Além do teto: Como moradia precária afeta o acesso à cultura de crianças imigrantes em São Paulo

Famílias de países do Sul Global mostram que morar na capital paulista também envolve garantir circulação pela cidade e transmissão de referências culturais às crianças

Esta reportagem foi realizada por meio do Edital de Apoio à Reportagem da Habitat para a Humanidade Brasil, ficando o conteúdo e as informações veiculadas sob total responsabilidade do(a) jornalista autor(a)

*Os nomes das fonte foram alterados para preservar as identidades das pessoas entrevistadas

São Paulo (SP) — “Quem é você?”. São 18h de uma segunda-feira na República, centro de São Paulo. A pergunta vem de uma menina que brinca de pega-pega entre verduras, legumes e frutas, desviando de pessoas e carros. Aos 6 anos, Luanda, que leva o nome da capital de Angola, é filha de pais angolanos que chegaram ao Brasil há cerca de dois anos em busca, nas palavras do pai, Iolando, “de uma vida mais justa”.

Com a situação financeira ainda instável, a família vende produtos no centro da cidade para garantir a renda. Enquanto os pais trabalham, Luanda brinca por perto. “Gosto de brincar, correr e pular”, enumera. Cercada por alguns dos principais equipamentos culturais do centro, conta, com gestos, que nunca entrou em espaços como o Theatro Municipal ou a Galeria Olido.

Os pais dizem que, nesses dois anos, ainda não conseguiram levar a filha à grande parte dos espaços culturais da cidade. A rotina preenchida pelo trabalho e pela venda de produtos deixa pouco tempo para passeios e também dificulta, segundo eles, a transmissão cotidiana de algumas tradições e referências angolanas à menina.

A cerca de 25 quilômetros dali, já depois das 18h, é dentro de um ônibus que Paula do Carmo Muecalia, 31, encontra um tempo para conversar. Poetisa e orientadora de público, a angolana vive há oito anos no Brasil e percorre diariamente o trajeto entre a região da Luz e a casa onde mora, no bairro Capão Redondo, periferia da extrema zona sul da capital. 

Foi no imóvel atual, conta, que encontrou condições que considera importantes para criar a filha Gênesis, de 4 anos: espaço, ventilação, ausência de escadas e creche praticamente ao lado. “Deixo a minha filha mais solta para brincar. Brinca no quintal de casa mesmo. É espaçoso, ela ama.”

A casa chegou por indicação de uma amiga que conhecia os proprietários. Paula se interessou pela localização e o conforto. Cita que a adaptação foi rápida. Nos dias mais quentes, porém, a rotina muda. “Minha filha tem dermatite e aí as crises são mais frequentes”, já que as temperaturas altas e mudanças bruscas de clima funcionam como grandes gatilhos para quem tem a pele sensível. 

Há três anos, Paula trabalha como orientadora de público em um dos museus mais visitados de São Paulo, e as atividades culturais também fazem parte da criação de Gênesis. A menina frequenta o museu, participa de festas com outras crianças de famílias angolanas e mantém contato com referências culturais por meio da família, mas a mãe reflete que nem sempre é possível manter uma rotina cultural como gostariam. “A distância influencia diretamente chegar em equipamentos culturais”, resume. 

Para ela, porém, não é só uma questão de distância. Entre os imigrantes com quem convive, Paula percebe maior interesse quando a programação permite algum reconhecimento de suas próprias referências. Ela se lembra, por exemplo, de uma mobilização maior para assistir a uma apresentação teatral sobre o continente africano, realizada por imigrantes angolanos.

A experiência de Paula mostra como questões relacionadas à moradia, na vida de imigrantes da cidade, não se reduzem apenas a conseguir pagar um aluguel. O território também impacta o modo de viver a infância e influencia os acessos, no plural. O lugar onde se vive impacta o acesso à creche, ao transporte, à segurança e também às áreas de lazer e aos equipamentos culturais. 

