Marcos Fernando, conhecido como Marcos Poeta, cineasta, jornalista e radialista, nasceu na região entre Brasiléia e Epitaciolândia, municípios do estado do Acre. Sua família foi contemporânea do ativista ambiental brasileiro Chico Mendes e morou na Reserva Extrativista (Resex), que leva o nome do líder seringueiro assassinado em 22 de dezembro de 1988.
Territórios protegidos por lei e cedidos a populações tradicionais, as Resex unem comunidade e preservação, ao longo de mais de 90 territórios por todo o Brasil. A coleta de frutos da mata, borracha, óleos, sementes e derivados é a característica que move essas áreas de conservação, destinadas a proteger os meios de vida, a cultura das populações tradicionais das florestas e as próprias comunidades que vivem nelas, como os seringueiros.
Poeta é cineasta e sua família, vinda do nordeste, o criou desde os seis anos nesse território de fronteira, ouvindo os “canto da macucaua, do gogó-de-sol, da aracuã pássaros nativos da reserva onde cresceu, cujo tamanho ultrapassa o milhão de hectares de floresta amazônica. “Essa questão da Resex [um possível apagamento da cultura seringueira] me preocupa profundamente, porque ela é um patrimônio nosso que, além do valor simbólico, tem um valor estratégico na luta pela preservação da Amazônia e pela dignidade dos povos da floresta”, afirma.
A urgência de preservação das reservas tem preocupado comunidades como a de Marcos, que veem uma ameaça crescente de eliminação dos saberes da cultura seringueira da região, nascida da junção da cosmovisão indígena e de migrantes nordestinos que foram ao Acre em busca de novas oportunidades durante os ciclos da borracha, no final do século XIX.
O seringueiro acordava cedo, se embrenhava pelos varadouros —estradas no meio da mata que os ligavam às seringueiras. Usava a poronga na cabeça, iluminando o caminho, assim como uma cabrita — espécie de faca de risca — para cortar a árvore do látex. Ele voltava para sua casa, no meio do seringal, e de tarde, coletava o que havia saído do corte feito mais cedo para, então, fazer a defumação e produzir a borracha.
Para além disso, os seringueiros têm uma linguagem própria, muito por conta do isolamento geográfico dos seringais para com outros territórios do Estado. Vocábulos colocação, aviamento, macheteiro nascem nessas vivências. O boné na cabeça, as calças e camisas surradas também compõem a vestimenta dessas pessoas. A prática extrativista também influenciou a criação de uma religiosidade típica, que une a cultura popular nordestina e a celebração dos seres encantados da floresta, como o Mapinguari, a Matinta Pereira e o Curupira.

A Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada no Acre, foi considerada a área protegida mais ameaçada e pressionada pelo desmatamento na Amazônia no segundo semestre de 2025, segundo dados do relatório de Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas. Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes/Nonada
“Os encantos foram uma companhia com que eu cresci junto. Eu enxergo como uma forma de respeito, porque eu acredito e respeito muito toda essa cultura. Onde não tem floresta, não tem encanto. Eu enxergo como algo sobrenatural, que é real e que está ali para proteger a floresta, como o próprio espírito da mata”, conta Laiane Santos, técnica agrícola, moradora da comunidade São Raimundo Nonato, km 59, em Brasiléia, no sul do Acre.
A mistura de referências criou, ao longo das décadas, uma religiosidade tradicional típica do seringal, que além de uma ter uma dimensão cultural, também influenciou a capacidade de organização política e sindicalista destes territórios, outra característica ligada ao universo seringueiro. Entretanto, após realizar uma pesquisa dentro da Resex para um filme que está produzindo, Poeta, que já produziu um documentário sobre a liderança seringueira Wilson Pinheiro, se deparou com uma transformação que lhe saltou os olhos.
“Eu me deparei com uma igreja, um templo protestante em frente à sede da associação [de moradores]. De forma imponente, construída em um prédio em alvenaria. Tomei um susto. Não que a presença de uma igreja em si seja um problema, mas tomei um susto pelo o que representa essa presença.”
A (falta de) memória dos seringais
O fato notado através das imagens de Marcos Poeta expressa uma tensão histórica de apagamento das práticas culturais dos seringueiros e de outras comunidades presentes nas reservas. Ao longo dos anos, especialmente após a morte de Chico Mendes, a agropecuária e a igreja da Teologia da Prosperidade adentraram com mais força espaços como a Reserva Extrativista. Poeta correlaciona este período com o enfraquecimento político da militância no território, além da crescente presença do agronegócio dentro dessas regiões.
