Como a Mestra Elaine Espíndola imprime a memória negra nas ruas de Porto Alegre

Primeira mestra griô a ser condecorada pela cidade, Elaine é guardiã de saberes e memórias do carnaval e da cultura afro-gaúcha.
Mestra Elaine Espíndola ao lado de seus filhos, Cláudio Espíndola e Cristiane Espíndola. Foto: Desiréé Ferreira/Nonada Jornalismo

Porto Alegre (RS) – Gradil de concreto, chão com pedras soltas, barulhos de carros passando e, do portão para dentro: o lugar que é morada. Com um vestido florido, um coque em seus cabelos cacheados grisalhos, a líder do espaço me recebe com um sorriso no rosto e um abraço apertado. A nossa primeira conversa se dá no pátio do Quilombo Mocambo, localizado na Avenida Loureiro da Silva, em frente do Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, em um pedaço de árvore cortado que nos serve como banco – o qual ela define como o melhor lugar para nos acomodarmos. 

Maria Elaine Rodrigues Espíndola, mulher negra, quilombola, matriarca, professora e artista plástica. Aos 78 anos, ela se mantém na ativa. Entre as andanças da vida interiorana durante a sua infância e pela capital que é sua cidade natal, ela se encontra no movimento pelos seus, na luta por habitação e por políticas públicas em prol da população negra. Desde melhorias no quilombo até os deveres que assumiu com a cidade – como ser a prefeita da pracinha do seu bairro e a guardiã da estátua do Zumbi dos Palmares, ela não para. “A gente pede para ela dar uma segurada, mas não adianta. Ela é uma pessoa muito intensa, ela vive muito tudo, seja o amor pela família ou as causas que a gente defende no quilombo”, conta a filha do meio, Daniela Espíndola. 

Reconhecida por ser a guardiã das memórias de suas gentes, ela entende a importância de passar o seu legado para as novas gerações. “Eu me lembro pequerrucha e a vó dizendo: ‘Laine, tu vai, tu aprende a ler e depois tu conta a nossa história’”. E a “Laine”, apelido carinhoso dado pela avó –, que foi coincidentemente adotado pela neta Olívia, segue contando essas histórias. Tornou-se a primeira mestra griô a ser condecorada pela cidade de Porto Alegre, no ano de 2010. Um papel para o qual foi escolhida e, por isso, reconhece com muito respeito e responsabilidade, de ser e estar nesse lugar. “Eu me sinto muito grata por ouvirem, mas eu também acredito que é porque eu estou na prática. Porque só o falar, ele te faz refletir, mas não é um convencimento”, destaca Mestra Elaine. 

A sua prática está em cada espaço em que ela passa e dedica sua energia. Como a paixão que virou amor para vida inteira: a Academia de Samba Praiana. Para ela, o carnaval é o lugar dos amores, do nascer e da esperança que dias melhores estão por vir. Ela também desempenhou um importante papel na construção do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre – um museu a céu aberto, que registrou obras de arte públicas que contam a história do povo negro do estado,  em que foi uma das artistas plásticas do monumento “O Tambor”, uma obra concebida pelo coletivo de artistas e griôs, ao lado de Gutê, Leandro Machado, Mattos, Pelópidas Thebano e Xaplin. A inspiração para sua arte veio do rosto do seu marido, de um desejo que ela tinha de homenageá-lo. “Eu queria guardar na memória a expressão dele por aqui”. Um dos legados que mais se orgulha de ter feito pela educação ao lado de outros mestres e mestras, onde os estudantes do ensino básico tinham a possibilidade de circular e conhecer os territórios negros da cidade. Além disso, ela tem uma preocupação com o alimento dos seus e de pessoas que precisam de apoio.

“Quando ela oferece uma comida para partilhar, que é uma partilha não só da palavra, mas é da comida servida, da comida colocada à mesa, ela tem o intuito de pensar também esse alimentar do espírito e do corpo quilombo”, destaca o professor universitário e aprendiz da mestra, Eráclito Pereira. 

Ela também foi uma das protagonistas em olhar para a saúde dos negros, principalmente, na busca por informação quanto a anemia falciforme, querendo auxiliar sua comunidade e mães de crianças que enfrentavam a doença. Durante esse período, Mestra Elaine foi enviada para congressos pelo estado para pensar em alternativas, em que além da medicina, também recorreu aos conhecimentos herdados de sua avó sobre plantas e ervas medicinais. “Ela tem uma sabença do dia a dia, da vivência de carregar toda ancestralidade que está contida nela”, compartilha o filho mais velho, Cláudio Espíndola. 

