10 anos após marco na Flip, autoras negras ainda relatam desafio de serem lidas sem reducionismos

Reinvindicação feita por Conceição Evaristo há uma década segue ecoando na voz da nova geração de escritoras negras
As escritoras Eliana Alves Cruz e Conceição Evaristo celebram o lançamento do título ¨Escreviventes¨

Paraty (RJ) – O mundo já foi outro. Presenças que hoje parecem indispensáveis tiveram de ser conquistadas por pessoas que imaginaram um futuro onde outras pudessem existir em situações menos hostis. Há dez anos, na Festa Literária de Paraty (Flip), a autora Conceição Evaristo já oferecia às ruas da cidade histórica sua presença luminescente como reivindicação.  

Em 2016, no primeiro dia do evento com foco internacional do mercado editorial, Conceição apresentou críticas diretas àquela edição. A autora utilizou o espaço de uma mesa de debate para criticar a ausência de escritores negros na tenda principal, motivo de comentários por anos nas ruas e nas programações onde esses autores estão presentes. 

“Se não lemos todos os passos criativos da nação, estamos lendo uma nação em pedaços, estamos lendo uma nação incompleta”, disse em entrevistas posteriores. Como quem “bate em cachorro grande” – citando um dos livros de Cidinha da Silva –, Evaristo se disponibilizou a reivindicar que outras gerações de mulheres negras fossem inseridas em um local de reconhecimento mais cedo, até mesmo do que ela foi. 

Cidinha da Silva é uma escritora mineira, assim como Conceição, e publicou mais de 20 obras entre os gêneros crônica, conto, ensaio, e infantil/juvenil. Dela são os livros “Um Exu em Nova York” (2018), “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior” (2025), e o mais recente, “Quando Borboletas Furiosas Se Tornam Mulheres Negras” (2026), que investiga as tensões e insurgências que atravessam escritoras negras. 

Em entrevista ao Nonada, ela disse que aborda nesta obra, exaustivamente, a presença das escritoras negras no mercado editorial brasileiro, algo que contra argumenta um mito histórico do setor de que estas pessoas não existiriam.

Uma década depois, este ano, na 24º edição, Conceição, celebrando seus 80 anos, foi um dos nomes mais disputados da festa. Lançou conjuntamente com a escritora Eliana Alves Cruz o livro Escreviventes, pela Pallas Editora. Fora da tenda principal, as diversas casas literárias que propuseram debates com a autora de Ponciá Vicêncio (2003) e Olhos D’água (2014) lidaram com leitores que a acompanham avidamente em qualquer lugar do Brasil, além de de superlotações e filas incontáveis. 

A escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida em uma mesa com a autora Bianca Santana, defendeu uma maior liberdade para a escrita, sem reducionismo a uma ¨literatura negra”. Foto: Flip/ Divulgação

Na última década de Flip, o que se imprime é uma nova demanda pública feita a um mercado editorial excludente que precisa acompanhar um processo que somente cresce em torno da escrita livre, feita por autores diversos, negros e afrodiaspóricos. Há de se escolher aderir por um compromisso social ou pela forte demanda pública de tornar equitativa a produção literária. 

Os destaques desta edição ficam, de fato, para as casas editoriais paralelas que propuseram debates diversos, com programações culturais de alta qualidade, e para a maior edição da história que refletiu na programação principal um destaque aos autores negros, como a inglesa Zadie Smith, a angolana Djaimilia Pereira de Almeida e o poeta Edimilson de Almeida Pereira.

Os leitores ouvidos pelo Nonada destacaram as programações das casas Poéticas Negras, Casa da Favela, e as organizadas pelo Sesc, que para além de incorporar em seu eixo nomes como Muniz Sodré, Renato Nogueira, Semayat Oliveira e Ana Maria Gonçalves, trouxeram a Paraty a revolucionária Angela Davis, realizando uma mesa gratuita no Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25), mediada por Flávia Oliveira. A feminista negra estadunidense também visitou a Flip Preta, no Quilombo do Campinho. 

A superlotação da festa apresenta uma interposição do mundo “pop” com o acadêmico padrão em torno de um festival: “Acho fantástico ter um festival literário que virou algo pop, de você pegar e ter filas como se fosse um show, como um festival de músicas”, diz Davina Hwang, designer de São Paulo. Ela considera importante ver escritoras, principalmente não brancas, alcançando uma popularização como uma “diva pop”, uma relação de admiração e de aproximação com quem escreve.

Na praça da Matriz, no centro da festa, Luana Barbosa disse nunca ter lido Conceição Evaristo antes. Ela aguardava em uma das diversas filas, e disse que estava em um processo de retomada da leitura após um tempo parada. Conceição foi a autora que ela tomou como referência para se reaproximar dos livros. Psicóloga, moradora de Ubatuba, foi tomada por textos acadêmicos e decidiu olhar para os romances porque no percurso acadêmico não foi apresentada a autores negros.

