Na cultura rato, jovens periféricos de Recife e região transformam insulto em identidade

Herdeiros dos "galerosos", jovens da capital pernambucana e região metropolitana fazem do esgoto um palco, e da música uma nova linguagem
Jovens dentro do canal da Ilha das Cobras (Foto: Danilo Silva/arquivo pessoal)

Recife (PE) — Rato, “mamífero roedor, da família dos murídeos, grandemente danoso às despensas e celeiros, de origem asiática, transmissor de leptospirose e peste bubônica”. Seu corpo pode medir de 6 a 40 cm, tem focinho pontudo, orelhas grandes com pelos ralos, corpo arredondado e cauda quase nua e longa. Podem ter coloração marrom, preto, cinza, bege e albino. 

Já os ratos que aparecem nesta reportagem realizada pelo Observatório da Vida Agreste e pelo Nonada Jornalismo medem entre 1m 70cm e 1m 90cm, são bípedes, vestem Cyclone, Seaway e Kenner. Todos eles são da cor preta, de famílias como Silva e Ferreira, de origem das periferias da região metropolitana de Recife (PE) e só são danosos quando insistem em sobreviver, driblando as tentativas de extinção com música, cortes de cabelo, danças, vocabulário próprio e expertise. 

“Qui, qui, qui, qui, qui”. Essa onomatopeia produzida pelo roedor é marca registrada de uma cultura cada vez mais presente nos bairros descentralizados da capital pernambucana. O termo ‘rato’ é usado para se referir a jovens pobres de periferias da região metropolitana do Recife, em sua maioria negros, que carregam na fala, no jeito de andar, na vestimenta, nos assessórios e no corte de cabelo signos que o associam a criminalidade. 

Para ilustrar: em maio deste ano, um policial do 25º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco, ao abordar um jovem negro que usava boné e corrente dourada grossa no pescoço no bairro de Cavaleiro, periferia de Jaboatão dos Guararapes, se surpreendeu ao notar um roedor no pesçoco do jovem. “O cara vai abordar um rato e é um rato com outro rato”, disse rindo o policial que filmou a abordagem e publicou o vídeo numa rede social. 

“Somos considerados ratos pelo nosso estilo maloqueiro, forma que a gente dança e o jeito de se expressar”, explica Danilo Silva, 23 anos, conhecido como Mestre Splinter, o rato mutante sensei e pai adotivo das tartarugas ninja. “Nosso dialeto, diferentes cortes de cabelo, usando sempre correntes e brincos de prata”, continua ele. Ou seja, o apelido vem do conjunto de características que marcam o indivíduo: o visual, a dança, a linguagem, o comportamento, o bairro de origem, a classe social e a cor da pele. Como quase todos os apelidos, esse também foi dado por indivíduos que observavam de fora, do alto de uma janela, por exemplo, de um prédio de um bairro de alta renda. 

“Quando nos divertimos, as coisas mudaram” 

A Ilha das Cobras é uma comunidade localizada entre os arranha-céus de Casa Forte, bairro tradicional da elite social do Recife, sobre — e às margens — do que há um século era o riacho Parnamirim, “lugar de travessias bucólicas, banhos de água limpa e apanha de pequenos peixes para aquários”, de acordo com artigo de Ricardo Braga, professor da Universidade Federal de Pernambuco. O riacho foi canalizado e hoje seu percurso leva esgoto dos bairros da zona norte da cidade para o rio Capibaribe. 

Foi dentro desse canal que Danilo Silva montou o Ratos Bar, evento esporádico que reúne jovens da comunidade e cantores de brega e brega-funk. No vídeo que viralizou, os jovens ouvem a música Flores Que Plantei da Banda Nova Reação, dançam, cantam e sofrem pela pessoa amada, enquanto o líquido cinza de odor forte corre na altura dos tornozelos deles. 

 “Eu nasci ali em Casa Forte. Uma ilha no meio dos prédios de rico. E a gente tava acostumado só a ter casa caindo, o pessoal da comunidade perdendo tudo. Desde criança eu via minha mãe, minha avó, o pessoal da comunidade lutando para eles [o poder público] poderem olhar para a gente, porque ali é um lugar que nem no mapa tá, pô”, diz Danilo. A Ilha das Cobras não está no mapa, mas depois da viralização dos vídeos nas redes sociais, a prefeitura do Recife reformou o canal. 

O asco do esgoto é uma categoria deslocada para eles. “[…] a turma pergunta: tu não tem medo de entrar no canal, não?”, diz Danilo, “mas a gente tava acostumado a viver isso a vida toda”, completa ele, se referindo à recorrência de estar com os pés submersos na água da chuva que alagava e invadia sua casa ano após ano, de maio a julho, período de fortes chuvas no estado. 

