Conheça 8 livros que refletem sobre desastres socioambientais a partir da ficção

Literatura brasileira tem retratado, cada vez mais, crimes e desastres que impactam populações, territórios e subjetividades
Márcia Kambeba é doutora em Linguística, mestre em Geografia, escritora com 11 livros publicados, poeta, apresentadora, fotógrafa, compositora, cantora, palestrante sobre temas indígenas e ambientais, contadora de histórias e educador. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

Na literatura brasileira, a realidade das urgências climáticas extrapola a ficção. Livros de diferentes gêneros abordam catástrofes ambientais ocorridas em várias regiões do país, percorrendo lugares e vivências que vão desde a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, às margens do Rio Xingu, no Norte do Pará, até as enchentes que inundaram todo o Rio Grande do Sul.

O universo literário consegue tensionar e ampliar a percepção que temos das destruições ambientais. É nesse movimento que algumas obras dialogam com o que se convencionou chamar de ficção climática, ou cli-fi, abreviação de climate fiction, termo associado ao jornalista estadunidense Dan Bloom, e popularizado a partir de meados de 2007. Mais do que retratar fenômenos naturais e crimes ambientais, essas narrativas exploram seus impactos sobre pessoas e territórios, trazendo à tona questões como desigualdade social, racismo ambiental, deslocamentos forçados e o direito à memória e ao luto.

A escritora Natália Borges Polesso, referência nos debates sobre o Antropoceno no Brasil, amplia a discussão ao sustentar que a ficção científica se limita quando restringe sua abordagem às mudanças climáticas. Doutora em Teoria Literária e professora, ela defende que a questão climática é mais complexa e deve ser compreendida a partir das múltiplas relações que envolvem o Antropoceno. Natália explica:

“Não que mudanças climáticas seja algo desimportante, mas eu acho que elas são um sintoma de coisas muito maiores. Porque, por exemplo, as mudanças climáticas podem ser um resultado do neoliberalismo, dos processos da colonização. Quando houve a invasão das Américas pelos europeus, a gente teve uma grande mudança de biomas e do modo de habitar a terra”, reflete Polesso, autora de oito livros entre eles, Amora (2015), vencedor dos Prêmio Jabuti; Controle (2019), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e A extinção das abelhas (2021), finalista dos Prêmios Jabuti e São Paulo

A autora afirma que a literatura brasileira vem sendo cada vez mais atravessada por questões ambientais em textos recentes e agrega, neste contexto, elementos de personagens, espaço e temporalidade. Ela afirma que as mudanças, nas últimas décadas, estão afetando o nosso modo de pensar, nossos imaginários, e, inclusive, nossa forma de conceber o futuro. Segundo ela: “A presença de questões ambientais na literatura brasileira tem subido bastante”. A reflexão tem base na pesquisa Atlas do Antropoceno, realizada a partir de um levantamento feito na Escola de Humanidades da PUCRS, onde é professora.

Além da escrita, Natalia Borges Polesso se dedica à pesquisa sobre o Antropoceno e o aparecimento das questões climáticas na literatura. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

O mapeamento, iniciado há cerca de um ano, já reúne 140 livros. A maior parte das obras foi publicada entre 2010 e 2026, mas o levantamento retrocede aos anos 2000, período em que o termo Antropoceno foi criado.

Em meio aos conceitos, as devastações ambientais ganham rostos, endereços, nomes e sentimentos. Como pontua Maria José Silveira, escritora e antropóloga goiana, sobre o romance Maria Altamira (2020), “A literatura tem um grande trunfo: a possibilidade de criar personagens e entrar na subjetividade deles. Porque a literatura entra, e, é isso, a ficção”. Assim, acontecimentos reais deixam de ser apenas fatos e ganham dimensão humana na ficção. A escritora também questiona a distância que alguns autores mantêm do que acontece ao redor: “Não querem olhar a realidade. Não se debruçam na janela para ver as coisas acontecendo.”

Muito antes de a ficção climática se tornar um conceito contemporâneo, a escrita indígena já trazia, em suas contações de histórias e fabulações de mundos, uma relação indissociável com a natureza. Na cosmovisão do povo Kambeba, prevalece a perspectiva de bem viver, baseada na relação com outros seres e com os encantados, em que ficção e realidade se entrelaçam. Em entrevista ao Nonada, Márcia Wayna Kambeba, escritora e geógrafa indígena do povo Omágua, do Alto Solimões, na Amazônia, conta sobre sua obra O Lugar do Saber Ancestral (2021), livro que reúne 44 poemas. Ela define a própria literatura: “Minha poesia é decolonial, ambiental e ecopoesia”.