A mudança de cenário nas últimas décadas impacta, diretamente, a geração mais jovem, que já não conviveu com a cultura seringueira da forma como se conhecia antes. Para Rachel Dourado, turismóloga, pesquisadora e doutora em Geografia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), a oralidade é essencial neste processo, já que ela afirma que algumas práticas tradicionais deixaram de ser transmitidas às novas gerações e esta ausência da contação de histórias impacta a memória e o vínculo dos povos da floresta.
“Sim, há um processo de sobreposição cultural que acaba tentando apagar essas memórias, mas elas continuam resistindo”, comenta. Os mais velhos do território comentam sobre a dificuldade de transmitir a história e a memória seringueira às novas gerações.
Quem fala mais é Osmarino Rodrigues, seringueiro desde jovem e liderança comunitária, e um dos fundadores do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Brasiléia (STTR), berço da militância sindical acreana. Segundo ele, a predominância de apenas uma religião no território afetou a multiplicidade e transmissão de saberes seringueiros.


Laiane Santos lembra que seu avô era um dos poucos que contava essas histórias da mata, não deixando seus tios caçarem todos os dias, por exemplo, caso ainda tivessem carne em casa, em respeito à floresta, mesmo ouvindo que isso fosse considerado “coisa do diabo” na época. “Hoje poucos jovens têm acesso a essas histórias. A gente tem um problema muito grande, que é a perda da nossa identidade, porque os mais velhos não contavam esses causos”, relembra a técnica agrícola.
Rodrigues reclama como o crescimento da religiosidade interfere na transmissão de saberes seringueiros e “desarma” as comunidades extrativistas contra fenômenos de apagamento. Para ele, existe uma “tribulação” acontecendo na Resex Chico Mendes, sendo essa um exemplo de como a memória e a história seringueira vêm se perdendo.
Encantarias, rogai por nós
“A Santa Raimunda é uma mulher linda”, descreve Rachel Dourado. Santa Raimunda, assim como outros encantados das matas são cultuados e guiam as comunidades dentro das Resexs. Segundo Marcos Poeta, as encantarias da floresta são expressões de conhecimento que, diante da destruição da floresta, também são ameaçadas. Como evocar uma entidade da mata, sem a mata? Toda essa construção histórica, um patrimônio civilizatório do território, se perde com o apagamento cultural dos saberes seringueiros e com a própria destruição das reservas
“As histórias da floresta são histórias principalmente de sobrevivência e de esperança. A floresta tem mistérios e encantarias que são bem maiores do que a nossa ignorância e a nossa pretensão humana”, ressalta Poeta.
Osmarino deixa claro que essas histórias ajudaram os seringueiros a criarem sua própria cultura e, por conseguinte, sobreviverem na rotina tão próxima da mata, dos rios, da floresta como um todo. Do lobisomem ao boto, da caipora ao caboclo da mata, todas essas narrativas estão presentes no cerne da vida seringueira. Este estilo de vida foi tema de pesquisa de Rachel Dourado. Em uma de suas andanças pelo seringal Bom Sucesso, no município de Feijó, no Acre, ela encontrou aquela que seria tema de seu livro Espaço de peregrinação: devoção nas estradas da seringa, lançado neste ano.
“Quando conheci a Santa Raimunda, que é a alma do Bom Sucesso, fiquei intrigada porque vi alguns elementos que já tinha percebido lá em São João do Guarani, e como esses elementos faziam parte daquela relação de ser moradora da floresta e precisar disso para criar os vínculos comunitários”, relembra.

A figura de São João do Guarani é cultuada em uma festa tradicional realizada anualmente no município de Xapuri, também no Acre, onde se celebra um santo não oficial da Igreja Católica, considerado pelos seringueiros e moradores locais como uma “alma milagrosa” e um protetor da floresta.
Para a pesquisadora, essa fé na floresta cria vínculos comunitários que perpassam o tempo e o espaço. Guiando pensamentos e comportamentos de solidariedade intrínsecos à vivência na Amazônia, algo que Poeta descreve como: “São povos que se preocupam com os outros, pessoas que querem dar o seu melhor. Porque a gente compreende que você não sobrevive, você não melhora a qualidade de vida, se melhorar só para você. Se for bom só para mim, é ruim para todo mundo. Tem que ser bom para a humanidade”
Mas afinal, quem foi a Santa Raimunda? Provavelmente de etnia Manchineri, povo indígena de língua Aruaqui que vive na região da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, conta-se que ela viveu no Alto Iaco no início do século XX durante o primeiro ciclo da borracha, período marcado pela exploração sob regime de semiescravidão.
