Por Laura Wulff Schuch

Romance é thril­ler sur­real sobre a para­noia e o medo na soci­e­dade francesa (Crédito: Cosac Naify)

Poucos livros têm um título e uma capa – na edição brasileira de 2010 da Cosac Naify, com tradução de Paulo Neves – tão alinhados à proposta da narrativa quanto Coração apertado (Mon coeur à l’étroit, de 2007), da francesa Marie NDiaye (Prêmio Goncourt 2009). A opressão, a angústia e o desespero que atravessam as 272 páginas estão retratados na figura de sombra indefinida com visual de câmera de segurança e nas letras acavaladas que formam o título. O estilo duro da autora, com descrições que se atêm apenas ao necessário para a imaginação do leitor, o deixa avisado desde as primeiras páginas: não se foge do monstro escondido aqui.

A descrição em primeira pessoa, na voz da professora de escola primária Nadia, dos pequenos detalhes marcados por ódio e desprezo que começam a surgir sem motivo aparente nas relações que ela e o marido estabelecem com as outras pessoas – vizinhos, colegas, alunos e até desconhecidos na rua – cria uma atmosfera de tensão que nasce como um pequeno estranhamento e se estende em uma mania de perseguição, em que todas pessoas são inimigos e todos os lugares são armadilhas em potencial.

Nadia e Ange, como se houvessem combinado, fecham os olhos para a nova situação – a vergonha que perpassa seus valores não permite nem mesmo que conversem sobre a angústia que compartilham. Lançados de repente para fora da pequena sociedade de que sempre fizeram parte, a qual tratavam até com certo desprezo, os ex-representantes da família francesa ideal se veem marginalizados. Ao mesmo tempo em que o marido é brutal e misteriosamente ferido dentro da escola, a esposa se vê evitada e temida, como que por nojo ou pena, pelos alunos que sempre pareceram adorá-la.

Em uma espiral, a Bordeaux de Nadia vai se embaralhando a cada novo movimento, e só ela parece não entender o motivo das mudanças. Por vezes, tem-se a sensação de que a própria narradora distorce o relato, a fim de esconder a realidade que, em algum nível, enxerga. Por mais que a história deixe entrever algumas possibilidades de solução do enigma, nenhuma delas parece sólida o suficiente. Assim como o mundo da protagonista, a narrativa vai se tornando cada vez mais tensa e sufocante, com um crescimento da característica sintética do início da leitura. Longe de ser um romance baseado na ação, são as sensações que ditam o universo – e a sintaxe – de Coração apertado.

O nome da escritora de pai senegalês não deixa dúvidas sobre o tema do enredo: a complexa questão da imigração na França e, principalmente, a violência latente que permeia o país na relação entre “franceses tradicionais”e imigrantes da África. Imposível não lembrar da atmosfera de hostilidade sentida pelo casal protagonista do filme Caché, de Michael Haneke, que explora o mesmo contexto de xenofobia. Mas a narrativa de NDiaye tem outro tom: apagando os limites entre realidade e fantasia, ela extrapola a mera sensação de insegurança enfatizada pelo cineasta – aqui, há uma presença mais forte do inconsciente, de representações e, possivelmente, do universo dos sonhos. Não é apenas um emprego instrumental de recursos da psicanálise a fim de contar uma história: trata-se, enfim, de um terrível mergulho no inconsciente de um país inteiro

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