O questionamento de Conceição Evaristo ecoou na última década da Flip. Foto: Divulgação/Casa Estante Virtual/Flip

Daqui pra frente 

“Não posso me despir da minha condição”, disse a autora de Os imortais, Pauliny Tort, um dos nomes mais celebrados em Paraty. “Ser mulher é um repertório próprio de subjetividade”, completou Andrea Del Fuego, autora de A pediatra. As romancistas brasileiras se encontraram no palco principal da 24ª Flip, no Auditório da Matriz, na mesa “mas para que serve o pássaro?”.

A pergunta direcionada às escritoras, mulheres, sobre a forma como as questões de gênero em suas obras se desenvolveram, parte do princípio de que suas perspectivas como autoras estavam em questão. Evidente que não há como dissociar suas vidas da elaboração da ficção, mesmo que o trabalho não trate da condição específica da mulher como identidade, mas, há um caminho para se desvencilhar do rótulo da escrita “feminina” quando ele aparece.

Essa condição de liberdade não é transversal a todas as mulheres. Na mesa realizada pela Casa Folha, no último dia da festa, a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, em uma mesa com Bianca Santana, defendeu escrever de “uma forma que não restrinja a liberdade do gozo”, e completou: “Eu não sinto que faço literatura negra”. Ela também refletiu sobre o desafio geracional de ocupar o lugar de autora. “Sinto que estamos aqui pelo sacrifício de muitas gerações. Mulheres como eu não puderam estar aqui antes.”

Não porque sua condição subjetiva não seja valorizada, mas, em seu processo formativo, primeiro como leitora, consumiu todos os gêneros possíveis, inclusive os de “brancos, velhos e mortos”. Tal dimensão auxiliou a elaboração de camadas mais complexas sobre seus personagens, em um caminho da literatura “que se faz de pedra em pedra, sem pensar em mais nada.” 

A mediadora, a jornalista Flávia Lima, disse que a pergunta feita às escritoras sobre serem vistas como literatas negras, e apenas, não foi um acaso, já que isso evitaria que esse questionamento viesse do público. As pessoas passaram a fazer perguntas sobre as obras e as histórias de ambas as autoras. 

No apoteótico momento com Angela Davis, no Sesc Caborê, a mesa pairou sobre a mesma questão. Entendendo o movimento negro de libertação como amplo, a abolicionista citou a romancista Toni Morrison como alguém que conseguiu universalizar a questão racial dentro da escrita e afirmou que o pensamento negro produz formulações de liberdade que incluem a todos, e não somente as pessoas negras que o fazem.

Para Cidinha da Silva, pensando em políticas de representação e em como essas mulheres querem ser lidas nas próximas décadas, o desafio está em “emitir nossa voz a partir do lugar de escritoras”. Em uma mediação feita por Michel Alcoforado, na Casa Itaú Cultural, Cidinha falou sobre a alegria de escrever e como em seu processo ela encontrava alegria plena.

O reconhecimento da identidade negra na escrita é necessário por uma condição de desigualdade e apagamento sob o qual a população negra está a priori. Sobre isso, Cidinha afirma que a política de representatividade é “um conjunto de ações e procedimentos orientadores que têm como pressuposto a compreensão ética ativa de que determinados grupos humanos não foram tratados em sua humanidade plena, não tiveram o direito de inspirar seus iguais a superarem dificuldades e a buscarem melhores soluções para problemas que sequer foram causados por eles, o racismo é um exemplo.”

Existe uma diferença entre escolher falar sobre raça e ser direcionado a falar somente sobre isso. A autora considera que este é um exercício que deve ser prioritariamente feito para dentro da comunidade, e “não para educar outras pessoas”, sendo algo estratégico para “antecipar-se às atitudes racistas e coloniais”, diz.

Daí a importância de reformular a orientação mercadológica em uma política séria que tomaria como base enfrentar a desigualdade por meio de ações concretas que “não podem desconsiderar a agência dos membros dos grupos sub-representados”, mas também, não deve enclausurá-los em uma dinâmica que transfira à população negra a responsabilidade de conduzir uma transformação: “Querem que deixemos de cuidar amorosamente de nossas próprias vidas negras […] para nos dedicarmos a continuar nos responsabilizando por pessoas brancas herdeiras dos escravizadores, como acontecia no passado escravista”, diz. 

Para ela, a ideia de mudança sistêmica se diferencia absolutamente do “exercício egóico e ininterruptamente usurpador, praticado por aqueles que querem definir a movimentação dos peões pretos no tabuleiro de xadrez que tem donos […] que definem quem joga, como e quando.” 

A edição da Flip de 2026 pode ter demonstrado como a articulação dessas autoras é cíclica e constante, onde há momentos onde é preciso reivindicar para existir, depois para publicar, em seguida do desafio de poder escrever sem que a obra seja reduzida à uma subjugação. E não necessariamente nesta ordem. 

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