Nas últimas semanas, o Nonada ouviu famílias imigrantes com crianças de até 6 anos e encontrou relatos marcados por diferentes vulnerabilidades habitacionais e climáticas: enchentes, casas pequenas, calor excessivo, umidade e longos deslocamentos entre a periferia e outras regiões da cidade. Essas condições atravessam diretamente a primeira infância — período que vai do nascimento aos 6 anos e é caracterizado por intenso desenvolvimento, aprendizagem e formação de vínculos. 

Nem sempre, porém, essas experiências são acessíveis para documentar. Ao longo da apuração, algumas famílias procuradas pela reportagem preferiram não falar ou demonstraram receio de se expor, além da própria questão linguística. Parte dos depoimentos foi concedida sob condição de anonimato, para preservar a identidade das pessoas ouvidas e evitar possíveis consequências para elas e suas famílias. Quando alterados, os nomes acompanham um asterisco ao fim. 

Obra do artista visual angolano, Paulo Chavonga, imigrante no Brasil desde 2017. Foto: Divulgação/Museu da Imigração/Nonada

Uma primeira infância imigrante

Gerente de sensibilização da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Sheila Calgaro reforça que os efeitos da moradia sobre a infância ganham peso especial nos primeiros anos de vida. “É na primeira infância que 90% do nosso cérebro é formado”, comenta. “Temos um milhão de conexões neurais a cada segundo”, acrescenta. Situações de estresse provocadas por perda da casa, enchentes ou rompimento de vínculos podem ter repercussões importantes. 

O acesso à cultura — ou as barreiras para alcançá-la — também atravessa a experiência de quem chega ao Brasil, especialmente de países do Sul Global. “Não temos acesso aos museus porque ficam longe” foi uma resposta recorrente entre famílias imigrantes bolivianas e peruanas ouvidas pela reportagem, tanto entre aquelas que vivem em áreas centrais quanto nas periferias da capital. Bibliotecas, centros culturais e outras opções de lazer ficam, em alguns casos, a longos trajetos de transporte público, o que torna a participação menos frequente, especialmente para famílias com crianças na primeira infância. 

A costureira Maria Salazar*, 46, imigrante boliviana, cita que, apesar de haver um CEU, Centro Educacional Unificado — equipamento cultural público instalado em territórios vulneráveis— perto de sua casa, não consegue desfrutá-lo muito, pois as horas dedicadas ao trabalho de costura, além de outros afazeres domésticos, a deixam longe de vivências culturais de sua comunidade. Mãe de três filhos, de 2, 3 e 5 anos, diz temer que as crianças não falem espanhol e não se aproximem de elementos culturais importantes de suas raízes, como o milho e a quinoa, ingredientes tradicionais, além das histórias dos mais velhos e tradições de festa que ela acessou na infância.

Além das barreiras estruturais, o preconceito enfrentado pelos imigrantes latino-americanos também bate de frente com o desenvolvimento cultural das crianças. Peruana, Martinez Espírito Santo*, 54, está no Brasil há cerca de 5 anos, com uma filha. Ela diz que é recorrente ouvir questionamentos sobre o que veio fazer no país. “Nem todo mundo entende que a gente não sai do país onde a gente nasce porque a gente quer”, comenta. “A gente sabe, como mãe, que nossos filhos choram e sofrem, mas a gente faz o que?”, questiona. Sobre a precariedade para manter relações culturais do país de origem, cita seu maior medo: a filha perder o sotaque. 

Maria e Martinez atuam em confecções de costura. Hoje, moram em casas de bairros diferentes, mas logo que chegaram ao país tiveram que dividir quartos com mais pessoas, em cômodos anexos de onde trabalhavam. “Não tinha vento, um banheiro com todo mundo acumulado”, exemplifica Martinez. A especialista da Fundação Maria Cecília elenca falta de saneamento, pouca ventilação, ausência de áreas verdes, umidade, mofo e exposição a enchentes como fatores que podem atingir a saúde e a rotina das crianças. Em períodos de calor extremo, por exemplo, os bebês podem sofrer mais por ainda terem dificuldade para regular a temperatura corporal. Já uma enchente pode significar mais do que a perda de móveis ou da própria casa. “Você perde os vínculos, você perde a tua vizinhança”, indica. 