Para quem se acostumou com as enchentes invadindo a própria casa, o medo do esgoto dá lugar ao incômodo causado pelo abandono do poder público. “Quando a gente veio com a ideia de entrar no canal, foi para impactar mesmo, para viralizar. E quando a gente experimentou, foi uma parada muito impactante”, diz o mestre splinter. O impacto não se localiza apenas na cena inédita – jovens dançando dentro de um canal de esgoto – se dá na apropriação do insulto como identidade. 

A expertise é a de quem aprendeu que pedir muitas vezes não funciona. “Se a gente chegasse ali no canal e dissesse: ‘Ó, muda isso aqui’, eu acho que não ia mudar. Quando nós começamos a nos divertir na realidade que eles deixaram para nós, as coisas mudaram”, diz Danilo. “Um lugar que já tava esquecido, abandonado, através do nosso vídeo, ele [o poder público] começou a olhar para ali.” 

Identidade como criação

Mas reduzir a cultura rato a uma resposta à precariedade seria perder o que ela tem de mais inventivo. O que está em jogo é a construção de uma identidade periférica que não se define apenas pela falta, mas pela criação. O brega funk é a linguagem usada. Danilo é explícito: “O brega funk que tá no nosso dia a dia. A gente escuta muito, a gente vem muito também para agregar o brega funk. Quando eu comecei a bar dos ratos, eu sempre procurava os MC’s que é das antigas, que tem tempo de história, que quando a gente era criança, a gente estudava muito eles. Virou identidade.” A música é trilha sonora e o vocabulário pelo qual o pertencimento se faz. 

O doutorando em Estéticas e Culturas da Imagem e do Som na Universidade Federal de Pernambuco GG Albuquerque situa a cultura rato nessa linhagem. “Isso é de uma forma uma variante de um tipo de arquétipo ou de um personagem, um jeito de ser da periferia de Pernambuco, muito ligada ao brega funk. Antes tinha essa identidade aparecendo com outro nome, como o “bactéria”, depois do “galeroso”. Então é algo relativamente antigo, um tipo de sujeito que você vê há uns 10 anos, que agora veio ganhando mais visibilidade porque viralizou.” A cultura rato está diretamente ligada a uma subjetividade periférica recifense. Ele dá novo nome a algo que já existia, ao jovem que transforma o estigma, alvo de recorrentes abordagens policiais, em estilo, que responde à violência com ironia. 

Sabrina Ayalla (Foto: arquivo pessoal)

A música “Gera Bactéria”, de Shevchenko e Elloco, tocou em um dos primeiros vídeos que viralizou. O nome não é acaso, “bactéria”, como rato, é o que contamina, o que se multiplica, o que a higiene social quer eliminar. A diferença é que o rato veio depois, com mais engajamento, mais câmera, mais intenção de viralizar. GG não trata essa mudança como perda: “acho que tem a ver justamente com uma mistura de orgulho e ironia, que vai ao mesmo tempo orgulhar-se do seu território, isto é, um território das periferias, que sofre com violência, com a desigualdade, particularmente com uma falta de saneamento básico, expressa nesse lugar. Ao mesmo tempo que ironiza o descaso do poder público.” 

O que o rato faz é criar uma possibilidade de pertencimento que não passa pela vergonha. Sabrina Ayalla, 33 anos, do bairro do Ibura, a “mãe ratona”, que viralizou como “rata camponesa, às vezes recatada, às vezes maloqueira”, diz isso de outro jeito. “O significado real de ser rato não está no Cyclone, não está no Seaway, não está em um conteúdo de rato. Está aqui na cabeça. Rato, para mim, é pessoas que vêm de baixo, é pessoas que passam fome, sede, que já passaram por situações no mundo do crime. Enfim, pessoas ligeiras.” A definição não é acadêmica, é vivida. E é justamente por isso que ela recusa a redução do movimento a um estilo. O estilo é a linguagem, não é a essência. A essência é a experiência compartilhada de quem aprendeu a sobreviver onde a maioria não aguentaria. 

Para Alex Ferreira, 22 anos, nascido e criado no bairro do Jordão, zona sul do Recife, “[eu] nem sabia que tinha estilo de rato. Todos meus amigos se vestem assim”, confessa ele. “Até meu coroa”, fazendo referência ao pai. A fala constata que a identidade ratosa não é uma fantasia, é uma herança passada pelo comportamento: jeito de andar, cumprimentar, ocupar uma calçada e falar. 