Atuava como parteira e também na extração do látex — trabalho invisibilizado pelos patrões, que registravam e reconheciam apenas os homens. Grávida de nove meses e responsável por recolher o leite das seringueiras, Raimunda foi agredida pelo marido. Em seguida, durante a ronda de coleta, entrou em trabalho de parto na mata, mas não resistiu e faleceu encostada a uma árvore.
Ao ser encontrada já sem vida, a impossibilidade física de mover seu corpo foi interpretada como um sinal da tradição indígena de pertencimento à terra, o que levou ao seu sepultamento no próprio local. Décadas depois, tornaram-se comuns os relatos sobre um perfume misterioso na área, criando a crença de uma permanência de sua alma na memória popular. Dourado relata que:
“As mulheres dos seringais olham na Raimunda a presença de uma mulher que, mesmo oprimida pelo capitalismo e mesmo oprimida pelo machismo, se reconstrói morta.”



Uma prosperidade que esvazia
Osmarino Rodrigues conta que, após a morte de Chico Mendes, uma outra cultura ganhou forma nesses seringais, tomando de assalto as crenças e a cultura que residia lá. Para a liderança comunitária, este apagamento ameaça a perpetuação de saberes e figuras do território, como a Santa Raimunda e diversos outros que ele afirma perceber que não são mais tão presentes no cotidiano da juventude, por exemplo: “É uma situação complicada hoje a que nós estamos vivendo. Muita gente está falando de fé, mas é uma fé esperando Deus resolver essa opressão. E isso não vai ser resolvido por Deus. Tem que ser resolvido por nós”, diz.
O seringueiro fala da persistência de continuar acreditando que um projeto de reforma agrária para a Floresta Amazônica, como o das Reservas Extrativistas, uma gestão territorial baseada no uso sustentável e coletivo dos recursos naturais. Este “varadouro” passa pela juventude que, segundo ele, precisa se apropriar dessa cultura para não entregar “o nosso potencial, que é essa grande floresta, para o grande capital.”
“Hoje nós estamos vendo uma juventude se levantando, mas também estamos vendo o tráfico se apropriando de uma grande leva de jovens. Precisamos ter atitude, ação para fazer esse enfrentamento”, diz.
Institucionalizadas oficialmente pelo governo federal na década de 1990 e consolidadas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as Resex desempenham um duplo papel estratégico: garantem a permanência e a dignidade das comunidades na floresta e barram o avanço da grilagem e do desmatamento ilegal. Segundo Osmarino, o afastamento dos mais novos e o esvaziamento dos saberes está ligado a uma presença hegemônica de templos religiosos ligados ao agronegócio.
Nessa disputa, entram duas teorias religiosas, a Teologia da Libertação e a Teologia da Prosperidade. Duas visões teológicas e ideológicas antagônicas que disputam a relação do homem com a natureza na Amazônia. De um lado, a ética associada ao espírito do capitalismo baseia-se na individualidade, no interesse pessoal e em uma perspectiva economicista. Em contraposição, a Teologia da Libertação orienta-se pelo serviço social, pela coletividade e pelo pertencimento mútuo entre o ser humano e o meio ambiente. Historicamente ligada às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, essa corrente comunitária desempenhou papel decisivo na formação e no fortalecimento do movimento seringueiro.
Embora o líder ambientalista Chico Mendes tenha recebido contribuição fundamental do educador Euclides Távora, foi no amparo da Teologia da Libertação que ele expandiu sua visão de mundo e encontrou sustentação política quando rejeitado por outras instituições.
O que se revela no respeito que este povo tem com a floresta e com sua comunidade, o que é permeado por toda uma devoção popular. As mudanças trazidas pela juventude, como o ingresso nas universidades, não deveria significar uma desconexão com a cultura do território.
“Preservar a cultura e preservar a floresta estão associadas. Quando a gente escuta uma história de um encantado, que se você derrubar a árvore ele vai te bater, é uma forma que a gente tem de regular o convívio”, explica Dourado.