Segundo a poeta, a matinta, o boto e o curupira, por exemplo, não são folclore, lenda ou fantasia, mas seres que integram a natureza e se comunicam. Para ela, o próprio território comunica, e tudo o que existe dentro dele também estabelece formas de comunicação. Essa forma de compreender o não humano também está presente na própria origem do povo Kambeba. Márcia explica que seu povo nasceu da água:

“O povo Kambeba, ao qual pertenço, nasceu de uma gota d’água. Então, o céu se abriu, uma grande chuva caiu, uma gota grande trouxe duas gotas menores. Então, elas vieram bailando e caíram no igarapé e nasceu o homem e a mulher. Isso para vocês (não indígenas) é mito, é lenda, é folclore, para a gente não é. Porque isso conta parte de um olhar amplo da vida.”

A tradução da realidade vivida passa também pela linguagem e pelos significados das palavras. Márcia escreve seus livros em duas línguas como forma de aproximar diferentes públicos, permitindo que seus parentes nas aldeias também se reconheçam nas obras e se sintam representados. Para leitores não indígenas, as publicações contam com glossários que explicam palavras e expressões da língua tupi. Suas produções também chegam às salas de aula e ao Enem, evidenciando o alcance educativo de sua obra.

Conheça oito livros de ficção, de diferentes gêneros, entre eles cordel, poesia, literatura infantojuvenil e autobiografia, que nascem de acontecimentos ambientais brasileiros.

A Mancha, de Guilherme Gontijo Flores (2021) 

Em 2019, um derramamento de óleo espalhou uma enorme mancha de petróleo cru por mais de mil pontos do país, entre praias do Nordeste e parte do Sudeste, segundo um dos primeiros balanços do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A substância atingiu ecossistemas costeiros, como mangues e recifes de corais, além de diversos animais marinhos, entre eles tartarugas, aves e peixes. Esse episódio inspirou A Mancha (2021), escrita por Guilherme Gontijo Flores e ilustrada por Daniel Kondo, publicada pela editora FTD Educação. Em poesia para o público infantil, a obra constrói uma narrativa visual lúdica e vibrante em que a ameaça representada pelo petróleo se torna um risco à vida em sociedade. 

Coração na aldeia, pés no mundo, de Auritha Tabajaras (2018)

Foto: Divulgação

Nascida na aldeia Emburana, do povo Tabajara, no Ceará, Auritha revisita suas memórias ao narrar, em terceira pessoa, as saídas e os retornos ao território de origem em busca de uma vida melhor em Fortaleza. A experiência na cidade revela fronteiras linguísticas e geográficas, enquanto a narrativa percorre a maternidade, a descoberta de sua sexualidade lésbica e a relação com a mãe-avó e sua comunidade. Em versos de cordel, a autora transforma essas vivências em uma história de ritmo e rimas sobre ancestralidade, deslocamento e pertencimento.

Coração na aldeia, pés no mundo é uma autobiografia em cordel, lançada em 2018 pela Uk’a Editorial, com xilogravuras de Regina Drozina. O título sintetiza a relação de Auritha com o território: enquanto seus “pés estão no mundo”, seu “coração permanece na aldeia”, ligado às tradições de seu povo.

Corpos Benzidos em Metal Pesado, de Pedro Augusto Baía (2023) 

Foto: Divulgação

A trama acompanha personagens que convivem com os impactos do garimpo ilegal, da mineração, da violência contra povos indígenas e quilombolas e da contaminação dos rios e dos próprios corpos por metais pesados na Amazônia. Em meio aos conflitos, a narrativa também encontra espaço para a ternura e a aproximação genuína. No conto “Carne de boi”, uma menina se pergunta: “como um rio limpinho consegue morar dentro de uma palavra tão pequena”.

Inspirado no cenário e nas vivências do Norte do país, o autor paranaense Pedro Augusto Baía lança seu livro de estreia, com 11 contos, publicado pela editora Record. As histórias percorrem diferentes facetas da região e misturam religiosidade, afetos, identidades e corpos às experiências de quem vive ali. Conforme os metais se entranham e vão tirando a vida ao redor, a oralidade presente no texto cumpre um papel na preservação da memória coletiva. A obra foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2022, na categoria Contos.

Maria Altamira, de Maria José Silveira (2020)

Foto: Divulgação

A história de Maria Altamira se entrelaça às experiências da própria escritora Maria José Silveira no Peru e no Xingu. Durante o período em que viveu no Peru, em meio ao exílio da ditadura militar brasileira, estudou antropologia. Em uma viagem pelos Andes, a autora passou por Yungay e fixou na memória as imagens da cidade soterrada. Anos depois, em 2015, acompanhou as manifestações contra Belo Monte na Avenida Paulista e esteve no Xingu, onde conheceu de perto os impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

“Conheci e tive assim uma vivência ali e por isso, eu voltei mudada de lá. Porque ao ver a força dos indígenas, como eles estavam lutando contra aquela devastação que estava ameaçando a vida deles”, afirma Maria.

