Guardiões das águas: catadores de caranguejo preservam o mangue todos os dias, mas carecem de reconhecimento

No Piauí, os trabalhadores atuam na conservação ambiental e cultural, apesar da falta de incentivo e das mudanças climáticas
Foto: Beatriz Trevisan/Nonada

Ilha Grande (PI) – Todas as manhãs, Antônio Júlio viaja na proa de um barco que atravessa o Delta do Parnaíba, no Piauí. Ele tem 78 anos e mais de sessenta anos de trabalho como catador de caranguejo. “No passado, a gente tirava caranguejo em tudo aqui¨, diz Júlio ao apontar para as ilhas e florestas piauienses que ele conhece como ninguém.

O calor de trinta e cinco graus borra a vista e não deixa enganar: o Piauí é a terra do sol. Mas o que ninguém sabe é que o Piauí também é a terra da água. O Delta do Parnaíba é um arquipélago que nasce na foz do rio de mesmo nome e forma cinco canais de água até se encontrar com o mar. É o único delta em mar aberto das Américas, além de ser uma área de proteção ambiental, que se derrama pelos estados do Piauí, Maranhão e Ceará. 

“Bem ali era um porto. A gente se atracava para tirar caranguejo para acolá. Hoje acabou. Caranguejo por aí tudinho, não tem mais”. Júlio nasceu e cresceu em Ilha Grande, a maior do Delta e a principal entrada para o arquipélago. É também a terra dos homens de lama, trabalhadores que são como guardiões da região que tem uma das maiores reservas de manguezais do mundo. Somente o Delta abriga mais de setenta ilhas formadas apenas por florestas desse ecossistema. Por isso, faz mais de um século que o mangue é o motor de vida e de renda das famílias. 

Foto: Beatriz Trevisan/Nonada

“A gente foi crescendo nessa e os nossos filhos foram também se adaptando, porque não tinham outro trabalho”, conta. Ainda criança, Júlio aprendeu a andar de bicicleta, a fazer cocada e a se afundar até o peito na lama para caçar caranguejo. “Quando eu tinha uns onze anos, eu ia pegar caranguejo com o papai. Assim quando eu cheguei no mangue, já peguei 44 caranguejos. Achei bonito aquilo. Gostei¨, relembra. 

Ao mesmo tempo, esse não era o único futuro que lhe interessava.Eu gostava muito de ler também. Gostava de estudar. Depois que eu saí da escola,foi quando eu caí no campo de vez,” Não demorou muito para que Júlio parasse de estudar. “Eu tinha doze anos quando eu deixei de estudar”. Aos 16, ele já era um caranguejeiro profissional. “ Se eu tivesse meio de ter estudado, acho que eu não saberia pegar caranguejo hoje, não.¨

Antônio Júlio é a pessoa mais famosa de Ilha Grande. Todos lhe conhecem como ativista e poeta. Ativista porque ele é a principal figura a lutar pelos direitos e interesses dos catadores. Já o título de  poeta tem relação com o momento em que ele e um grupo de colegas trouxeram a festa do Bumba meu Boi para a pequena ilha nos anos 1970. Júlio compõe repentes, melôs e escreve peças de teatro.

O caranguejeiro-artista transita pelas salas do poder e chama atenção. Ele é recebido e abraçado pelos políticos da cidade como se fosse uma entidade. A prefeita beija suas mãos e o chama de lenda viva. “Falou em cultura, falou-se em Julinho”, ela diz. O caranguejo e o manguezal são a grande expressão cultural de Ilha Grande. 

Desde criança, Júlio é um guardião do mangue. Aprendeu a catar caranguejo com seu pai e, desde então, nunca deixou de defender o território. Foto: Beatriz Trevisan/Nonada

Não tem como pensar nessa pequena ilha no Piauí e não associar ao caranguejo e aos catadores. Há 15 anos, a cidade comemora anualmente o Festival do Caranguejo, o evento mais importante da ilha, que celebra a culinária regional na Praça Nossa Senhora da Conceição. .Júlio foi o criador da festa e todo ano é homenageado. 

Mas, quando o assunto é tomar decisões que causem mudanças reais, a autoridade de Antônio Júlio e dos catadores é mais simbólica do que prática. Na prática, pouco ou nada muda. “Da mão do operário surge a grandeza das nações, né? Se não fosse o operário, o que seria da gente?”, reflete.

As leis de pesca

Não existe uma classificação específica de pesca artesanal para catadores e nem políticas públicas desenhadas para os trabalhadores dos mangues. A legislação brasileira de pesca define o pescador artesanal como pescador de peixe. Então, para ter alguma segurança trabalhista e acesso ao seguro-defeso e à aposentadoria, os catadores se cadastram na Colônia de Pescadores de Ilha Grande. “Eles estão recebendo o seguro, mas eles não estão inscritos como catadores, eles estão inscritos como pescadores”, diz Lucimar, o presidente da colônia. 

A colônia é a única entidade local que assegura algum direito aos catadores. E não existe uma compensação financeira para os trabalhadores do mangue durante a época de reprodução dos caranguejos. “O catador, mesmo inscrito na colônia ou no sindicato, não tem direito ao seguro, porque o benefício hoje é só para quem é pescador. Não é triste? Que era para os deputados, no meu pensamento, já terem criado uma proposta boa.”