A historiadora relembra uma história contada a ela, ilustrando esta afirmação. Em meio a pesquisa que deu origem ao seu livro, ela estava na fronteira do Acre e Peru, na cidade de Inãpari, uma senhora relatou ter recorrido à oração para Santa Raimunda, do Acre, após ser diagnosticada com câncer de colo de útero. As encantarias estão presentes na cultura amazônida e seringueira, mesmo depois de tantas transformações históricas e sociais.

O passado da cultura seringueira
A inventividade dos seringueiros era também uma forma de resistência. Olhando para trás, é possível entender de onde vem a formação dessa cultura, muito associada aos movimentos políticos encabeçados pelos trabalhadores.
Na década de 1870, após uma seca severa no Nordeste, milhares de homens abandonaram suas famílias em prol de um sonho: enriquecer com a extração do látex da borracha, nos seringais do Acre. Este foi o primeiro ciclo da borracha registrado. Até que, em 1899, a Primeira República do Acre foi proclamada pelo jornalista espanhol Luis Gálvez Rodríguez de Arias, o Gálvez, que virou até série escrita pela novelista, vencedora do Emmy e acreana, Glória Perez.
Este período foi marcado pelo conflito de interesses entre a burguesia de Manaus, que desejava capturar a arrecadação de impostos sobre a exportação do látex e os seringueiros, que eram cada vez mais subjugados. Em 1900, o número de migrantes para a Amazônia chegou a ser de 15.773, segundo a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
Neste imbróglio, os seringueiros se juntaram em uma força armamentista que, como está nos livros de história, enfrentou reviravoltas e vai-e-vens entre Brasil e Bolívia. Com o conhecimento dos rios e varadouros e recrutados por Plácido de Castro, eles surpreenderam as guarnições bolivianas e venceram a guerra, conseguindo consolidar a independência acreana em 6 de agosto de 1902, até sua consolidação enquanto território brasileiro em 15 de junho de 1962. Contudo, os seringueiros, usados como massa de manobra durante esta guerra não tiveram o mesmo “feliz para sempre” que os livros gostam de dar para esta história.
Enquanto os patrões seringalistas, responsáveis pelo regime de semiescravidão que lideraram o movimento, foram patenteados e contemplados com indenizações e pensões do governo federal, os seringueiros da base foram desmobilizados sem receber títulos de propriedade ou reparações financeiras. Essa massa de trabalhadores permaneceu submetida ao regime de endividamento dos barracões, mantendo a estrutura de exploração no Acre Federal. Uma repressão que ficou ainda mais evidenciada pelo assassinato de Plácido de Castro em um seringal, o Benfica, em 11 de agosto de 1908.


“Eu era muito jovem na época, mas lembro perfeitamente que a gente já sabia o que queria: uma luta acirrada pela defesa do território, resolver o conflito fundiário, a grilagem de terra e os enfrentamentos. Nesses conflitos, a gente viu muitos seringueiros, muitas seringueiras, mulheres e homens fazendo as suas orações baseadas no movimento”, relembra Osmarino Rodrigues.
O Pai Nosso do Seringueiro, que troca os versos da oração cristã para a realidade dos seringueiros e sua relação com a seringueira, é um exemplo dessa atualização e subversão de práticas impostas.
Com o alto índice de analfabetismo dos seringueiros, a oração e os cantos, como o Hino do Seringueiro, valorizavam e incluíam estes trabalhadores, por meio da cultura. A organização e o senso de comunidade influenciou uma organização política, como o 1º Encontro Nacional Encontro dos Seringueiros, em Brasília, em 1985, que fez nascer a Aliança dos Povos da Floresta, uma união histórica de mais de 100 representantes de trabalhadores extrativistas (seringueiros, castanheiros e pescadores) e indígenas dos estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Pará e Amapá, liderados por Chico Mendes. Cultura, política e o meio ambiente sempre estiveram unidos na história e memória da movimentação seringueira.
A resistência dos seringueiros também se dava na criação de modos pacíficos de enfrentamento. Entre as décadas de 70 e 80, os conflitos de terra nestas regiões aumentaram consideravelmente, levando à criação dos Empates, cordões humanos formados por homens, mulheres e criança, feitos para proteger as árvores da motosserra e para reivindicar um diálogo com a comunidade.
