Para quem gosta de música, novembro é um mês especial. Afinal, nesta época, desde 2012 (em 2011 foi em abril), o festival El Mapa de Todos é responsável por trazer a Porto Alegre atrações internacionais que dificilmente entrariam na rota de shows do país, além de dar visibilidade a nomes da cena independente local. Cumprindo seu papel de promover a cultura latino-americana para o grande público, este ano o festival foi ampliado, tanto em datas quanto em espaços para as apresentações. Um crescimento calculado, para abranger um público ainda mais heterogêneo, mas sem perder sua característica principal: a integração.

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Bomba Estéreo, da Colômbia, promete agitar o público na noite “Caribbean Power” (Crédito: El Mapa de Todos/Divulgação)

Além do Opinião, berço do El Mapa de Todos em Porto Alegre (esta será a quinta edição do evento; a primeira ocorreu em Brasília), haverá shows no Ocidente, no Theatro São Pedro e no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mario Quintana. Na programação, destaque para a cumbia dos colombianos do Bomba Estéreo, a lenda uruguaia Daniel Viglietti, os pernambucanos do Mundo Livre S/A e a sensação goiana Boogarins (confira a programação completa no final do post). Diante dessas novidades, conversamos com o jornalista Fernando Rosa, mentor e curador do El Mapa de Todos. A seguir, os principais momentos desse papo:

Nonada – Como se deram essas mudanças no El Mapa de Todos? O festival passou de três para cinco dias, e agora será realizado em mais locais.

Fernando Rosa – O El Mapa era meio “ilhado”, acontecia na terça, quarta e quinta-feira, num único ambiente, o Opinião. Três dias na semana e um espaço, que de alguma maneira, definia um perfil de público. E isso era uma coisa que a gente queria superar. Ao mesmo tempo, esse tipo de formato inibia a gente de ampliar para outros tipos de artistas, porque você tem que adequar a relação artista/público/espaço.

Nonada – Nesta edição, há artistas um pouco diferentes desse perfil, não? Como surgiu a ideia de colocar no cast um cantor como o Luiz Marenco, por exemplo?

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Uruguaio Daniel Viglietti se apresentará no Theatro São Pedro (Crédito: El Mapa de Todos/Divulgação)

Fernando Rosa – A nossa ideia original era colocar o Marenco entre duas bandas de rock, no Opinião, pois o objetivo era levar a música do cara para um público diferente do que ele está acostumado. O Marenco adorou a ideia, estava tri a fim. Mas daí a gente achou melhor levar para o Theatro São Pedro, com o Daniel Viglietti, um artista histórico sul-americano, clássico. O Viglietti é o tipo de artista que atrai um público mais velho, os adolescentes não têm nem ideia de quem ele é. Deve ter um público acima de 40 anos, essa galera que conhece a história dele: foi preso, exilado, lutou contra a ditadura uruguaia… É simplesmente o cara que inspirou o nome do festival (A expressão “el mapa de todos” é citada na canção “Milonga de Andar Lejos”). Achamos melhor fazer uma ponte com alguém que agregasse um tipo de história mais nossa, da região do pampa, tradicional. Se bem que eu­ não vejo o Marenco como um cara de música tradicional, vejo um cara que moderniza essa linguagem. E o curioso é que a galera do rock gosta dele – os meus amigos que ouvem rock, mesmo os mais novos, acharam do caralho quando anunciamos ele: “pô, o Marenco!” (risos). Voltando ao Viglietti… O cara toca sentado, num banquinho, voz e violão, conversa muito, conta história, é um show para teatro. Não seria uma boa colocar no Opinião. Isso nos levou a ampliar os espaços.

Nonada – E se manteve a tradição de um espaço para debates…

Fernando Rosa – A ideia de fazer parceria com o Sarau Elétrico da (jornalista) Katia Suman, no Ocidente, foi dar um teor mais pop pro debate cultural, não ficar aquela coisa isolada… A gente sempre faz debates, atividades paralelas para discutir a integração cultural. Mas esses eventos acabando atingindo um público muito restrito, ficam voltados para quem está na organização do processo. Então, essa parceria permite trazer o tema latino para um palco de visibilidade mais amplo, mais pop, e num espaço clássico da cidade, que é o Ocidente. Além do debate, nesse dia vai ter um show com um artista colombiano, o Andrés Correa. Ali vai ser voz e violão, mas no Opinião ele vai tocar com banda. Mantivemos o Opinião para uma pegada mais rock, cumbia eletrônica, para o Mundo Livre. E abrimos a Casa de Cultura, que é um espaço que se abriu para um público mais juvenil, mais gurizada, com muitos eventos gratuitos.

Nonada – A propósito, no Teatro Bruno Kiefer, vai tocar o Boogarins, que está hypado, e vai ser de graça. A procura vai ser grande…

Fernando Rosa – Já tô me preparando pra isso! (risos)

Nonada – E como vai ser para entrar, vai ter distribuição de senhas ou algo parecido?

Fernando Rosa –  Não tem como ter senha. Se der senha, vai ter neguinho que vai pegar só pra ver o Boogarins. Quer garantir que tu vais ver o Boogarins? Vê todos os shows. Ali tem uma antessala grande, quem não quiser assistir a algum show, dá uma saída ali fora. Quem arriscar ir na hora do Boogarins, vai perder o show. É arriscado, pois são 300 lugares. Fora que tem outros artistas muito legais, como o Jéf, e o Beto Só, que vai prestar um tributo a compositores da geração 2000 – vai tocar Superguidis, Volver. Ele pegou seis músicas de bandas de Brasília, seis de bandas de fora, fez arranjos dele e vai promover o lançamento do disco no festival. E tem a Bestia Bebé, da Argentina, que, por incrível que pareça, também tem um bom público por aqui. A molecada ligada no Boogarins, um público que era ligado em Superguidis, mais indie, curte eles também.

