Recife (PE) – Mesmo morando a poucas quadras do Teatro Santa Isabel, o designer de moda Marcelo Mendex, 30 anos, levou uma década para ocupar, pela primeira vez, o palco do suntuoso teatro, que catapultou o Recife para o hall das grandes metrópoles do século 18. E ele não precisou se desconectar da própria história e território para chegar lá.
Pelo contrário, traduziu sua ancestralidade negra e origem periférica para o show de moda ANAMAUÊ – ecoando a revolução, estreado neste ano. A estratégia é a mesma de Chico Science, mentor do Manguebeat, movimento do qual Marcelo, nascido e criado na comunidade Santo Amaro, área central do Recife, se considera herdeiro.
Mendex recebeu a reportagem do Nonada no camarim, a poucas horas da estreia, na agitação das modelos e artistas, entre provas e ajustes de figurino, reforça o quanto aquele momento é especial. “São 10 anos para chegar aqui, principalmente trazendo pessoas que são negadas pela sociedade, são taxadas marginalmente. É um grito, é um manifesto, é o eco de Chico que permanece”, empolga-se.
Para a estreia da 31ª edição do Janeiro dos Grandes Espetáculos, que acontece até o dia 4 de fevereiro, o jovem preparou 20 figurinos, roupas que contam a história da origem de Pernambuco e do Brasil, da colonização à contemporaneidade.

Quando o desfile começa, as cortinas se abrem e a luz em foco acompanha os movimentos acrobáticos de uma bailarina. Vestida com um collant de estampa de cobra coral, ela enrosca-se na corda em um jogo hipnotizante de luz e sombra ao som das batidas da música Rios, Pontes e overdrives, clássico de Da Lama ao Caos, álbum inaugural do Manguebeat.
“Eu trago esse animal porque ele representa a Jurema Sagrada, os povos indígenas, os verdadeiros donos de Pernambuco e do Brasil”, explica Marcelo. A cobra coral, animal típico da Mata Atlântica, bioma predominante no Recife, representa uma entidade de grande força e poder na Jurema Sagrada, religião de matriz indígena, em diversas culturas dos povos indígenas.
O título da coleção Anamawê – ecoando a revolução também celebra os povos originários. Essa saudação indígena significa “Salve, iguais!” e está no refrão de Maracatu Atômico, música de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, do álbum Afrociberdelia, segundo disco de estúdio da banda brasileira de manguebeat Chico Science & Nação Zumbi, que completa 30 anos este ano.
A entrada do Caboclo de Lança na passarela do Teatro Santa Isabel concretiza a conexão entre a origem e a contemporaneidade. Figura lendária do Maracatu Rural, sua apresentação é caracterizada pelo cravo na boca, cabeleira colorida e lança que rasga o ar com movimentos de guerreiro. “Ele é um guerreiro, assim como são os povos periféricos. Me identifico, como um jovem negro, vindo da comunidade Santo Amaro, um bairro com muito potencial cultural, mas bastante marcado pela violência e falta de acesso a serviços básicos”, traduz Marcelo.
O desfile segue com figurinos que exibem diversos animais do mangue, como o caranguejo, crustáceo típico do ecossistema do Recife. Entidades da umbanda, como o Caboclo Sete Flechas, ou Oxóssi, também se fazem presentes. O espetáculo apresenta também o mangueboy, persona criada por Chico Science, que tem como imagem-símbolo uma antena parabólica enfiada na lama. Em outro momento, Louise França, filha de Chico, surge na passarela adornada com um manto costurado com fuxico de chita, uma trama que mostra o entrelace entre as histórias das aldeias e quilombos, dos morros e das favelas.
Segundo Marcelo, a performance de Louise carimba a mensagem principal da obra: “O espetáculo Anamawê – ecoando a revolução é como Louise, uma artista que está contando também essa história [iniciada pelo pai] para o futuro, sem se desprender das suas raízes, pois não tem como a gente olhar para o futuro sem lembrar dos nossos ancestrais”, conclui.
