Série: Histórias sobre a cultura alimentar no Brasil

Habitar o ‘problema’ e construir futuros possíveis diante do eminente colapso climático parecem ser possibilidades para viver hoje.  Apostamos, nesse trabalho, como virada de lógica necessária para que isso seja possível, no ato de prestar atenção. É a arte do cuidado formulada por Isabelle Stangers, a arte de notar formulada por Tsing e o ato de “atentividade” de Van Dooren Kirskey e La Munster, pensadores da crise contemporânea.

Capaz de retirar o humano do centro, a atenção tem como premissa inserir o foco no problema no sistema que exclui e degrada. Autores vão, para isso, chamar de Capitaloceno ou Plantantionceno – contraposição ao saturado Antropoceno, reforçador da falsa dicotomia imposta pela colonialidade entre natureza e humanidade.

Independentemente das nomeações de período, integram o ‘habitar colonial’ como colocado por Malcom Ferdinand – e que engole e degrada seres vivos, humanos e não humanos, em grandes plantações de monocultura. Destroem o diverso. 

Prestar atenção, postura Anna Tsing, é admitir que nós, humanos, não somos centrais no mundo.   E a atenção também é prática – é a aposta no “pensar com os pés no chão” colocado por Donna Haraway. Prática essa que envolve relações.

São palavras da autora: é a partir do exercício da atenção que podemos passar a considerações as relações que são constitutivas da possibilidade de vida na terra, vidas que são diferentes na nossa. Aqui os dois conceitos, atenção e relacionalidade, são entendidos como inteiramente implicados um com o outro.

O uso e a ocupação da terra no Brasil construíram e constroem, cotidianamente, o país como lugar de desigualdades sociais, econômicas, de raça e gênero produzidas pelo habitar colonial.  O território brasileiro é demarcado pela priorização da propriedade privada da terra em favor das elites rurais e que exclui e destrói saberes, viveres e vidas humanas e não humanas – processo que contribuí significativamente para a crise contemporânea enfrentada. 

São muitos e diversos os humanos que, em segregação e subjugação da lógica do habitar colonial, resistem aos anos e séculos na prática desse exercício.  Pensar com os pés no chão não nos livra do “problema”, mas nos faz seguir com ele para construir respostas mais comprometidas com futuros possíveis – talvez o Futuro Ancestral advogado por Krenak. Aqui buscamos histórias de Norte a Sul de quem – humanos e não humanos – se aproximam da terra e dos “húmus” de ‘quem coloca os pés no chão’.