Para Sheila, a precariedade habitacional também limita experiências importantes fora das paredes de casa. “Se ela está em um lugar precário, ela não vai receber seus amigos, ou não consegue se deslocar para o centro da cidade ou espaços culturais e bibliotecas”, diz. A falta de espaço para brincar e de áreas verdes, segundo ela, pode afetar a autonomia, a criatividade e o desenvolvimento social e emocional. Mudanças frequentes ou deslocamentos forçados agravam esse processo ao enfraquecer relações com a escola, a vizinhança e o território. “O afeto é a cola da aprendizagem”. 

A Prefeitura de São Paulo foi procurada pela reportagem e questionada sobre as situações relatadas, mas não respondeu até a publicação deste texto.

A maternidade e a infância dos imigrantes são temas presentes no trabalho do artista visual angolano, Paulo Chavonga. Foto: Divulgação/Museu da Imigração/Nonada

A falta de espaço constante

Cabo-verdiano, advogado e fã do grupo de rap Racionais MC’s, Ivaldino de Assis Tavares, mais conhecido como padre Assis, atuou por mais de 13 anos em comunidades de São Paulo, acompanhando de perto famílias em situação de vulnerabilidade. O trabalho pastoral alcançou diferentes favelas e se estendeu ao atendimento de imigrantes e pessoas privadas de liberdade. Entre a população migrante, tornou-se referência para questões práticas da chegada e da permanência no país, auxiliando em demandas relacionadas a documentos, trabalho, moradia e acesso a direitos.

No centro de São Paulo, o padre cita famílias congolesas que vivem em ocupações e imóveis subdivididos, onde várias pessoas acabam dividindo espaços muito pequenos. “Muitas famílias de cinco, seis pessoas vivem num quartinho, onde é cozinha, onde é banheiro, onde tudo é sala. Aí sufoca.”

Diante da falta de espaço dentro de casa, a rua passa a funcionar como extensão da moradia. Padre Assis conta que vê crianças jogando bola, famílias fazendo churrasco aos fins de semana, ouvindo música e se reunindo para conversar e manter referências do país de origem. “A rua acabou sendo uma extensão da moradia. É ali que tem espaço, é ali que circula o ar”, diz. Para ele, ocupar esse espaço também vira uma forma de preservar práticas culturais: “A única forma de sobreviver, manter o pouco que eles ainda têm e guardar com carinho, é ocupar a calçada”.

A relação entre casa, rua e pertencimento também aparece na análise de Henrique Trindade, coordenador do Educativo e de Formação do Museu da Imigração. Para ele, a experiência da moradia se estende para além das paredes da casa. Rua, praça, escola, biblioteca, parque e centro cultural também ajudam a criança a construir referências sobre o lugar onde vive. “O pertencimento também se constrói pela possibilidade de circular, conhecer, ocupar e criar relações naquele espaço”, pontua.

Trindade ressalta, no entanto, que não se deve associar automaticamente migração e precariedade habitacional, já que as famílias imigrantes têm origens, condições e trajetórias diversas. Quando a vulnerabilidade existe, seus efeitos podem aparecer em situações bastante concretas: crianças dividindo um único cômodo com várias pessoas, falta de espaço para brincar, casas quentes e mal ventiladas ou bairros sem áreas públicas consideradas seguras. “A moradia, portanto, não é só abrigo. Para uma criança, ela é também espaço de brincadeira, descoberta e convivência”. 

Os longos deslocamentos e a dificuldade para obter moradia dignas são questões que atravessam a vida dos imigrantes no Brasil. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Crianças bolivianas são maioria

Obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação), números oficiais da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, com atualização em 30 de junho de 2026, contabilizam 8.268 estudantes imigrantes matriculados na educação infantil, sendo 3.863 em creches e 4.405 na pré-escola. O número corresponde a 47,3% dos 17.475 estudantes migrantes registrados em todas as etapas de ensino presentes na base. No entanto, a base não informa a idade individual nem o endereço residencial dos estudantes. Por isso, o levantamento se refere aos matriculados nos segmentos de creche e pré-escola, e a distribuição territorial corresponde ao distrito da unidade educacional. 