Assim como o Manguebeat, Marcelo Mendex bebeu da cultura ancestral para cruzar as pontes que separam Santo Amaro do Teatro de Santa Isabel, mas não só. Guiado pelo símbolo africano Sankofa, ele retornou ao passado e ganhou impulso para cruzar as muitas camadas de desigualdade socioeconômica até a universidade, até o palco. Originário de Gana/Costa do Marfim, o símbolo Sankofa é representado por um pássaro com a cabeça virada para trás e um ovo no ventre.
O Nonada ouviu diferentes artistas e pesquisadores que seguem o legado do movimento cultural em seus processos artísticos. Da influência direta na música passando pelas artes cênicas e pela moda, os gritos do mangue seguem fortes na arte pernambucana e brasileira.
Manguebeat: estética e contestação social
O pesquisador Jenner dos Santos, em sua pesquisa “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, desenvolvida na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), define o Manguebeat como um movimento que uniu estética e contestação social. Mesclando ritmos africanos e indígenas com rock e hip-hop, o gênero enaltece a cultura popular.
Como um movimento cultural surgido na década de 1990, ele coloca a cidade em projeção nacional, a partir de uma série de influências da cultura pop, Hip hop e outros gêneros. Ao mesmo tempo, inspirado pela obra de Josué de Castro, o Manguebeat ficou conhecido por propagar letras de denúncia da fome e da urbanização desordenada que impactou o mangue, ecossistema predominante no Recife. Além de abordar a violência e o racismo estrutural.

Na música, a obra Da Lama ao Caos, primeiro álbum da Nação Zumbi, é considerada a pedra fundamental do movimento. Letras como Rios, Pontes e Overdrives ocupavam as rádios do Brasil com versos que falavam da rotina dos jovens negros da periferia invisibilizados nas grandes capitais. Em Da Lama ao Caos, Chico assume a voz de um menino em situação de rua que desperta para a seguinte reflexão “posso sair daqui pra me organizar, posso sair daqui pra desorganizar”.
Por mais de 30 anos, o jornalista José Teles cobriu cultura em Pernambuco. Dedicado também à pesquisa e à escrita, ele, que produziu quatro livros sobre o tema, sendo o último “Criança de Domingo – uma biografia musical de Chico Science”, considera que o “manguebeat fez mais pela cultura popular pernambucana do que o Movimento Armorial”, afirma. Durante a disseminação do movimento, artistas populares como Lia de Itamaracá, Mestre Salustiano, Mestres de Maracatu Rural ganharam os grandes palcos do Brasil e do mundo.
Manifesto caranguejo
As luzes se acendem, bailarinos giram em torno de saia vermelha. É Medéia, a mulher traída por Jasão, expressa a dor do abandono cruel. Ela é a própria representação do Recife, tomado por problemas ambientais que perdem espaço em meio ao crescimento urbano.
Em outro momento do espetáculo, de uma panela de barro gigante, muitos caranguejos partem em busca de um rumo. Promovendo um diálogo entre o conto grego de Eurípides (431 a.c.) e o teatro contemporâneo Medeia – Da Lama ao Caos mostra ao público os impactos ambientais da urbanização do Recife. O aterramento dos mangues, que dá espaço ao concreto dos edifícios, é um dos temas que ganha ênfase na performance.
Criado em 2023 pela Cênicas Cia. de Repertório, o espetáculo teatral promove debates após cada sessão. “A gente inicia o nosso espetáculo com trechos do Manifesto dos Caranguejos. O Recife precisa de um choque, senão ele vai morrer afogado. Precisamos entender a cidade onde a gente mora, precisamos entender o que acontece nos nossos entornos”, clamam os artistas em cena. O Manifesto Caranguejo com Cérebros foi escrito por Fred ZeroQuatro e marca a fundação do Movimento Manguebeat.

A atriz, co-escritora e uma das criadoras do espetáculo Gabriela Cicarello, ainda tem vívida a lembrança da reação do público na estreia do grupo. “No primeiro espetáculo que exibimos, ao final, o público nos procurou e disse: ‘ vocês precisam falar mais sobre isso! Vocês precisam falar mais sobre isso!”, recorda. Ela acredita que abordar os problemas do Recife, a partir da realidade de cada morador, fez a diferença. “Localizar o espetáculo, falando do Recife, é fundamental para criar identificação, provocar o público.
