Foto: Josemar Afrovulto/reprodução

Do colo à cura: a presença de Oxum em trabalhos artísticos

“É dona do ouro / Do alto da cachoeira/ Onde guarda seu tesouro/ Aiê iê, Aiê ie Oxum / Linda ela é / Tem seus encantos/ E muito Axé/ É mamãe Oxum/ Para seus filhos que são de fé/” 

É através do território que acontece a relação de Mara Pereira com Oxum. Durante anos, ela viveu no Espírito Santo, onde começou a se aprofundar nos conhecimentos das religiões de matrizes africanas e afro-brasileiras. Hoje, morando em Roraima, a proximidade com os rios e cachoeiras segue dando contorno ao seu trabalho e produções. “A presença de Oxum para mim está muito em fazer o que vim fazer, o que quero”, diz a pesquisadora. Mestra em Artes Visuais pela UERJ, Mara trabalha com uma educação antirracista por meio do encontro entre conhecimentos africanos e afrodiaspóricos nas artes visuais e na literatura. 

“Oxum nos ensina a sair dos lugares, como diz Nina Simone, em que o amor não está sendo servido na mesa. Ela nos ensina um auto-amor, um auto-respeito. E acredita que isso também vai se refletir em um retorno amoroso e respeitoso no coletivo e na sociedade”, explica Mara, sobre a entidade conhecida em suas imagens por trazer o brilho, o ouro e a beleza. “Muitas vezes as pessoas não vão entender de onde partem nossas decisões e escolhas, mas partem de um propósito de vida alinhado com Oxum, e com Iemanjá, e com Iansã. Porque elas não são opostas, elas se complementam.” 

Para a educadora, Oxum ensina a importância de cuidar de si. O cuidado (o colo) da Iabá está também no cruzamento de saúde mental, psíquica e espiritual. Foi pensando nisso que em 2021, ela idealizou Erù-Iyá, um projeto de arte e educação que se desdobrou em exposição, podcast e rodas de conversa com artistes e educadores. 

Erù-Iyá nasce a partir da presença de Iemanjá e Oxum. O projeto surge entre muitos encontros com as águas e também de pensar em nosso autocuidado, coletivo, de mãe e filho, de amor familiar relacionado às mulheres pretas. Também entendendo as diferentes formas desse feminino, a partir de experiências de mulheres-cis, héteros, lésbicas, trans, que falam sobre seus processos de criação.” Eru-Iwá é uma das produções em que Oxum está presente, seja na poética ou no tema. Confira outras: 

Na Barriga da Minha Mãe Foi Onde Conheci Oxum (2019),  de Laís Amaral 
(foto: reprodução)

Em seu trabalho, Laís Amaral relaciona os contextos de desertificações ambientais ao projeto de embranquecimento do Brasil. Tendo a pintura como suporte principal de seu trabalho, em telas de grandes dimensões a artista aborda dimensões subjetivas e espirituais que lhe atravessam. Também reflete sobre a relação do corpo com a natureza e da produção de memórias e histórias. Além da pintura, Laís também trabalha com bijuterias e jóias, que, muitas vezes, tornam-se instalações. 

Sem título, (2018/2019),  de Sheyla Ayo 

A partir de uma investigação da linha e do desenho, Sheyla traz a poética das águas e conecta temas como terapia, autoconhecimento e religião. Sua produção artística tem um vínculo próximo ao candomblé e aponta elementos da natureza, do universo feminino, de sua ancestralidade afro-americana. Em uma entrevista, Sheyla conta que a série são visões que ela tem em transe, enquanto Iaô (filha santo que já passou pela iniciação). 

Universos em nossas mãos (2018), de Josemar Afrovulto 
Foto: reprodução

A obra de Josemar Afrovulto é uma fotografia feita durante a performance da artista Rita Lendê na gravação do videoclipe “Rosa Amarela”, do artista Dona Conceição. Para Josemar, ela traz uma força de olharmos em detalhe para uma parte do movimento do corpo, envolta de elementos que nos convocam a imaginar outras possibilidades de narrativas. Ele é fotógrafo, artista visual, diretor de Fotografia, e integrante da Denegrir Agência, fundada em 2019 

Abraço d’Oxum” (2022), de Pandro Nobã  
Foto: reprodução

A obra de Pandro integra a exposição “Um Defeito de Cor”, aberta no Museu de Arte do Rio em setembro, e dedicada a interpretar um grande clássico da literatura contemporânea brasileira escrito por Ana Maria Gonçalves. Pandro Nobã é artista nascido e criado no bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Seu trabalho traz elementos do graffiti e de sua relação com projetos sociais e educativos. Na pintura, ele trata de temas ligados à sua vivência nas religiões de matriz afro-brasileira. Também trabalha com objetos de barro utilizados nos cultos sagrados de terreiro. 

