Instalada desde o dia 26 de outubro na Praça da Alfândega de Porto Alegre, a Feira do Livro é motivo de orgulho para os gaúchos e sinal claro da existência de leitores – e muitos – nesta cidade. Para atender aos anseios e desejo dessa pequena multidão de caçadores de livros, o Nonada fez um apanhado do que rola nas editoras e traz para você a dica de dez obras que são verdadeiras preciosidades. Entre os belos lançamentos e as importantes reedições, a diversidade de títulos, estilos e nacionalidades sugeridos têm o intuito de agradar a qualquer público leitor. Confira:

 

 Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Após décadas de disputa judicial entre os sucessores da escritora, finalmente a obra de Cecília Meireles foi liberada pelo espólio para reedição e retorna, agora, ao público brasileiro. O Romanceiro da Inconfidência é composto e escrito em forma de poesia em prosa, segue um tom solene e apaixonante para nos contar um dos trechos mais importantes da História do Brasil Colonial, a Inconfidência Mineira. Discorre, em essência, sobre a preparação e julgamento dos contenciosos. O prazer de ler essa obra de Cecília Meireles é o deleite de compreender, ao final, o sentido da palavra liberdade. Para quem quiser economizar, o livro é facilmente encontrado também em edições mais antigas.

 

 1Q84, de Haruki Murakami. Assumidamente inspirado na obra-prima de George Orwell, o título (com a letra Q no meio mesmo) se situa no ano de 1984. Entrelaçando as histórias e os dramas de Aomame e Tengo, além das estranhas distorções que vão se infiltrando em suas vidas, com um ritmo de suspense e mundos paralelos, assassinatos e estranhas seitas, o autor constrói uma obra que fala de amor, de abandono e dos mistérios que desafiam nossos limites sobre o que é o real. O livro faz jus ao gênio de Murakami, autor japonês aclamado mundialmente. A edição faz parte do trabalho da Alfaguara, editora instalada no Brasil há alguns anos e que tem trazido para os catálogos brasileiros nomes da literatura mundial inéditos por aqui.

 

O povoado, de William Faulkner. É o primeiro livro da trilogia da família Snopes, e junto com A cidade e A mansão narra a saga dos membros dessa família desde a chegada ao mítico condado de Yoknapatawpha, Mississippi (lugar mítico criado pelo escritor para ambientar parte de seus romances) até a decadência completa. Escritos entre os anos de 1940 e 1959, esses livros mostram o autor norteamericano na sua mais perfeita forma (em 1949, ele receberia o Prêmio Nobel de Literatura), naquele momento já consagrado pelas obras que fundaram seu estilo de literatura: O som e a fúria, Enquanto agonizo, Luz de agosto, Absalão Abasalão e Palmeira Selvagem. Neste autor, o fluxo de consciência da narrativa está a serviço da descrição dos eventos que envolve, por vezes, estados de loucura e devaneios do indivíduo, situações cotidianas e absurdas que levam esse mesmo indivíduo a atos insanos e impulsivos e, no derradeiro, à sua própria decadência como ser humano – ou entidade familiar – todas estas características centrais na obra de William Faulkner.

 

Paralelo 42, de John dos Passos. Apesar do sobrenome de origem portuguesa, John dos Passos é autor nascido em Chicago, Estados Unidos, que foi a fundo ao pensar o seu país. Paralelo 42 compõe a parte de uma trilogia batizada de USA. Considerado uma das 100 obras mais importantes do século XX pela Revista Bravo!, Paralelo 42 alinha a vida de cinco personagens que buscam seu lugar ao sol para compor um painel social e político dos Estados Unidos no início daquele século. O livro foi escrito em 1930 e marca a força narrativa de uma geração, uma vez que Dos Passos foi contemporâneo de grandes nomes da literatura americana, tais como os escritores Ernest Hemingway, T.S. Elliot e Scott Fitzgerald.

 

Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem. A cultura judaica marca presença nesta neste clássico de Scholem somente há pouco trazido para uma edição brasileira. Como escrevera Moacyr Scliar na oportunidade do lançamento do livro, a literatura de Scholem Aleikhem apanha o bom humor e autocrítica tão marcantes e presentes no quotidiano a cultura judaica, trazendo para o formato de livro-romance o relato de cunho popular e de sabedoria anciã. O livro nasceu em forma de folhetim nos Estados Unidos entre os anos de 1899 e 1905 e tem como característica básica recolher a experiência oral de uma cultura viva e dinâmica (a judaica), transmitindo estas matrizes ao leitor quase à maneira de uma conversa informal, como um monólogo dramático e carregado de referências ao Talmud (livro religioso máximo do povo judeu). E por ser um relato tão próximo às peculiaridades daquela forma cultural, o livro acabou alcançando um enorme sucesso ao redor do mundo entre o povo judeu, e isto desde a data de seu lançamento.