Para Osmarino, as práticas culturais dos dos seringueiros e o senso de coletividade sempre foram essenciais para que a luta continuasse. Entretanto, a fé, sem mobilização social não era nada, para ele, o que é uma preocupação atual, já que acredita que hoje se pregue uma religiosidade desconectada das questões sociais. “Se nós não tivéssemos adquirido uma certa consciência de classe, só a fé não teria resolvido esse problema”, declara.

Pertencer para proteger
Em um cenário de degradação socioambiental e cultural, Marcos Poeta aponta que a substituição da perspectiva comunitária por uma política de “terra arrasada” coloca em risco a sustentabilidade da região e a própria sobrevivência das comunidades tradicionais. “As coisas na história não acontecem por acaso, elas são construídas historicamente”, completa.
A preocupação de lideranças e organizações tem sido, justamente, essa: não permitir que se esqueça a história de resistência da região. Neste sentido, organizações semelhantes à Aliança dos Povos da Floresta persistem na proteção de linguagens e memórias, evitando que a cultura exploratória destrua e consuma o que já existe nestes espaços.
“Para mim, o fato de os saberes não serem transmitidos impacta diretamente na vida da juventude, porque a gente perde a identidade. Na verdade, não é só a história, é uma perda de identidade. Aquilo que não é contado é esquecido; o que é esquecido é morto. Acaba que a juventude, por não ter uma cultura própria, vai se apropriando e se perdendo nas culturas do agro, do sertanejo”, reflete Laiane Santos sobre essa resistência em permanecer lutando pela manutenção de saberes seringueiros. Além da questão da memória, tornou-se comum a saída da juventude do território e o seu não-retorno.
Em 2026, o Comitê Chico Mendes organiza o Festival Jovens do Futuro, que neste ano busca falar justamente sobre o pertencimento enquanto ferramenta de defesa. Já o Coletivo Varadouro, organização fundada em 2023 por jovens extrativistas, dedicado à mobilização social por meio de oficinas nas reservas extrativistas, ganhou espaço internacional em conferências climáticas como a de Bonn e a COP30, em Belém, levando essas pautas para os espaços de tomada de decisão.
A manutenção dos saberes seringueiros é fundamental, segundo os entrevistados, para armar as populações que pertencem aos territórios de reserva contra as ameaças que, com o passar do tempo, se atualizam, mas sempre permanecem.“A [Santa] Raimunda faz essa ponte, e ela e todos os santos populares que estão dentro da Resex Chico Mendes fazem essa conexão com o que foi o passado, com a luta para permanecer, com a conquista do território e com a necessidade de vínculos comunitários para continuar existindo ali”, complementa Rachel Dourado.

Atualmente, o território enfrenta uma série de tensões. Em 2021, 89,5 km² (8.958 hectares) foram desmatados na Resex Chico Mendes, o que simbolizou uma onda crescente de destruição ambiental na década de 2020, processo acelerado pelo descaso institucional com o monitoramento e pela pressão partidária sobre a terra, resultando em, por exemplo, mais de mil focos de incêndio na área de 970.570 hectares, que abrange sete municípios no Acre.
Rachel Dourado destaca que a manutenção da mata em pé exige o acesso contínuo a direitos fundamentais, como saúde, educação e segurança alimentar, fortalecendo a identidade de quem transita entre o campo e a cidade. “A gente tem esses guardiões da floresta que sempre estiveram lá, e acho que isso é muito importante para a gente se fortalecer enquanto comunidade, voltar a se sentir pertencente a esse lugar”, afirma.
Projetos que conectam os jovens à recepção de visitantes urbanos e ao turismo comunitário, como a empresa Destino Acre e o trabalho de ecoturismo feito na casa do seu Raimundão Mendes atraem gente de todo o mundo, têm se mostrado caminhos promissores de geração de renda.
“Um intercâmbio para a gente poder levar algumas pessoas da reserva para fazer uma determinada ação nas escolas dos municípios, nas faculdades, nos bairros, e trazer estudantes e jovens sindicalistas para dentro da reserva, para dentro do movimento camponês”, pensa Rodrigues sobre possíveis caminhos para conexão entre gerações.
Para o seringueiro Marcos Poeta, a resposta para preservação do território está justamente no fortalecimento do sentimento de pertencimento dentro destas famílias que ainda moram neste território. Ele diz que “se você pertence a algo, você não quer destruir”. A solidariedade e o saberes da oralidade fazem parte do cerne das comunidades que estão e pertencem à Amazônia.