No romance, um terremoto soterra Yungay, no Peru, em 1970. Entre as sobreviventes está Alelí, que atravessa a América do Sul até chegar ao Xingu. Anos depois, sua filha, Maria Altamira, acompanha os impactos de Belo Monte sobre comunidades ribeirinhas e indígenas. Ao aproximar Yungay e o Xingu, o romance conecta diferentes formas de devastação, deslocamento e perda. A trama atravessa fronteiras e conecta pessoas de diferentes países, mas também encontra espaço para mostrar a alegria, a cultura e a existência dos povos originários.

O lugar do saber ancestral, de Márcia Wayna Kambeba (2021)

Foto: Divulgação

A poesia indígena ora se torna mãe natureza, ora o próprio povo. Nos textos de Márcia Kambeba, essa relação parte de uma compreensão de que natureza, memória, identidade e vida não se separam. Para a escritora e compositora, a literatura nasce de uma realidade vivida no cotidiano, como explica em entrevista:

“Entendendo que tudo que que está dentro da natureza tem vida, portanto tem espírito. Então eu não vou derrubar uma árvore de qualquer jeito, que eu estou derrubando uma irmã. E ela sente dor. E eu sinto dor. E eu dependo dela e ela depende de mim.”

É a partir desse olhar que a natureza também ganha voz em sua poesia. Em Lamento da água, a devastação ambiental é narrada pelo próprio rio, que sente a poluição, a seca e a morte dos animais:

“Uma lata cortou meu coração,
Sangrei tanto que secou o rio Solimões.
Magoada pela falta de educação,
Deixei de correr e veja só a situação.
A terra seca parecia um sertão,
Os peixes agonizavam sem respiração,
Até a sucuri quis fugir da devastação.”

O Gosto Amargo dos Metais, de Prisca Agustoni (2022)  

Foto: Divulgação

Em Minas Gerais, os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, não deixaram apenas marcas na paisagem. Mataram pessoas, destruíram comunidades, alteraram rios e modos de vida e produziram perdas que continuam sendo reparadas anos depois. É diante dessa dimensão da devastação que a autora e professora Prisca Agustoni, suíça radicada no Brasil, transforma a mudez em poesia. Publicado pela 7Letras, O gosto amargo dos metais traz o extrativismo e as consequências da mineração pela experiência de quem testemunhou esses acontecimentos. Prisca conta que ficou muda diante dos crimes ambientais e encontrou na poesia uma forma de externalizar esse vazio, traduzindo a mudez pela aspereza das palavras e por imagens secas como lama endurecida:

“Avança a agonia sobre o Rio, escavando com lascas de unhas e dentes de ferro até o fundo, até engolir o gosto amargo dos metais.” O trecho integra a introdução do livro e dá nome à obra.  O livro foi vencedor do Prêmio Oceanos de 2023, na categoria poesia.

Contra Fogo, de Pablo Casella (2024)

Foto: Divulgação

Na Chapada Diamantina, na Bahia, o período de estiagem costuma se estender de maio a dezembro, segundo a Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema), com maior ocorrência de queimadas entre agosto e outubro, quando a vegetação fica mais vulnerável ao fogo. Além das condições climáticas, as queimadas na região também estão relacionadas a ações criminosas e a fatores socioeconômicos. Em meio às chamas, brigadistas voluntários e moradores atuam no combate ao fogo que avança sobre a fauna, a flora e os rios.

É nesse contexto que se passa Contra Fogo, da editora Todavia, romance de estreia do biólogo Pablo Casella. Com uma linguagem marcada pela oralidade, o livro acompanha a rotina de uma brigada voluntária de combate a incêndios e os dilemas de quem transforma o enfrentamento ao fogo em uma missão. A emergência climática atravessa a narrativa, enquanto as queimadas afetam a biodiversidade e o ecoturismo da região.

Porto Alba, de Irka Barrios (2026)

Foto: Divulgaão

Em Porto Alba, uma cidade fronteiriça às margens de um rio, uma misteriosa doença conhecida como Mal-do-Rio começa a apavorar os moradores. Pouco antes da pandemia de Covid-19 e de uma devastadora inundação, a médica Ana chega à região para investigar os acontecimentos e descobre uma possível relação entre a doença, a construção de uma hidrelétrica e a ameaça de desapropriação das terras. Enquanto a comunidade resiste às mudanças que podem transformar para sempre o território, a trama mergulha em silêncios, conflitos e casos inquietantes.

Porto Alba, romance da escritora porto-alegrense Irka Barrios, publicado pela Autêntica Contemporânea, transita entre o suspense psicológico, o horror corporal, as questões ambientais e as descobertas científicas. A obra explora nossa relação com a natureza e a dificuldade de aceitar aquilo que é indomável e incontrolável.

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