 

Livro, de José Luís Peixoto. Nas escolhas da Feira do Livro, algo que não pode faltar em sua sacola é algum livro escrito por autores portugueses. Essa máxima serve para nos alertar não apenas para a existência dessas obras – José Saramago e António Lobo Antunes anos atrás já nos permitiram enxergar isso – mas pela qualidade de autores como Inês Pedrosa, João Tordo, Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto. É deste último Livro, obra que narra a extraordinária saga de uma família portuguesa em terras francesas. Em Livro, José Peixoto expõe a poderosa magnitude do sonho e da crueza, por vezes até irônicas, com que a realidade nos brinda e surpreende. Dono de um estilo cativante e sentimental, o autor escreveu, entre outros, os envolventes Morreste-me (inédito no Brasil e um relato direto ao pai falecido) e Cemitério de pianos (um excelente exercício de múltiplos pontos de vista narrativos para contar a história de uma família).

 

A colheita dos dias, de Valesca de Assis. Nessa pequena novela com título de matizes poéticas – a primeira característica dos livros de Valesca são os belos títulos, como se viu em Harmonia das esferas e O livro das generosidades – a autora gaúcha narra de forma sensível a saga de Letícia, neta de colonos alemães que se vê confrontada entre os limites da família e a necessidade de ganhar o mundo. No relato, somos enviados ao passado dos primeiros colonizadores e alcançamos os dias atuais, quando Letícia revê a história de sua família, os contrastes culturais dentro da cultura riograndense, bem como as transformações no tempo e espaço. Relançado e revisto agora, o livro foi premiado pela respeitada Associação Paulista de Críticos de Arte em 2000, época da primeira edição, e traz a marca da escritora: aprofundamento psicológico do relato memorialístico e sensível de personagens, por vezes numa voz lírica, outras vezes pela voz forte de mulheres decididas. Como Letícia, mãe e filha, alguém que tem algo a dizer ao mundo. Mesmo que seja um mundo

 

Vinte anos e um dia, de Jorge Semprún. Pouco conhecido do público (além de Vinte anos… ele tem publicado no Brasil pela Cia das Letra o romance A escrita ou a vida), Semprún é dono de um estilo envolvente. A história contada se passa em uma fazenda da província espanhola de Toledo, no qual alguns convidados se preparam para o ritual que, todo ano, repete a cena do assassinato do irmão caçula, exatos vinte anos atrás, quando se iniciava a guerra civil espanhola. Entre os convidados para a cerimônia há um historiador americano e um delegado de polícia que anda no rastro de um comunista chamado Federico Sánchez – não por acaso, a identidade com que o comunista Jorge Semprún vivia clandestinamente na Espanha dos anos 1950, num dos muitos lances autobiográficos do livro. Vale a pena conhecer esse espanhol e que tanto incomodou outro gigante das letras espanholas chamado José Camilo Cela.

 

Cosmópolis, de Don DeLillo. Recentemente, esta obra do escritor americano Don DeLillo foi adaptada para o cinema e sofreu serveras críticas. Entre elas, estava principalmente a de que o filme optara por uma interpretação fria, bem ao gosto de um ator limitado como o vampiro da série Crepúsculo. O filme de David Cronenberg, minimalista em seu ritmo, acabou por empobrecer a obra de DeLillo. Encontrar o livro e buscar neles as motivações de Eric Michael Packer, milionário que percorre as ruas convulsivas de Nova York em sua limusine, de onde controla os negócios, recebe assessores e mantém encontros amorosos. Enquanto isso, lá fora, o sistema financeiro global é arrastado para uma crise sem precedentes. Uma novela em forma de fábula – uma fábula para os tempos pós-modernos, bem ao estilo do autor do perturbador e futurista Ruído branco. Esqueça o filme e corra à próxima banca da Fe ira.

 

O mau vidraceiro, de Nuno Ramos. O escritor paulistano já era um consagrado artista plástico quando adentrou às portas da literatura e nos trouxe ao mundo obras pertinentes e títulos únicos e poéticos tais como Cujo, Ó (premiado com o Brasil Telecom) e Junco. Em O mau vidraceiro reencontramos o prosador que nos escreve seus textos como quem pinta uma tela ou monta uma instalação. São textos (inclassificáveis) que tanto podem ser poemas de um prosador como podem ser prosa versada de um poeta – alguns chamam de contos – prefiro “narrativas”. E mais: Nuno Ramos é um criador de atmosferas, de tipos literários, de descrições virtuais e de imagens que falam para nós através diálogos, muitas vezes sem diálogos – só imagens. O autor nos entrega sua contribuição à literatura brasileira contemporânea da mesma forma que o artista plástico, porque nos mostra, pela palavra, como a nossa capacidade de olhar e não ver com nitidez pode ser suprida (será que pode mesmo?) por um texto que se proponha a procurar os vestígios ou indícios deixados pela realidade. Os contos (ou narrativas) do escritor vidraceiro são inquietantes e nos deixarão a pensar palavra e matéria como coisas únicas. Tal como um passeio pelo cemitério, em que lápides são nomes e nomes são histórias, como já havia feito na narrativa “Velórios”, do livro Ó.

 

 Dê um bom passeio pela Feira do Livro. Curta o prazer da boa compra. Viaje na leitura dessa diversidade toda. 

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