororoca, Belém, saudades —, ou então formavam narrativas sobre um mundo que parecia grande demais. Eu tinha que imaginá-las com todas as cores, gravá-las na memória, me agarrar a elas, pois logo meu pai iria embora para voltar só dali a quarenta, cinquenta dias.”
O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório | Romance

O avesso da pele (Companhia das Letras, 2021), de Jeferson Tenório, acompanha a trajetória de Pedro, que após a morte do pai professor, Henrique, durante uma violenta abordagem policial, procura reconstruir a história de sua família e compreender os caminhos percorridos por ele ao longo da vida. No dia de sua morte, o professor de literatura da rede pública de ensino voltava para casa depois de uma das melhores aulas de sua vida.
A narrativa revela a vida de um homem atravessado pelas feridas de existir como negro em um país estruturalmente racista. Trata-se de um percurso marcado por sofrimento, confrontos com o passado e tentativas de entendimento. Ao mesmo tempo em que Tenório investiga e expõe as mazelas raciais no Brasil, ele também abre espaço para reflexões sobre reconciliação, superação e busca por liberdade.
“Não demorou muito para que Juliana começasse a te chamar carinhosamente de meu nego e você começasse a chamá-la carinhosamente de minha branquinha. E, às vezes, depois de terem feito amor, vocês punham o braço um ao lado do outro e contemplavam a diferença de cor. Achavam bonita aquela mistura e, de maneira muito hipotética, vocês imaginavam como seria um filho de vocês, pensavam na aparência dele, no tipo de cabelo e no tom de pele. Pensavam que iriam ensiná-lo a não se preocupar com isso. Iriam educá-lo sem preconceitos. Brancos e negros são iguais, e isso é que importa. Somos todos seres humanos, iriam dizer a ele.”
Os tais caquinhos (2021), de Natércia Pontes | Romance

Duas adolescentes, Abigail e Berta, dividem o apartamento completamente bagunçado e infestado de baratas com o pai, Lúcio, um homem afetuoso porém omisso, cheio de excentricidades, que acumula objetos e tem pouca habilidade para lidar com tarefas práticas do dia-a-dia. Frequentemente, Lúcio comenta que espera que a morte chegue logo, e costuma oferecer às filhas conselhos inesperados, como afirmar que “sentir fome pode ser algo bom”.
Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021), título inspirado na canção Pra começar, escrita por Antônio Cícero e cantada por Marina Lima, é um romance de formação da escritora cearense Natércia Pontes, que narra as descobertas da adolescência e as complexidades dos laços familiares. Apesar do desmazelo que circunda toda relação do trio – ou talvez por conta dele –, o riso ainda é possível em meio à negligência do pai, que ao buscar ensinar liberdade de pensamento às filhas, se ausenta da gestão de suas vidas.
“E foi assim. Sobramos nós: eu, Berta e Lúcio e as baratas. Mas Lúcio gostava da rua e nela ficava o tempo que fosse possível. Ficava até o galo cantar e o sol subir. Quando voltava, rodava a chave com cuidado, verificava a mangueira do gás e fechava as janelas de correr deixando uma fresta. O vento assobiava mortiço, ninando nossa insônia adolescente. Na hora de ir para o colégio, Berta e eu catávamos nossos uniformes embolados no monte de roupa suja que jazia na área de serviço.”
O amor dos homens avulsos (2016), de Victor Heringer | Romance

Neste romance que trata da história de um amor incestuoso e melancólico entre dois meninos, Camilo e Cosme, a distância paterna se manifesta nos segredos que o pai, médico que atua nos “porões da ditadura” no Rio de Janeiro, mantém da família, brancos de classe média. A vida de Camilo, que possui uma deficiência em uma das pernas em virtude de poliomielite, se transforma no momento em que o pai chega em casa com Cosme, seu meio-irmão pardo.
O ciúmes pela atenção do pai que inicialmente brota no coração do protagonista se transforma, com o passar do tempo, em amor e atração física recíprocos. Marcado por um acontecimento trágico, já adulto, Camilo busca a redenção pela violência masculina que marcou a sua vida ao permitir que o ódio e o desejo por vingança cedam lugar ao amor paternal. Sobre a conclusão da obra, Victor escreve:
“A saída deste livro é a ternura. A ternura, mais calma que o amor e mais amável que a mera simpatia ou tolerância, é uma forma de compreender e interferir no mundo tão boa quanto qualquer outra. Ternura também é resistência.”