A mestra é uma pessoa que se destaca pela sua inventividade, observadora e afetuosa – nos dois sentidos da palavra, de afetar todos que estão ao seu redor, com seu jeito que abraça ou com suas palavras que refletem. Não à toa, uma das características mais atribuídas a ela por aqueles que a cercam é o ser coletivo. Para a mestra, destacar-se não faz sentido se não tiver os seus ao lado. Ela é uma mulher da comunidade, do carnaval e do Quilombo Mocambo. Ela é uma mulher de gente. Das suas gentes. 

Mestra Elaine na janela de sua casa localizado no Quilombo Mocambo, um dos 11 quilombos urbanos de Porto Alegre. Foto: Desiréé Ferreira/Nonada Jornalismo

Entre o educar e o amor 

Foi na beira do Rio Riachuelo, em São Sebastião do Caí, que a Mestra Elaine cresceu com sua avó Maria Alaíde. Dividida entre as idas para o interior e a capital do RS, onde sua mãe Maria Eulália morava com seu padrasto – o único pai que conheceu, pois o seu faleceu enquanto ela tinha meses de vida. Mesmo estando entre tempos com a avó e com a mãe, ela nunca se sentiu deixada de lado, muito pelo contrário, sempre recebeu toda atenção necessária. 

Foi ao lado das mulheres da sua família, nos pequenos gestos do dia a dia que aprendeu sobre a sensibilidade, a força feminina e o cuidado. “Eu fico pensando, como é que as pessoas conseguem dar um amor infinito para um outro ser, e ele achar que só existe ele? Que coisa magnífica é essa questão do amor quando tu recebe, né?”, reflete ao lembrar da sua madrinha Jandira, que mesmo com 25 afilhados, fazia com que ela se sentisse única em suas visitas. 

O próprio incentivo de seguir com sua formação veio de dentro de casa. “Eu fui a primeira pessoa que aprendi a ler, fiz o ginásio, o curso normal e entrei numa universidade”, conta. No ensino superior, ela ingressou na universidade pela Unisinos, no curso de Direito, onde não chegou a concluir. Mas a vontade de dar continuidade nos seus estudos permanece. “Daqui a pouco eu tenho mesmo que parar [para estudar], mas eu não sei qual é o momento ainda”, reflete. 

Na época, a mestra também fez um curso de curta duração que lhe deu o título de professora de braille e convivia com uma tripla jornada: os cuidados com os filhos, os estudos e o trabalho como camelô no centro da cidade, em que ela vendia bonecas que aprendeu a confeccionar em um curso de artesã. “Quando eu vejo esses meninos correndo, eu lembro que também já corri com a minha mercadoria, porque eu tinha que sustentar os meus filhos, queria dar um futuro melhor”, ressalta. 

Em 2016, surgiu o convite da professora Carla Meinerz para que a mestra compusesse a disciplina Encontros de Saberes, que leva os mestres e mestras de tradição para trabalharem dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sendo os protagonistas das suas histórias e do conteúdo ofertado aos estudantes da graduação. “A forma com que ela respeitou aquele conhecimento que eu tinha para oferecer foi encantador”, ressalta a Mestra Elaine sobre a professora. As aulas eram construídas em formato horizontal, no qual os alunos ganhavam uma outra possibilidade para pensar a ciência e a história. 

“Quando ela vem e fala das suas memórias e das memórias da sua ancestralidade, ela vem completar uma lacuna na construção historiográfica. Ela traz um conteúdo que até esse momento não estava disponível. Então ela é sabedora desse conhecimento”, reconhece Carla.  

Dividido em quatro encontros, a última aula acontecia no território de cada mestre. No caso da Mestra Elaine, no Quilombo Mocambo. Ao final, cada grupo de estudantes articulava uma ação para devolver e contribuir com aquela comunidade, como a construção de canteiros para as plantas e ervas medicinais, conhecimento que ela carrega consigo. Nesse processo, Mestra Elaine sempre pensava numa didática sensorial, de construção, canto ou apresentação. “É de fato um encontro de saberes que vai não só pela cognição, mas pela corporalidade”, destaca Carla. Para quem teve essa oportunidade de aprendizado, o que fica é um desejo de seguir contribuindo e o sentimento de sentir-se especial dado à experiência profunda que a Mestra Elaine compartilha em sala. “Quem ‘compactuar’ ou só parar para ouvir, essa é a grande conquista de um mestre”, reflete ela.  