Para alcançar essa linguagem, os atores lançam mão do corpo caranguejo, uma técnica de desconstrução humana, que torna mais realista a encenação. “A gente usa o corpo caranguejo para trazer o animal corporificado. Tem muita presença do chão, do plano médio baixo. Acionamos essa corporeidade, fisicalidade do caranguejo no nosso corpo. Esses movimentos são acompanhados de guitarras e da sonoridade do manguebeat”, reforça.
Após algumas exibições, Cicarello afirma ter percebido uma mudança no perfil do público. “Pessoas que moravam próximo ao mangue passaram a frequentar o espetáculo e contar os seus problemas, as suas histórias. A exibição permite levar a mensagem, mas também escutar o público em rodas de debate”, conclui.
A dança que fala do Recife
Com 32 anos de atuação, o Grupo Experimental surge do luto pela morte trágica de Chico Science, ocorrida em 03 de fevereiro de 1997. Naquele momento, a bailarina Sonaly Macêdo, amiga pessoal do cantor, profundamente abalada, convidou a também bailarina e coreógrafa, Mônica Lira, para “dançar o luto”. Assim, nasce Zambo, assinado pelo Grupo Experimental, uma crônica dançada sobre dor, perda, mas que logo assume a voz do manguebeat e “através do corpo, reflete sobre as problemáticas da cidade, as questões sociais, ambientais e políticas”.
Por meio da dança contemporânea, caracterizada pela forma de dança livre e experimental que se contrapõe ao balé clássico, o espetáculo exibe um amálgama de movimentos que valorizam o contato com o chão e a combinação de técnicas de teatro e performance com referências de frevo, cavalo marinho, maracatu, e outras expressões culturais típicas da cultura pernambucana.
Há mais de três décadas à frente do espetáculo, Mônica Lira explica que “além de uma celebração à memória de Chico Science, ele é considerado uma abertura do portal para uma dança que fala do Recife tal qual o manguebeat. Deste portal, muitas crônicas surgiram abordando questões sociais e econômicas. Falamos do sincretismo religioso, da rotina de pessoas de periferia, espremidas no transporte público, entre o vai e vem de uma metrópole que impõe a constante necessidade de sobrevivência.”

Nos anos 2000, o grupo levou aos palcos Quincunce, espetáculo que denunciava o drama das famílias do Edifício Holiday. Com um elenco de bailarinos, a obra traça uma história de glamour e abandono. A edificação dos anos 50 foi um ícone da arquitetura modernista, encravado em Boa Viagem, bairro com o metro quadrado mais caro do Recife, e servia como residência de veraneio das famílias mais ricas da cidade.
Com o passar do tempo, o Holiday caiu no desencanto da alta classe, que passou a preferir apartamentos à beira mar. O prédio passou, então, a ser habitado por famílias populares, donas de pequenos estabelecimentos no bairro. Sem administração e manutenção sistemática, a estrutura se deteriorou e, em 2019, as famílias foram retiradas do prédio por meio de ordem judicial. Muitas delas ficaram em condições de vulnerabilidade e não foram ressarcidas do investimento que fizeram na compra dos apartamentos.
Essa semente cultural, cultivada na rua que abriga uma estátua de Chico, deu bons frutos. O projeto Núcleo de Formação em Dança se torna um braço do Grupo Experimental que leva aulas de dança aos jovens de bairros de periferia como Brasília Teimosa e Ibura, no Recife, e Peixinhos, em Olinda.
Lira considera a experiência desafiadora. “Todo esse trabalho dentro das comunidades foi difícil, pois uma coisa é você trazê-los para o seu habitat, outra coisa é você entrar na comunidade deles oferecendo uma coisa que eles não estavam acostumados, que é o balé clássico, a dança contemporânea, aula teórica, assistência psicológica”, avalia. A etapa seguinte ao treinamento consiste em uma triagem para identificar os jovens que mais evoluíram, somada a construção de espaços de treinamento no Centro do Recife.
Cerca de 600 jovens, de 13 bairros passaram pelo projeto, que além das aulas, oferecia auxílio transporte, fardamento e lanche. “Muitos deles, hoje, são profissionais de dança que atuam no próprio Grupo Experimental e em balés de São Paulo, Minas Gerais e fora país. A ideia [do projeto] era possibilitar a realização de um sonho, ” pondera Lira.