Conheça artistas brasileiras que abordam os rios das cidades em seus trabalhos artísticos

Ao entrelaçarem política, meio ambiente e cultura, artistas de diferentes territórios visibilizam a presença dos corpos de água em espaços urbanos
Foto: Trabalho de Marcela Bonfim/divulgação

Quando puxa na memória a lembrança mais pulsante que tem das águas do córrego Calhauzinho, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, a artista visual e pesquisadora quilombola e ribeirinha Maya Quilolo vê a mãe diante de si, o rosto na contraluz do céu diurno e os braços por debaixo da água fazendo ponte para que seu corpo de bebê aprenda a flutuar no ribeirão. 

Costurada à sua lembrança, está a de sua mãe, no mesmo lugar, mas flutuando nos braços de sua avó; e a de sua avó, que fazia o mesmo nos braços de sua bisavó, e assim por diante. São gerações de mulheres que colhem das águas os nutrientes de uma existência tal como uma rede de pesca, desde que a primeira ancestral ensinou que é preciso saber o movimento de ser com o rio e dizer sim à vida. “A gente que é ribeirinho e nasce na beira do rio tem que aprender cedo a boiar, para sobreviver às enchentes”, diz a artista.

Com o ato de boiar e se adaptar ao ritmo dos rios, Maya não apenas sobreviveu à imprevisibilidade das cheias como as levou consigo para dentro de seu trabalho artístico. Para ela, a água é o grande mistério da vida, elemento de união e construção. “Os nutrientes que percorrem o nosso corpo o fazem através da água. A globalização aconteceu através das águas”, diz. Nascida e criada no Quilombo Arraial dos Crioulos, em Araçuaí, região do Jequitinhonha, Maya se autodefine como uma water warrior, guerreira da água, que dança em zonas de conflito socioambiental.  

A ideia central de seu primeiro trabalho artístico, a performance Ipori, de 2018, é constituir uma aliança afro-diaspórica por meio da água em defesa da vida do planeta, partindo da perspectiva de comunidades tradicionais negras e indígenas. Segundo a cosmologia Iorubá, Ipori é um dos elementos da alma, que simboliza a energia ancestral conectada à cabeça (Orí) e ao destino (Odu), além de se relacionar com a placenta e com a origem da vida. 

Trabalho de Maya Quilolo, premiada pela Fundação Prince Claus (Foto: Prince Claus Fund/reprodução)

Na performance, Maya cruza o Oceano Atlântico rumo à Nigéria levando a água do Parque da Serra da Gandarela, maior aquífero da região e que fica a 40km de Belo Horizonte, até as águas do Rio Oxum, em Osogbo. A performance ocorreu durante o Festival de Oxum, que ocorre na cidade há quase 700 anos. À época da realização da obra, a artista ainda não havia se encontrado com o rio que lhe deu o nome artístico de Maya Quilolo — o rio Paraguaçu, em Cachoeira, Bahia. Era ainda Amália Coelho de Souza, de 32 anos, nascida e criada no Quilombo Arraial dos Crioulos, em Araçuaí, região do Jequitinhonha. 

Conforme conta ao Nonada, a artista se criou “no berço artístico da cultura popular”, tendo desde cedo contato com os mestres do quilombo, ao lado dos quais deu seus primeiros passos em direção à arte. No ateliê Mukambu, organização afro-indígena fundada pela artista, desenvolve suas práticas e mira no diálogo entre as dimensões cognitivas e espirituais de conhecimento.

Formada em antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Maya foi uma das primeiras quilombolas na universidade. É mestra e doutoranda em Comunicação e Mídia na mesma instituição. A formação em antropologia representou um percurso em direção ao seu autoconhecimento enquanto ribeirinha, essencial para a execução de sua produção artística.   Ela conta também que essa articulação entre planos e instâncias marca a sua vida, expressos em um autoconhecimento e clarividência. Dois anos antes do desastre socioambiental em Mariana, ela sonhou com o acontecimento. “Tive essa revelação sobre o crime ambiental depois que fui trabalhar como antropóloga em comunidades locais.”

Desenterrar um rio  

“A grande maioria das cidades urbanas possui uma má relação com as suas águas”, destaca a artista visual Isabela Prado. Em Belo Horizonte, a 8 horas de distância das águas do Calhauzinho, a artista nada num fluxo criativo que coloca o elemento água em primeiro plano.A memória é tomada como ponto de partida para visibilizar rios e córregos da cidade que, no processo de concretagem da metrópole e tamponamento de seus corpos d’água, perderam espaço na paisagem e foram varridos para debaixo das vias. 

Na obra Sobre o rio, Isabela sinaliza, com 233 placas similares às placas de identificação das avenidas, nas cores branco e azul, os córregos que fazem parte da bacia do Ribeirão Arrudas, que por baixa do asfalto, permanecem atravessando a capital. As placas identificam seis córregos (Acaba-Mundo, Zoológico, Leitão, Mendonça, Barro Preto, Serra) e um afluente do córrego Serra, todos integrantes da Bacia do Ribeirão Arrudas. Para ela, a ideia era criar uma instalação com uma linguagem estética que se diluísse na sinalização das ruas e que estivesse em contato com o público comum sem discriminações, assim como a água pode ser. 