Mestra Elaine é guardiã de saberes ancestrais e memórias coletivos do quilombo, da escola de samba Praiana e da própria cidade de Porto Alegre. Foto: Desiréé Ferreira/Nonada Jornalismo

Um dos seus conceitos de trabalho é a Árvore do Lembramento – quando a mestra está diante de uma plateia universitária, ela convida o grupo para uma área externa, busca por uma árvore e faz com que as pessoas deem diversas voltas, exercitando suas memórias. “Ela faz esse exercício para as pessoas lembrarem quem são, da sua raiz e da sua ancestralidade. Além de refletirem sobre suas identidades, afetos, daquilo lhe motiva e da sua perspectiva de mundo”, compartilha Eráclito, professor universitário que também participa do Encontro dos Saberes. 

A partir de todos esses feitos, já tramita um  processo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para conceder à Mestra Elaine o título de Notório Saber. “Isso é garantir a preservação das nossas histórias e dos nossos territórios quilombolas. É garantir a visibilidade para a nossa existência”, ressalta o professor. Além disso, destaca que a mestra carrega consigo o conceito de educação a partir das escolas de samba. “Não é só mais a ideia do método cartesiano de educação escolar num grupo institucionalizado. É pensando também a escola de samba como espaço de educação e política”, diz Eráclito. 

O Carnaval como herança 

É nos 40 minutos na avenida do Sambódromo que o olho brilha, o coração palpita e o sentimento de dever comprido toma conta. Mais que um amor, um legado que perpassa de geração para geração. Desde a década de 1970, a família da Mestra Elaine está dentro da Academia de Samba Praiana, escola fundada na década de 60, com sede no bairro Praia de Belas. 

Um compromisso que recebeu de sua mãe, a dona Mariazinha da Praiana, dois meses antes do falecimento dela: seguir coordenando o tempo de avenida da ala Verde Que Te Quero Rosa. No início, a dona Mariazinha teve de enfrentar muitos obstáculos por estar num ambiente completamente masculinizado. “Ela chegava e dizia para nós: ‘Como foi difícil aceitarem as coisas, né?’ Então ela levou toda a família e continuamos lá até agora”, comenta Elaine. 

Foi nesse mesmo ambiente que a paixão pelo Carnaval se encontrou com seu grande amor:o seu marido, um dos fundadores da escola, Cláudio Carvalho Espíndola. “O Carnaval nos inspira, porque ali nascem os romances. Os meus filhos são frutos de um amor de Carnaval”, compartilha com um sorriso alegre. Os filhos do casal também herdaram essa vivência. Cláudio é o baterista da escola, e a Daniela e a Cristiane auxiliam na organização da ala. “Quando entra ali tem uma família, não é só eu. E essa família, ela tem que estar representada no meu semblante”, reforça a mestra. Todos fazem parte dessa cultura, costurando fantasias, juntando trocados para complementar os adereços e compartilhando momentos dentro da escola. 

No último carnaval, no meio da avenida, um rito de passagem marcou e emocionou a família inteira. Mestra Elaine passou o seu legado para sua neta Olívia, de 11 anos, que desde quando era bebê de colo já desfilava pela Praiana. Diferente do que ocorreu entre ela e a mãe Mariazinha, a mestra tinha o desejo de vivenciar esse processo ao lado da sua neta enquanto há tempo. “Para que ela sinta aquela emoção e aquela coisa que tu tem que dentro de ti”. Ao falar da pequena, é como falar do Carnaval – o coração transborda e o sorriso vai de orelha a orelha, tamanha felicidade de poder prestigiar os primeiros passos da neta na avenida e assistir ao seu deslumbre com o festejo.

“Eu sou uma mulher de carnaval, a minha família foi e meus filhos continuam sendo”, conta. Para ela, olhar para o futuro e passar para frente são formas de valorizar e manter vivo aqueles que já se foram. “Quanto tu entra [na avenida], quando toca aquela sirene, é a tua vez de entrar e tu vai passar aquela linha. E ali, tu tem que olhar para o lado e lembrar de quem estava ao teu lado que, também, era um dos teus, mas que agora não estão mais ali”, reflete. Os negros viram reis e as negras rainhas, as repressões do estado são expostas e a saúde do povo ganha vez. É no Carnaval que as reivindicações viram samba-enredo e ecoam na avenida.

“As escolas de samba estão imbuídas da nossa história. É um grande orgulho quando tu estás ali dentro. Tu conta a tua própria história, tu busca o próprio momento político, tu demonstra a tua insatisfação e tu usa as tuas artimanhas. Porque só nos restou a avenida, né? Tudo isso volta para o carnaval, que é sobre contar a nossa verdade, respeitando a caminhada e vendo qual é a mensagem que queremos passar”, reflete Elaine. 