Lila Lindoso afirma que ainda hoje não se tem números oficiais da quantidade de catadores de caranguejo trabalhando na região. “Eu não tenho como estimar quantos são, mas eu sei que os catadores são uma parcela importante dos beneficiários da Reserva.”.O que se sabe é que os rios e manguezais da região são fonte de subsistência de mais de 2200 famílias. Se hoje ainda existe a Delta do Parnaíba, muito se deve ao trabalho de preservação realizado pelos trabalhadores dos mangues. 

 Diretora da Reserva Extrativista do Delta do Parnaíba, a Resex. Analistaambiental, elatrabalha há vinte anos no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio. “Quando as comunidades fizeram abaixo-assinado pedindo a criação da Resex do Delta, o caranguejo foi o grande mote dessa criação. Ele é a nossa espécie bandeira, a logomarca da reserva é o caranguejo-uça”, conta. Lila explica que, sem uma categoria específica de pesca para caranguejeiros, é como se esse trabalho e esses trabalhadores não existissem.

O Mangue é um ecossistema costeiro presente ao longo da costa brasileira, do Amapá até Santa Catarina. Foto: Beatriz Trevisan/Nonada

Para Lila, a legislação de pesca também erra ao ignorar que os povos tradicionais praticam várias atividades extrativistas ao mesmo tempo. “Se o pescador, no período de defeso, desenvolver qualquer outra atividade, ele perde o seguro. Sendo que o pescador artesanal sempre desenvolveu uma multiplicidade de atividades. Resta para o público virar outra coisa para se adequar a um personagem que a política pública criou e que não existe”. Lucimar concorda. “O mesmo catador cata, pesca, arranca marisco. Ela faz tudo. É um profissional nas três áreas.¨.

A diretora da Resex diz que os movimentos de pesca e de direito ao território estão insistindo na criação de um seguro-defeso para o caranguejeiro. “ Desse modo, gente consegue viabilizar os caranguejeiros e fazer todo um trabalho voltado especificamente para esse público.”

Mais do que o seguro-defeso, Lila defende que os povos tradicionais sejam pagos pelo serviço que eles prestam para a conservação dos ecossistemas. “Qual é o serviço ambiental que os catadores de caranguejo prestam para a conservação do mangue? A gente poderia pensar, por exemplo, em um programa de pagamento para o serviço ambiental para a cadeia do caranguejo-uçá”. 

O Festival do Caranguejo

Foto: Beatriz Trevisan/Nonada

O Festival do Caranguejo foi criado há vinte anos com o objetivo de ser o maior evento cultural e turístico da cidade. O Sebrae foi o principal parceiro nos primeiros anos e exigia que a festa seguisse à risca o nome que assinava. O foco era gerar renda e valorizar todos os trabalhadores do mangue, como catadores, cozinheiras e artesãs. E assim era feito. Pelo menos dez estandes deveriam ser separados para os catadores venderem seus produtos. E outros dez estandes eram separados para as cozinheiras. 

Em 2025, Ilha Grande comemorou o décimo oitavo Festival do Caranguejo, e a festa já integra o calendário oficial de eventos do estado. Mas, passados quase vinte anos, o que restou foi um esboço do que o festival já foi. A reportagem acompanhou Júlio na última edição de 2025 e a sua percepção é a de que que a festa que deveria celebrar o manguezal e os povos tradicionais distanciou-se do seu propósito e tornou-se mais um aceno de força política do que qualquer outra coisa. “Passei uns quatro anos sem pisar por aqui”, diz Júlio.

No local, um cardápio têm lasanha, torta, pastel e batata recheada de caranguejo. Mas a cozinha é tímida. São oito barracas de cozinheiras da cidade. Tem cachorro-quente, batata frita, coxinha e hambúrguer nas mesas dispostas pelas ruas. Mas não tem caranguejo. Dona Raimunda, uma das cozinheiras que ajudou a criar a festa ao lado de Júlio, deixou de levar suas receitas para o evento há sete anos. “Hoje não é mais o festival do caranguejo. Hoje tem festival de tudo, que até churrasquinho de carne você encontra.¨ pontua.

Um mural de fotos de catadores de caranguejo montado no meio da praça é o único lembrete do tema da festa. “Os homens são esses aqui, os protagonistas da história, mas não estão na festa. Sem a figura dos catadores, perde a cor”, diz Júlio enquanto observa as fotos de parentes e amigos.

Ele diz que o que fica é um sentimento de frustração. “Imagina que tudo isso que existe aqui é fruto da nossa essência. Só que o tempo foi passando e ficou mais desvalorizado”. Faz alguns anos que o caranguejo tem ficado mais no nome.Já houve ano que não teve o caranguejo”, diz Raimunda. 

A comunidade de catadores de caranguejo se afastou da organização do festival. Hoje em dia, o evento se tornou mais uma festa com show gratuito e menos uma celebração do mangue e dos caranguejeiros. O evento cultural que prometia autonomia financeira para os catadores é mais um final de semana como qualquer outro. 

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