Borí ( 2008-2011),  de Ayrson Heráclito   
Foto: reprodução

A série Borí, de Ayrson Heraclito, acontece a partir de uma montagem pública de mandalas de alimentos em torno das cabeças de performers, filhos das principais divindades do candomblé: Oxossi, Omolú, Xangô, Ossain, Oxumarê, Kitembo “Tempo”, Oxum, Yansã, Yemanjá, Nanã e Oxalá. Cada entidade recebe suas comidas preferidas – sendo este gesto uma saudação, mas também um pedido de proteção. Para Oxum, oferta-se o ovo. Ele é símbolo da fertilidade, utilizado amplamente nos rituais de purificação, iniciação, borí e ebós de propiciação e defesa.

Se eu plantasse meus sonhos na água (2022), de Mika 
Foto: reprodução

As águas são uma temática presente no trabalho de Mika, artista e arte-educadora de Teresina. A partir de uma busca por ancestralidade através de narrativas, seja da memória familiar ou de estudos sobre afrobrasilidade, a artista busca os ensinamentos das pessoas mais velhas de seu convívio. Seu processo criativo parte da oralidade e da escuta como fio condutor – que ela chama de “Palavra dos antigos”, materializando-se em desenhos, bordados, colagem têxtil e instalação. 

“Entre o rio e o mar” (2020), de Glauce Santos 
Foto: reprodução

Na exposicao, “Entre rio e mar”, na Galeria Benedito Nunes, em Belém, Glauce Santos apresenta o tema das águas a partir de obras que evocam as simbologias dos orixás. Artista, pesquisadora e curadora paraense, Glauce retrata os valores civilizatórios afro-brasileiros e faz uma reverência aos orixás das águas na diáspora brasileira. Glauce é referência de pesquisa sobre o tema no país e é uma das coordenadoras do projeto Nós de Aruanda, que reúne artistas de terreiro. 

(Outros) fundamentos (2017-2019), de Aline Motta 
Foto: reprodução

(Outros) Fundamentos é a última parte de uma trilogia de trabalhos de Aline, que começou com “Pontes sobre Abismos” e depois com “Se o mar tivesse varandas”. Com imagens captadas em Lagos/Nigéria, Cachoeira/BA e Rio de Janeiro/RJ, o projeto procurava dar conta das consequências da jornada que a artista empreendeu em busca de suas raízes. Com isso, procurou restabelecer laços com seus ancestrais comuns, através das águas e pontes que conectam as três cidades, e imaginando uma possível comunicação por espelhos, que refletiriam a mesma luz dos dois lados do Atlântico.  

Erù-Iyá (2021), de Mara Pereira  
Foto: reprodução

Erù-Iyá é a saudação às espumas e ondas geradas no encontro das águas do rio com as águas do mar. Lançado em 2021, o projeto híbrido (virtual e presencial), levou ao Museu Capixaba do Negro “Verônica da Pas” (Mucane), uma exposição de obra inéditas das artistas Kika Carvalho e Castiel Vitorino Brasileiro, e do artista carioca Yhuri Cruz, além das vozes de mulheres negras do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia. O projeto atuou em diferentes áreas do conhecimento, propondo diálogos entre arte contemporânea, cultura visual, feminismo negro, educação, política, psicologia e psicanálise, culturas africanas e afrodiaspóricas. Para Mara Pereira, o projeto é um encontro das duas Iabás – Oxum e Iemanjá. “Vem como uma saudação ao encontro da água doce com a salgada. Ao mesmo tempo chama atenção para o autoamor e autocuidado. Mesmo que não exista uma cura total, completa, ela é um caminho.” 

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Repórter do Nonada, é também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.
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