“A obra não passa por um deleite estético – eu amo as placas, acho elas lindas –, mas sim pela transformação que saber essa informação traz ao indivíduo”, explica. A artista conta que caso as sinalizações fossem feitas de modo que parecessem explicitamente arte, com luzes e cores, talvez pudesse gerar dúvida sobre a informação de que ali há um rio correndo debaixo da rua. 

“Me interessava a transformação dessa informação numa verdade revelada, como que isso altera a percepção do indivíduo sobre a cidade, sobre o seu território, sobre a sua história, sobre suas águas, sua paisagem, memória.” Essa transformação não se limitou à percepção individual do público sobre a cidade. Depois das sinalizações, os córregos, além de passarem a ocupar o imaginário de quem sabia que esses corpos de água estavam ali embaixo, também passaram a ser citados como referência em notícias, implicando numa retomada da participação dos rios no cotidiano da cidade. 

As águas são o sagrado

Enquanto a obra de Isabela fala sobre rios invisibilizados no contexto urbano e busca não gerar dúvidas sobre aquilo que afirma, a obra da artista visual baiana Ani Ganzala Lorde abraça o lúdico a partir da vivência rural e imagina, através do feminino, uma realidade possível onde a relação entre seres humanos e o meio ambiente é de preservação e harmonia – com a benção das orixás. 

Nos desenhos de Ani, as mulheres, como que transformadas em divindades, se banham em águas repletas de seres vivos e reforçam imagens sobre ancestralidade, amor sáfico, bem como sobre religiosidade. Na pintura Começo, meio e começo (2024), três gerações de mulheres da mesma família se banham numa cachoeira, tendo a mata como testemunha. Em Kayala (2023), a orixá Yemanjá, rainha dos mares, dança no meio das águas cercada por cardumes diversos. Na obra Se a floresta estivesse morta, nós estaria tanto quanto ela (2021), uma mulher indígena nada no rio ao lado de peixes e de mata ciliar. 

No entanto, embora essas imagens encontrem origem nas memórias da artista junto aos rios do interior da Bahia, onde viveu a infância e a pré-adolescência, elas nascem a partir do desejo de contrapor a realidade de negligência institucional em relação ao meio ambiente. Para Ani, o seu trabalho é um exercício de defesa do sonho, em que ela pensa aquilo que ainda pode ser recuperado, “no sentido de entender a Terra enquanto lugar de acolhimento”.

Tendo vivido a adolescência no bairro Saramandaia, em Salvador, Ani cresceu ouvindo as histórias de suas mais velhas dos tempos em que lavavam roupa na beira do Rio Camarajipe, que cruza o bairro. Com o crescimento acelerado da metrópole, o Camarajipe foi transformado em um canal de escoamento de esgoto não tratado e descarte irregular de lixo. Nos ouvidos de Ani, os relatos soavam como uma realidade distante, como se fossem um sonho. 

“Salvador é uma cidade com muitas águas, com muitos brotos de água, com muitos rios. E todos esses rios foram assassinados, perderam seu espaço para dar lugar a construções. Estão cada dia mais sendo represados”, destaca. “Mas a natureza tem o seu tempo e sempre toma o que é dela. Muitos dos desastres que estão acontecendo e que ainda vão acontecer são resultado da influência humana, por isso que eu busco nas minhas obras sensibilizar a água enquanto uma energia que é viva, que é presente.”

A água dá, a água quer

Dentre algumas das causas para o tamponamento de córregos nas metrópoles, está a especulação imobiliária, cujos projetos de higienização de bairros como forma de encarecer aluguéis e o valor de imóveis, visando o lucro, não leva em consideração os elementos naturais do território. Como consequência, os rios que foram sufocados não tardam a emergir do solo com fúria, atravessando bueiros e se somando às águas das chuvas na superfície. É como nascem a maioria das enchentes urbanas, causadas pelas chuvas intensas, pela impermeabilização do solo e pelo acúmulo de lixo em áreas de escoamento. 

Em janeiro de 2020, Belo Horizonte viveu o que se chamou de chuva de mil anos. Considerada uma das piores já vividas pela cidade, o evento extremo deixou rastro de destruição. O Ribeirão Arrudas inundou regiões da cidade, com elevação do nível em mais de dez metros. “Foi um espanto para mim quando eu vi o Arrudas tampado, como quem coloca a poeira debaixo do tapete. Achei um absurdo alguém decidir ‘vou eliminar esse elemento da paisagem da cidade, da história”, diz Isabela. Para a artista, cuidar da água para que não trouxesse doenças e da mata ciliar no seu entorno teria sido o caminho mais coerente. “Isso revelou uma falta de projeto, de cuidado, de manutenção.” Atualmente, Belo Horizonte conta com uma lei que proíbe o tamponamento de rios. 

