Por que valorizar os mestres da cultura popular na era da Inteligência Artificial?

Em artigo, a escritora Fabiana Sasi reflete sobre a importância de preservação e valorização de mestres da cultura popular do Brasil
Retrato de Edu do Nascimento, Filho do Mestre Giba Giba. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Ao longo da nossa existência muitas são as possibilidades de aprendizado, muitas pessoas podem nos ensinar uma porção de coisas. Mas, quem são aquelas que nos ensinam a ser gente, a ser quem somos? Gente que através do convívio ajuda a gente a se conhecer e se reconhecer na outra pessoa, que ensina a interpretar o que é dito e o que se cala, que no contato que faz a gente exercitar a capacidade de sentir.  Quem são aquelas nos agigantam a partir das trocas de ideias advindas das palavras, do toque, dos sons, dos gestos, dos gostos, dos cheiros…da pulsão de vida.

Seriam essas as nossas mestras e mestres? A intenção aqui é pensar numa conexão prazerosa com todas as gentes que gostam de gente, nos aproximando da vitalidade e do significado dessas pessoas na formação da nossa própria identidade enquanto povo. Evocando esses corpos que sabem, que sentem, que transmitem e reconhecendo-os como fundamento e patrimônio.

É perfeitamente possível pensar nessas mestras e mestres como guardiãs e guardiões do que nos faz SER VIVO. É uma gente criativa, arteira, brincante, cantante e dançante. É quem ritualiza, reza, bendiz, cozinha, alimenta, joga, toca, festeja e se movimenta, elaborando técnicas e desenvolvendo manualidades com destreza. É gente hábil em curar, fazer nascer e crescer vida em meio à cultura.

Suas práticas carregam séculos de experiências acumuladas, moldadas pela oralidade, pela observação atenta e pela convivência com a natureza. Elas fazem parte de uma herança popular e representam um patrimônio coletivo, apesar das suas trajetórias individuais, porque só conseguem emergir a partir da comunidade. A validação vem de seus pares de maneira orgânica e o reconhecimento se dá a partir de vínculos construídos com constância, num convívio permeado de trocas, conduzido com envolvimento e generosidade.

Como se fossem grandes árvores frondosas, daquelas de copas volumosas, raízes profundas e que no momento oportuno dispersam muitas sementes. Daquelas que mesmo nas florestas mais densas se destacam porque se fazem ponto de referência. Daquelas que sobre, sob e ao redor dos seus galhos um vasto sistema se estabelece e é alimentado. E quais seriam os elementos essenciais para ser considerada uma árvore mestra? Se pensarmos no tempo como o forjador de quem somos, saudar o grão é reverenciar a potência que ele carrega, valorizar esse vir a ser. Toda grande árvore um dia já foi semente, toda mestria parte do lugar do aprendiz.

Mestra Elaine Espíndola e seus filhos. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Valorizar as mestras e mestres da cultura popular é respeitar o tempo que os forjou e que forjou também os que vieram antes. Por isso a memória que guardam e os legados preservados com esforço, muitas vezes sob condições adversas, precisam ser protegidos. Quando um saber ancestral não é transmitido, é como se uma árvore centenária fosse incendiada. E, com ela, desaparecem raízes de saberes profundos e também se perde a chance de milhares de sementes se espalharem. Quando essas pessoas não são honradas todo um ecossistema cultural esmorece.

Enquanto povo, não podemos permitir a ruptura desses referenciais culturais sob pena de ficarmos desarvorados. Urge garantir a tradição por meio de pessoas que entendem em profundidade do que falam e fazem, pois construíram modos de vida singulares baseados nesse entendimento.

Além de valorização e registro, é preciso garantir acesso a recursos e condições materiais para que esses saberes sigam vivos no cotidiano das comunidades, passando de corpo para corpo uma ética, uma estética, um modo de existir que carrega valores e formas de resistência.

Mãe Bia de Iemanjá na Ilha da Pintada em Porto Alegre. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Em tempos de aceleração tecnológica, onde o novo parece mais valioso ou em que tudo pode ser facilmente descartado, as culturas populares enfrentam o esquecimento, a marginalização e a descaracterização. Isso também é resultado de uma estrutura que por muito tempo privilegiou uma cultura elitista, letrada e urbana, enquanto desmerecia o que emergia de territórios periféricos, rurais, negros, indígenas e populares. Processos educacionais que se contraponham a essa lógica podem transformar esse contexto.

A presença dessas pessoas em instituições formais de educação traz visibilidade a modos de saber e fazer que muitas vezes foram deslegitimados nesses espaços. Essa é inclusive uma das metas do atual Plano Nacional de Cultura, instrumento que orienta o poder público na formulação de políticas culturais.

Ao revelarem outras epistemologias possíveis, conectadas com a ancestralidade, com o fazer coletivo e com o pertencimento aos territórios onde circulam e acabam por democratizar o acesso à cultura, ao patrimônio e à memória brasileira.

Numa atuação educativa griô em proximidade com a pedagogia freiriana, ao ensinar também aprendem, ao transmitir atualizam e reinventam as tradições no contato com novas gerações. Para além de se preservar tradições, o que se protege é a capacidade de imaginar mundos a partir de outras referências. Quando esses saberes entram nas instituições de ensino, entram também outras possibilidades de futuro, com mais pluralidade e justiça.  

Num tempo de tantas urgências e em que tanta coisa parece nos endurecer, esses saberes nos devolvem humanidade quando nos convidam a reconexão com quem somos em essência. São esses saberes que têm o poder de descolonizar a escola e reencantá-la com a força do sensível ao estimular o desejo de viver com sentido, de viver com beleza.

O projeto de lei chamado “Lei das/dos Mestras e Mestres” (PL 1176/11) que cria o Programa de Proteção e Promoção dos Mestres e Mestras dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares necessita do apoio das pessoas que se orgulham de vivenciar essa diversidade cultural. É preciso criar condições dignas para que mestras e mestres exerçam os ofícios e sigam honrando seus modos de vida, dando sentido não apenas para suas existências, mas às nossas também. 

Há um chamado para repararmos essas histórias de dedicação, tornando seus nomes e práticas conhecidos e ampliando o reconhecimento social e político que lhes é devido. Que o movimento de evocar essas mestras e mestres realizado neste livro possa inspirar e nos fazer reparar na riqueza simbólica que nos rodeia. 

*O artigo faz parte do livro“Patrimônio Vivo: as histórias e memórias de mestres de cultura do Rio Grande do Sul”, publicado pelo Nonada Jornalismo em 2025. Baixe gratuitamente.

Compartilhe

Relacionadas