A presença boliviana se destaca com 5.769 alunos registrados entre creches e pré-escolas, o equivalente a 69,8% do total — quase sete em cada dez. Em seguida aparecem Venezuela, com 616 estudantes, Paraguai, com 366, Angola, com 314, e Peru, com 179. Somados, esses cinco grupos representam 87,6% dos registros da educação infantil. A diversidade de origens, no entanto, é ampla. A planilha reúne 87 categorias diferentes no campo referente ao país, incluindo a classificação “outra nacionalidade”. Além dos grupos mais numerosos, aparecem estudantes associados a países como Haiti, Nigéria, Congo, Afeganistão, Senegal, Marrocos, Japão, Cuba e Colômbia.

Os dados também ajudam a observar como essa presença se distribui pela rede municipal. Considerando o distrito onde está localizada a escola, e não necessariamente onde a criança mora, Cangaíba, na zona leste, reúne o maior número de estudantes imigrantes em creches e pré-escolas, com 686, seguido por Vila Maria (614), Vila Medeiros (383), Belém (347), Penha (307) e Brás (277). Tremembé (253), Bom Retiro (241), Vila Guilherme (218) e Pari (209) completam os dez primeiros.

Com a mira nos dados, padre Assis cita um dos episódios que presenciou, em julho do ano passado, em uma ocupação de famílias haitianas na Avenida do Estado, onde a quantidade de crianças chamou sua atenção. Enquanto os adultos se organizavam para dividir e estruturar os espaços da ocupação, meninos e meninas tentavam encontrar lugar para brincar em meio à instalação ainda improvisada. Segundo ele, em ocupações mais recentes, grupos chegam a se organizar para cuidar e brincar com as crianças enquanto os adultos resolvem as questões práticas da moradia. 

Ivaldino de Assis Tavares é uma das referências no acolhimento de famílias imigrantes em São Paulo. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

Deslocamentos forçados

O problema se agrava quando a moradia é instável, situação recorrente na comunidade imigrante. Assis lembra que reintegrações de posse e mudanças forçadas podem romper relações construídas com escola, unidade de saúde, vizinhança e território. “A criança já tem um vínculo no território, frequenta a escola do bairro, vai na UBS, tem vizinhança”, exemplifica. 

Ele cita famílias congolesas que, após serem retiradas de uma ocupação na região da República, foram deslocadas para outras partes da cidade, deixando crianças temporariamente sem escola e desarticulando redes construídas no bairro. “Não é só abrir a fronteira e dizer que acolhe. É na integração mesmo que está o calcanhar de Aquiles”, resume. Essa integração, na visão de Assis, passa por moradia, escola, compreensão das diferenças culturais e acesso efetivo aos serviços públicos.

Duas famílias ouvidas pela reportagem citaram deslocamentos forçados. “A gente estava com quase tudo organizado, mas morávamos perto de um córrego. No primeiro ano que estava aqui, choveu, tudo transbordou e a gente teve de sair”, lembrou uma mãe boliviana, em entrevista realizada no Brás, em São Paulo.

Sem condições de pagar aluguel, outra mãe, também boliviana, não esquece da “humilhação” em ter de procurar ajuda em outro espaço após o local onde ela vivia ter sido despejado em meados de 2021, período em que o Brasil enfrentava a pandemia de Covid-19. “A gente teve de sair mesmo não tendo para onde ir”. Em junho de 2021, segundo dados divulgados pela Campanha Despejo Zero, no Brasil, pelo menos 14.300 famílias tinham sido despejadas desde março de 2020 até aquela data. No período, quase 85 mil famílias estavam ameaçadas. 