Alex, de vermelho, junto de outros jovens. (Foto: Arquivo pessoal)

O vocabulário próprio também faz parte da cultura rato: “É peso não, tonelada” (impacto forte); “a melhor skin do rato” (melhor roupa, acessório); “eu gosto de pizza, não gosto de rato não” (pizza é um cara playboy); “sem mostrar a face metálica” (flertar com alguém no sigilo); “queijo coalho” (pessoa com quem se está flertando); “apois, faz o M” (fazer uma foto estilosa); “rata peso” (menina estilosa, usando acessórios, roupas da Cyclone, corte de cabelo diferente e com atitude forte); “clarinho” (afirmação, concordar); “rata camponesa” (das características da rata peso, não tem a atitude forte); “tá gerando” (o rolê tá bom, animado, divertido); “livrar minhas cara” (ajudar, ser ajudado); “crocante” (gostoso, bom); “ratão” (o masculino de rata peso). Esses são alguns dos elementos que compõem a comunicação, não apenas dos ratos, mas de moradores de comunidades de Recife. 

A comunidade é um personagem central do movimento. O baile do Inferninho, no Ibura, zona Sul da cidade, não acontece há mais de um ano. “Foi até um pastor que fez essa lei”, diz Sabrina, se referindo à proibição proposta pelo deputado estadual Júnior Tércio (PP) que classificou como “clandestinos” e “irregulares” os bailes. “Mas o baile do Ibura é um lazer da galera que realmente vive na comunidade. Como uma pessoa que não vive o que a gente vive dentro de uma favela, que tem a sua vida padrão, quer tirar uma coisa que é nossa?” A interdição do baile é, para ela, a face mais explícita de um projeto de silenciamento que jovens desse bairro enfrentam. 

“Muita gente quer a mídia do Bar do Rato, mas ninguém quer segurar a carga do preconceito”, diz Danilo. O mesmo vídeo que viraliza é o que expõe os jovens a comentários que os associam a sujeira, crime e vagabundagem. “Eu tenho medo de dizer que eu sou de Pernambuco e o povo achar que eu sou assim”, é o comentário que Sabrina diz ver com mais frequência nos vídeos que ela publica. “A galera tem que entender que o brega funk, esse negócio de rato, é realmente coisa de Recife. É uma cultura periférica. As pessoas costumam querer impor a vida delas, uma vida muito padrão, com a vida da gente. Só que tem que entender que pessoas são diferentes.” 

Ironia, deboche e prontidão

Danilo Silva, selfie dele mesmo (Foto: arquivo pessoal)

O sonho de uma vida melhor é compartilhado pelos três. “A gente tá lutando para mudar nossa vida, para dar um futuro para nossa família”, diz Danilo. “Em vez da gente tá na rua sem fazer nada, a gente tá ali lutando para mudar nossa realidade”, diz Sabrina. “A gente é rato, mas a gente tem sonho”, diz Alex que dança uma mistura de capoeira, acrobacias e chutes no ar em clubes do bairro do Jordão, zona sul de Recife, ao som de funk dos anos 90, automotivo e brega-funk. 

“Definitivamente, a cultura do rato não vai resolver a fome, nem o saneamento básico dessa cidade. Ela também não mira isso. A cultura e a arte não miram uma solução política da mesma ordem de uma política partidária, uma política institucional.” O lugar da cultura, para GG, é outro: “o lugar desse tipo de representação é também de acessibilidade para essas pessoas, e da construção de identidade, e do compartilhamento de uma estrutura de sentimentos, de compartilhamento de sensibilidade, um reconhecimento do seu próprio território para além dos estigmas de violência.”

E é justamente aí que a cultura rato encontra seu sentido mais duradouro. GG lembra que a periferia sempre foi tratada pelos programas policiais como território de violência. “O discurso hegemônico são os programas policiais do meio-dia que mostram esses lugares com alta carga de violência” – e que o movimento oferece outra imagem: “falar com os que estão no seu próprio território”, para além do “tiro pá, pá, pá”. Não se trata de negar a violência, mas de recusar que ela seja a única lente. O pertencimento que o rato constrói é, antes de tudo, a possibilidade de se reconhecer e ser reconhecido como algo além da falta, da precariedade e do medo.

“A cultura das periferias é marcada pela constante mudança. O brega-funk de hoje, ele não é o mesmo de uns seis meses ou um ano atrás. A gente muda constantemente, somos marcados pela mudança muito constante e veloz.” A cultura rato é uma fase, mas uma fase que não vai desaparecer sem deixar marca. “A persistência, o seu modo, o seu sentido, talvez, essa subjetividade de um jovem negro periférico, permanecerão, só que eles vão se transformar no seu formato. Essa ironia, esse deboche e a prontidão vai permanecer por um outro personagem mudando, compartilhado.”

O que permanece, então, não é o corte de cabelo, nem a Cyclone, nem o Ratos Bar, é a disposição de existir sem pedir licença. A Ilha das Cobras continua entre os prédios de Casa Forte. O esgoto continua correndo. Mas agora, quando a água sobe, sobe também a certeza de que aqueles jovens não vão desaparecer do mapa. Eles já aprenderam a nadar nesse esgoto, se tornaram visíveis e, uma vez visíveis, não há quem os devolva ao silêncio. 

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