Foto: Desirée Ferreira/Nonada Jornalismo

A líder do Quilombo Mocambo  

Na história do bairro Cidade Baixa, asism como outras regiões centrais de Porto Alegre o povo negro se instalou e mais tarde foi afastado, levado a regiões periféricas da cidade. Na Avenida Loureiro da Silva, era por onde o carnaval da cidade passava até o ano de 2003. 

No mesmo bairro e avenida, desde 2004, o Quilombo Mocambo abriga famílias que têm amor pelo carnaval, mulheres negras e pessoas não-negras. “Isso aqui é cheio de história, não tem como a gente não estar aqui”, pontua a Mestra Elaine. O quilombo é feito de laços de compadrio – uma palavra que ela utiliza para se referir às relações que possui com pessoas que procuram o espaço para uma palavra de afeto ou para se fortalecerem enquanto seres humanos. “Nós recebemos todos. Desde que essas pessoas entendam a nossa luta e sejam nossas aliadas. Então, todos são bem-vindos e respeitados”, compartilha a filha Daniela. 

Para a mestra, separar-se do território é impossível. “Antes eu era a Elaine da saúde, a Elaine da Praiana, a Elaine presidente dos Direitos Humanos da cidade, agora meu sobrenome é Mocambo. Eu sou Elaine Mocambo. Eu vejo que o Mocambo é um pouco eu, mas eu sou toda Mocambo”. Ele faz parte das suas lutas diárias, do que recebeu de ensinamentos da sua ancestralidade e da sua persistência. A filha Cristiane brinca que o quilombo é o filho mais novo da mestra, pelo trabalho, energia e cuidados dedicados à sua existência. Com uma forte liderança feminina que se destaca pela sua coletividade, são elas que entram em embates para defesa do quilombo e dialogam em busca de melhorias. “Eu me sinto responsável por carregar esse espaço, por seguir esse debate”, reflete Mestra Elaine. 

Sua fala estratégica é de quem sabe chegar e se impor frente aos setores públicos, sem medo de cobrar e designar o papel que representa: “Por enquanto, eu estou ocupando o posto de alguém que está peitando o sistema dos quilombos urbanos”. A mestra contextualiza que a caracterização dos quilombos urbanos em plena capital é algo muito próprio da cidade de Porto Alegre. 

Atualmente estão em 11 quilombos, buscando por políticas públicas para serem reconhecidos e estarem entre os seus coirmãos. “A gente já estava aqui, por aqui a mãe passou. Tudo isso é um território meu, eu estava morando ali na frente da parada com a minha filha mais jovem que na época tinha 5 para 6 anos”, conta.

Mesmo com muitos avanços, a mestra compartilha que manter um quilombo dentro da oficialidade tem suas dificuldades. Até o momento, as obras do espaço não foram finalizadas, mesmo sendo uma conquista do Orçamento Participativo, processo democrático em que pessoas cidadãs da cidade podem votar nas prioridades de investimento do poder público. No momento, o quilombo está cedido com uma permissão de uso para sua ocupação, com pedido encaminhado para a regularização junto ao município. “Isso é um processo que está andando e não tem que durar 300 anos, né? Mas ele tem que andar com celeridade, porque a gente nunca sabe quanto tempo a gente tem por aqui. E é necessário que os meus também se apropriem do momento que estamos”, ressalta. 

Um lugar que inspira liberdade, compartilhamentos e trocas de saberes. “Os mestres estão nos quilombos, estão nos subúrbios, estão nas favelas e nas periferias. É lá que nós temos grandes mestres e grandes mestras griôs”, destaca ela. O Quilombo Mocambo é o último pedaço de um solo sagrado e ancestral. E é lá que a Mestra Elaine deseja estar. E é por todos que se foram que ela insiste e persiste em continuar ocupando esse espaço e passando para frente. 

Nas suas andanças, ela ecoa as conquistas até aqui e almeja um futuro mais justo para a juventude. “É uma coisa muito boa ter saudade, porque tu valoriza o tempo que passou e se prepara para o tempo que tem que vir”, reflete. Enquanto todas as memórias da sua ancestralidade vivem nela, ela sente que os que vieram antes estão por aqui também. 

*A reportagem integra o livro “Patrimônio Vivo: as histórias e memórias de mestres de cultura do Rio Grande do Sul”, publicado pelo Nonada Jornalismo em 2025. Baixe gratuitamente.

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