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Boogarins, de Goiânia, é uma das grandes sensações do novo rock brasileiro (Crédito: El Mapa de Todos/Divulgação)

Nonada – Tem uma noite que também promete ter casa cheia: a do dia 13, com a temática “Caribbean Power”. A cumbia é um ritmo que está atingindo um bom público por aqui, e bastante jovem. E o Bomba Estéreo deve atrair muita gente.

Fernando Rosa – O Bomba Estéreo é a grande banda latina de cumbia, um dos maiores nomes da Colômbia. É a maior atração do festival em visibilidade, do ponto de vista internacional. Este ano a gente fez esse movimento de abrir o festival para outros espaços, outros públicos, e também de investir mais, para dar maior visibilidade ao festival. O El Mapa cresceu muito no circuito de festivais latinos. O El Mapa hoje é conhecido daqui até o México.

Nonada – O festival já tem uma visibilidade bem grande.

Fernando Rosa – Temos sido convidados para rodadas de negócios, já nos veem como um comprador (de shows). No Uruguai, os caras consideram o El Mapa o principal comprador – até porque a gente traz todo ano dois ou três artistas uruguaios. E essa experiência de ir lá conferir os artistas é importante, porque uma coisa é conhecer pelo YouTube, pela página deles, pelo SoundCloud, e outra coisa é ver o show.

Nonada – E o perfil do artista do El Mapa, qual é?

Fernando Rosa – A gente busca trabalhar com artista independente, que está em sintonia com a proposta do festival. Quando se contata artistas grandes, os caras querem ficar em hotéis diferentes, comer em outros lugares, e olha que os que oferecemos são de primeira… Isso contraria o espírito do festival, que é a integração, colocar todo mundo a conviver. Não estamos organizando evento. A gente sempre teve medo de avançar para esse terreno. Daí tu crias um evento de headliner, e o resto é um monte de artista coadjuvante… Não é essa ideia, nunca foi e nunca vai ser, se depender de mim. Então, essa abertura para outros espaços é também um meio de fugir da necessidade de ter um grande artista de mainstream, do tipo que as pessoas só vão só para vê-lo, esquecendo que estão num festival.

Nonada – O El Mapa começou em Brasília, migrou para Porto Alegre e já está consolidado aqui. Tens propostas para levar para outros lugares?

Fernando Rosa – Sim, já rolou proposta para fazer em Belo Horizonte. Todo ano insistem para voltar pra Brasília… E também tem São Paulo. Mas a ideia é afirmar a marca em Porto Alegre, senão vira franchising. Se um dia acontecer, me agrada mais fazer na Argentina. Já tivemos proposta para fazer em La Plata. Poderia ser uma coisa interessante, pois é uma cidade perto de Buenos aires, foda pra caralho, e não está no eixo principal, assim como Porto Alegre. Em São Paulo, acho que viraria mero entretenimento, e fugiria do conceito cultura, música e política – política no sentido mais universal, da integração dos povos. Podemos mudar algumas coisas na estrutura, mas a essência do festival tem que ser mantida.

PROGRAMAÇÃO

11/11 – 21h – Ocidente – Sarau Elétrico Especial Latino-Americano
ANDRÉS CORREA (Colômbia)
12/11 – 21h – Theatro São Pedro – Música & Democracia na América Latina
LUIZ MARENCO (Brasil) + DANIEL VIGLIETTI (Uruguai)
13/11 – 21h – Opinião – Caribbean Power
SKROTES (Brasil) + MOLINA Y LOS CÓSMICOS (Uruguai) + BOMBA ESTÉREO (Colômbia) + COUTTO ORCHESTRA (Brasil) + BUENOS MUCHACHOS (Uruguai)
14/11 – 21h – Opinião – Samba Esquema Noise – 20 Anos
LA CUMBIA NEGRA (Brasil) + JUVENIL SILVA (Brasil) + ANDRÉS CORREA & BANDA (Colômbia) + CAMILA MORENO (Chile) + MUNDO LIVRE S/A (Brasil)
15/11 – 16h – Teatro Bruno Kiefer – Porto Alegre, Capital da Integração
JÉF (Brasil) + BOB SHUT (Brasil) + PROJETO COMMA  & TAM TAM ÁFRICA (Brasil) + BETO SÓ & BANDA (Brasil) + BESTIA BEBÉ (Argentina) + BOOGARINS (Brasil)

 
INGRESSOS

– Para o dia 11, somente na hora, no Ocidente, ao valor de R$ 15;
– Para o dia 12, os valores são R$ 20 (galerias),R$ 30 (camarotes) e R$ 40 (plateia), à venda na bilheteria do Theatro São Pedro ou pela internet;
– Para os dias 13 e 14, os ingressos custam R$ 25 (1º lote) e R$ 35 (2º lote), nas lojas Multisom (Shopping Iguatemi, Praia de Belas, Moinhos, Total, BarraShopping Sul, Bourbon Ipiranga, Bourbon Wallig, Andradas 1001, Shopping Canoas, Bourbon São Leopoldo e Bourbon Novo Hamburgo) ou pela internet;­­­­­
– No 15 de novembro, a entrada é gratuita. Portanto, chegue cedo.

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