Em 2006, depois de cursar o mestrado em Artes nos Estados Unidos, Isabela retornou à capital de Minas e descobriu que o Rio Arrudas, antes coberto parcialmente, havia sido tamponado de vez durante o projeto Linha Verde, da gestão estadual de Aécio Neves. O projeto consistiu na construção da via direta de 40km que conecta a capital ao aeroporto de Confins. “A propaganda que se tinha em torno do projeto era a de um viés político de progresso, que se tratava de uma solução para melhorar o fluxo dos carros, mas ninguém falava que era para tamponar o córrego”, relembra Isabela.

Joia, de Isabela Prado (Foto: Sudio Tertulia)

Tomada pelos relatos de quem cresceu em contato com a visão do Arrudas, e pela sua própria inconformidade diante do projeto, a artista decidiu investigar a situação dos demais rios tamponados da cidade e deu início à instalação que levou mais de uma década para vir ao mundo. Desde sua concepção inicial até os procedimentos finais, foram cerca de 14 anos de pesquisa e execução. A instalação das placas nas ruas da capital mineira envolveu um processo burocrático de autorização junto à prefeitura que durou três anos. 

Na sequência de oito performances intitulada Se essa rua fosse um rio, de 2016, Isabela convoca o público a pensar sobre o cuidado com a cidade enquanto um domínio público. Na performance, a artista tenta aprender a tocar no violino a música Se essa rua fosse minha, de domínio público. “Por ser de domínio público, todo mundo reconhece a música, ela te desloca para um outro lugar, para uma relação mais afetiva com a cidade.” Se trata de uma relação de tentativa e erro em que a insistência faz com que a artista toque a música cada vez melhor. Insistir na melodia que rege as águas é perseverar numa relação de cuidado com o meio ambiente.

Esse pensamento é compartilhado por Ani, que o concebe na dimensão do espiritual. “Nós que somos povo de matriz africana, que cultuamos orixás, a gente tem uma relação muito próxima de cultuar a água, de oferecer presentes, de agradecer a toda a prosperidade, porque entendemos a água também como esse lugar de alimento, de proteção.”

O que dizem as margens

A região amazônica é um dos lugares mais conhecidos pela presença abundante das águas. A falta dela, por outro lado, já pode ser sentida por quem vive nesse território, como a fotógrafa paulista Marcela Bonfim, morada da beira do rio Madeira, em Porto Velho, Rondônia. A mudança para o estado, em 2012, ocorreu no contexto de uma transição profissional que fazia, quando ainda atuava como economista – sua área de formacão. Na época, Marcela ainda possuía uma relação de pouca intimidade com a câmera, até que, com o passar dos anos, sentiu que a imagem cotidiana dos rios já não podia ficar apenas na lembrança: precisava registrar, fotografar, dar vazão à inundação.

Marcela Bonfim (Foto: acervo pessoal)

Com uma obra voltada para a negritude na Amazônia, a fotógrafa registra a memória e a presença de um povo cuja associação com o território nem sempre é óbvia. “Antes de chegar nesse espaço, o efeito imaginário que eu tinha é que eu iria encontrar esse corpo indígena, eu iria encontrar a natureza, eu iria encontrar tudo, menos uma negritude tão forte e tão atenta quanto a negritude da Amazônia”, detalha. 

Marcela explica que pensar os efeitos da imagem é importante para que esse imaginário seja ressignificado a partir do registro da presença negra nesses territórios. Transformar a frequência visual com que corpos negros são ou deixam de ser retratados em lugares específicos é transformar o imaginário social acerca da presença negra nos mais diversos territórios brasileiros. 

Para Marcela, compor um amplo retrato da negritude na Amazônia através da fotografia e de outras linguagens artísticas, entre florestas e rios, é uma maneira de se alcançar essa transformação. Da chegada em Porto Velho ao momento em que foi abraçada pela noção sobre a negritude presente no território, foi questão de tempo até que a fotógrafa se familiarizasse com a câmera e com o ato de fotografar e começasse a cruzar os rios em busca de rostos e paisagens para contar histórias, criar memória.

A forte presença negra no território amazônico é o tema central de seus trabalhos. Na plataforma multi-artística (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta, Marcela reúne, através de linguagens variadas como a fotografia, a música, o audiovisual e o texto, um panorama sobre a vivência negra na Amazônia. Na plataforma, é possível explorar tanto as histórias sobre o primeiro fluxo migratório negro em Rondônia, no Vale do Guaporé, ocorrido em 1760, quanto as histórias dos descendentes de imigrantes afro-caribenhos conhecidos como barbadianos, dentre outras. 

Já em Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível (Editora Igrá Kniga, 2025), Marcela reúne histórias da negritude entrelaçadas aos rios e às florestas amazônicas que apontam para o destino da dignificação, ao mesmo tempo que conversam com as reflexões sobre ser um corpo negro nesse território. Desde que saiu do centro para ocupar a margem da outra ponta do país, a fotógrafa percebe o quão importante é aquilo que as beiras dos rios estão dizendo. “A água remete à emoção, ela remete à passagem, ela remete à memória, ela remete à constância também. Porque esse rio, o Madeira, ele não apenas vai, como ele também fica, ele sempre está aqui presente. Ele às vezes aumenta, às vezes transborda, às vezes seca. E esse é o significado do que é estar na Amazônia.”

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