Ricardo Corrêa, ator, dramaturgo e idealizador de ANYWHERE, espetáculo da Cia Artera de Teatro construído a partir de relatos reais de refugiados e imigrantes LGBTQIAPN+, investigou experiências de perseguição, fuga, sobrevivência e reconstrução de vínculos. Na pesquisa que deu origem à peça, a moradia apareceu como algo que ia além de encontrar um teto. “Mais do que simplesmente encontrar um lugar para morar, havia a dificuldade de encontrar um espaço onde fosse possível se sentir seguro, acolhido e reconhecido”, afirma. 

Corrêa também relaciona essa instabilidade ao acesso à cultura. Segundo ele, quando as prioridades passam por conseguir onde dormir, trabalho, documentos, saúde e segurança, “o acesso à cultura e ao lazer tende a ficar em segundo plano”. Ao mesmo tempo, vê na própria cultura uma possibilidade de reconstrução de vínculos: durante a pesquisa e a criação de ANYWHERE, o teatro aproximou pessoas refugiadas e imigrantes e criou espaços de encontro, troca e reconhecimento. “A moradia deixa de ser apenas um teto. Ela passa a ser também a possibilidade de reconstruir uma vida e, de alguma maneira, encontrar um lugar para existir e pertencer”.

O espetáculo ANYWHERE aborda a questão habitacional a partir da linguagem teatral. Foto: Divulgação

Outras regiões, os mesmos problemas

Em uma das etapas da apuração, a reportagem foi à região central de São Paulo e percorreu os arredores da Prefeitura em busca de relatos, histórias e entrevistas com famílias imigrantes que vivem em ocupações por moradia. Ao longo do trajeto, o Nonada repetiu dezenas de vezes a mesma pergunta a moradores e pessoas ligadas a esses espaços: “Aqui vivem famílias imigrantes com crianças?”. Na maior parte das abordagens, a resposta foi de que sim, embora nem sempre houvesse disposição para uma conversa mais longa ou para detalhar quem eram essas famílias. Em alguns casos, pessoas imigrantes não apenas viviam nas ocupações, como também exerciam funções de liderança. 

Os dados confirmam que a região central também concentra situações de moradia vulnerável.  Nem sempre morar em bairros com maior estrutura viária, de saúde e cultural, quer dizer melhor qualidade de vida ou acesso pleno a direitos. O Censo de Cortiços e Assemelhados da Região Central de São Paulo, publicado pela Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) em fevereiro de 2024, ajuda a dimensionar a presença de imigrantes em situações de vulnerabilidade habitacional. O levantamento identificou 1.084 cortiços no perímetro pesquisado e estimou cerca de 18 mil moradores, com média de 16,61 pessoas por imóvel.

Na etapa de amostra, feita em 128 cortiços, 15,1% dos moradores eram imigrantes e 22,1% tinham menos de 18 anos. O estudo, porém, não cruza as duas informações e, por isso, não permite saber quantas crianças e adolescentes eram imigrantes nem quantos tinham de 0 a 6 anos. Os dados também revelam um cenário de baixa renda e muitas pessoas em espaços pequenos. Entre as famílias pesquisadas, 51,1% viviam com até um salário mínimo por mês; o aluguel médio era de R$ 750, e havia, em média, 1,98 morador por quarto.

Problemas estruturais aparecem em parte dessas moradias. Moradores relataram falta constante de água em 12% dos cortiços, infiltração em 11%, infestação de insetos em 11%, falta de circulação de ar em 5% e enchentes na rua em dias de chuva em 5%. Em observações feitas pelos pesquisadores, 51% dos imóveis avaliados apresentavam iluminação aparentemente insuficiente, enquanto 43% tinham sinais de inadequação na rede elétrica interna.

Com mais de 20 anos dedicados à liderança do movimento de moradia no país, Benedito Roberto Barbosa, mais conhecido como Dito, diz que os efeitos das mudanças climáticas aumentam a gravidade dos números, já que as calamidades atingem com mais força quem vive em condições habitacionais precárias, especialmente crianças e idosos. Ele dá um exemplo: durante ondas de calor, casas mais baixas e construídas com materiais como madeira, amianto ou fibrocimento aumentam a temperatura. “Isso gera muito mais calor nas moradias e tem forte impacto sobre os menores”, explica. Ele também cita irritação, insônia e problemas de saúde entre as consequências. “A situação atinge as moradias mais precárias, nos morros ou na beira dos rios”. 

Cultura dentro de casa

Foi a partir da destruição provocada pelo terremoto que atingiu o Haiti, em 2010, que Ronal José, 52, começou a procurar uma oportunidade fora do país. Quatro anos depois, chegou ao Brasil. Em São Paulo, passou os primeiros meses dividindo a moradia com amigos, até perceber que os preços das regiões mais centrais tornavam difícil encontrar uma casa adequada para a família. A saída foi seguir para Guaianases, no extremo leste, onde encontrou aluguel mais acessível e vive desde então.

A mudança significou também ganhar espaço. Ronal compara o valor de casas de três ou quatro cômodos em Guaianases ao de imóveis bem menores no centro. Para ele, essa diferença pesa especialmente quando há crianças. “Criança precisa de um espaço adequado, que tenha um quintalzinho”, afirma. Hoje, vive em uma casa com quintal e garagem, onde a filha mais nova, de 8 anos, tem mais espaço para brincar e se movimentar. “Numa casa precisa de mais espaço”, resume.

Ter mais espaço, porém, cobra outro preço. Ronal trabalha no centro e calcula que os deslocamentos podem consumir três ou quatro horas de um dia que inclui ainda oito ou nove horas de trabalho. O tempo gasto no transporte reduz aquele disponível para a família, o descanso e outras atividades. Ao comparar essa rotina com a ideia de qualidade de vida, resume: “É sobrevivência”.

A distância, para ele, se reflete também no acesso à cultura. Ronal conta que a família gosta de visitar museus e parques, mas esses passeios não fazem parte de todos os fins de semana. Para ele, morar longe das regiões onde há maior concentração de equipamentos culturais torna o acesso mais difícil. Questionado se a presença de museus e outros espaços culturais mais próximos facilitaria a rotina, responde: “Muito, muito, muito”. E ressalta que o benefício não seria exclusivo das famílias imigrantes, mas de toda a população do bairro.

Também morador de Guaianases, o professor de inglês Everton Gabriel do Nascimento, 45, apresenta outra dimensão da relação entre território e cultura. Brasileiro e casado com uma imigrante nigeriana, ele é pai de Chibuzor, de 5, e Chimunya, de 2, ambos nascidos no Brasil. Na rotina da família, um dos principais desafios é conciliar o trabalho dos adultos com os trajetos das crianças para a creche e a escola.

Se museus e outros equipamentos formais nem sempre estão próximos, Everton chama atenção para espaços comunitários que também sustentam a vida cultural na região. Ele cita uma igreja frequentada por nigerianos no bairro como “um ponto de encontro, não apenas das crianças, mas de toda a comunidade”. Segundo o professor, a preservação de referências culturais também acontece no cotidiano das famílias, por meio da língua, da religião e da comida. “Você percebe que muitas dessas crianças falam a língua dos pais. Percebe-se que há uma manutenção da cultura”, relata. Na casa de Everton, a transmissão ganha formas concretas. A mãe ensina palavras em igbo aos filhos, prepara pratos típicos, assiste com eles a programas da Nigéria e mantém a convivência com outras famílias igbo.

*Para ajudar a compor visualmente esta matéria, contamos com imagens do trabalho de Paulo Chavonga. Nascido em 1997, em Benguela, Angola, o artista visual, poeta e cineasta e vive em São Paulo desde 2017. Iniciou a trajetória artística em grupos de estudos comunitários e integrou exposições em Angola, Portugal e Moçambique. No Brasil, participou da Bienal Naïfs, em 2020, realizou residência no Museu da Imigração, em 2021, e foi selecionado para o Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, em 2022. Em 2023, apresentou no Museu da Imigração a individual Onde o arco-íris se esconde, que reuniu pinturas, vídeos, poemas e uma instalação para abordar experiências de imigrantes africanos no Brasil, além de temas como racismo, xenofobia, memória e pertencimento.

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