Brumadinho (MG) — O ano era 2005 e a dupla de artistas John Ahearn e Rigoberto Torres desembarcava no Brasil com a missão de construir uma das primeiras obras do que seria o Instituto Inhotim. Em mãos, levavam o desafio de compor uma equipe de profissionais para executar a técnica de molde em grandes dimensões, com cópias em fibra, partes essenciais das esculturas naturalistas características do seu trabalho.
Na Belo Horizonte daquele momento, iniciaram uma busca de quem poderiam ser os brasileiros responsáveis pela produção técnica do trabalho. Criaram, então, uma espécie de prova, um teste com uma parte do que seria a obra. Como o projeto tratava de construir uma escultura de um ônibus, que mostraria a população de Brumadinho, cidade onde fica o Instituto, a pessoa precisaria montar um módulo de uma janela, com três pessoas olhando através dela.
No bairro popular Novo Aarão Reis, região norte da capital mineira, um jovem de 24 anos, esculpia diariamente em um ateliê. Não para museus ou instituições culturais, mas para festas da cidade. O domínio do gesso, do molde, do corte e do acabamento eram suas especialidades. Em uma tarde daquele ano, chegou até ele a missão de confeccionar o exemplar da janela, pedida pelos dois artistas — um estadunidense e um porto-riquenho — que vinham à cidade. “Impecável”, disseram ao ver o resultado final.
Não tiveram dúvida. Haviam encontrado o parceiro ideal para a empreitada. Aquele momento marcava o início da obra, Rodoviária de Brumadinho, localizada na Galeria Praça do Inhotim. Para Elton Damasceno da Silva, conhecido por todos como Fubá, aquela peça dava início a muito mais que um trabalho. Era o começo de um caminho profissional que se estende até hoje.
Fubá começou a trabalhar ainda adolescente, com 14 anos, neste ateliê que produzia esculturas tridimensionais para lojas de festas, retratando super-heróis, personagens de quadrinhos e de filmes infantis em tamanho real. Ele era responsável pelas diferentes etapas de produção. Como criava em série, ele se incumbia de desenvolver um modelo para as esculturas, e, a partir dele, copiava em sequência para a venda. Essa era, portanto, a primeira vez que esculpia uma obra para um museu.
Pronto para o trabalho, Fubá entrou, ele mesmo, no ônibus rumo à cidade de Brumadinho. A viagem, de cerca de uma hora, atravessa um caminho sinuoso, por entre os morros e serras da paisagem mineira. O que, inicialmente, parecia um trabalho temporário, de prestador de serviço, logo se converteu em uma função maior. Além do trabalho escultórico, ele passou a recrutar pessoas da cidade para participarem da obra proposta pelos artistas. Menos de um ano depois, foi contratado pela instituição.
O ano é 2026, data em que o museu completa aniversário de duas décadas. Fubá olha para a obra e lembra de cada história de quem está dentro do ônibus. Aos 44 anos, sua memória é como um museu dentro do museu. Ele guarda a visão de quem estava na construção, no planejamento, na execução. Por com suas mãos, passaram detalhes que talvez não sejam perceptíveis a olho nu, mas que compõem cada molde esculpido, cada uma das esculturas. Ele conta que o ônibus da obra foi baseado em um veículo real, dos anos 70, encontrado no bairro Santa Tereza. E começa a descrever cada parte do mural:
“Aquela na terceira janela é a Mariana. A mulher grávida é a Neia, ela trabalha hoje na biblioteca aqui. Aquele segurança é o Rômulo. A senhora cortando a bandeira é Dona Laura. O senhor com bumbo é o Zé Patinho. O menino da esquerda é o Maurílio. A menina da direita se chama Naiara”, conta Fubá.
Ele lembra detalhes e até hoje acompanha algumas das histórias nesta que é mais do que uma obra, é um registro de um tempo, pessoal e museal. Assim é sua relação com vários dos trabalhos artísticos mais visitados e mais famosos no museu.

Ele tem a perspectiva de quem esteve na elaboração e de quem todos os dias desenvolve soluções para que os trabalhos estejam em seu melhor funcionamento. “Foi um dos trabalhos que eu passei mais tempo produzindo”, destaca. “Eu acho que eu correlaciono muito essa intimidade com alguns artistas e trabalhos com o tempo de produção dessas obras também”, diz ele, que prefere trabalhar nas obras que mais levam tempo para finalização.
Nos vinte anos de sua trajetória no museu, passou por diversas funções, até chegar ao cargo que ocupa há dois anos, de Gerente de Ateliê do Inhotim. Em diálogo com os artistas e curadores, ele hoje lidera a produção das obras do Instituto. É uma pessoa conhecida por dizer sim para projetos ousados, que, muitas vezes, exigem fazer o que ainda não foi feito. Quando um artista chega até ele e apresenta o projeto, Fubá é um dos primeiros a assentir. Diz: vamos fazer. Do projeto até depois da inauguração, ele trabalha na minúcia das grandes esculturas.
Um carrinho elétrico, meio de transporte oficial dentro do parque, leva o Nonada ao Ateliê, na parte alta do eixo rosa do Instituto, onde fica o Centro de Artes e Ofícios do Inhotim (CAO). O lugar não é visitável, mas rastros da história do maior museu a céu aberto da América Latina, e um dos maiores do mundo, estão guardados ali. É este o nascedouro de obras e também o próprio meio, a reposição.
Dentro do galpão, de paredes brancas com detalhes verdes, encontram-se profissionais costurando capas de almofadas para a Galeria Cosmococa, de Hélio Oiticica. Também se podem encontrar os testes de cortinas de renda que integraram a exposição Esconjuro, de Paulo Nazareth; os protótipos de metais torcidos para a obra Apenas depois da chuva, de Rebeca Carapiá, exibida em um dos lagos do museu; um livro encadernado com os projetos gráficos para execução de O espaço físico pode ser um lugar complexo, abstrato e em construção, de Rommulo Vieira Conceição. Cada gaveta é um bastidor.
Embora seja ali o escritório de Fubá, é mais comum vê-lo de um lado a outro do museu, dirigindo um carrinho, entre uma rota e outra, do que exatamente parado. Ele é uma pessoa do movimento.

Semente em terreno fértil
Em outubro de 2006, pegou o ônibus de Belo Horizonte a Brumadinho de forma definitiva. Havia decidido que ali seria mesmo a sua casa e que na cidade da região metropolitana construiria sua vida. Depois da produção da primeira obra, Fubá recebeu o convite para seguir trabalhando no mural que mostra a cultura do Congado, expressão cultural e popular presente na região. Naquele momento, ele já era pai de seu primeiro filho.
De voz doce, e não por isso menos assertiva, Fubá conta que “aqui eu vi que existia um terreno fértil para meu próprio crescimento”. Quando chegou à cidade, ele ainda não tinha terminado o ensino médio, já que havia parado de estudar aos 18 anos, com a paternidade. A feitura da obra mudou seus rumos também nesse sentido, porque ao conhecer os artistas John e Rigoberto (ambos falavam inglês), começou a aprender o idioma. Em poucos meses, já tinha o domínio da língua, com o vocabulário técnico para o que necessitava.
A inquietude sempre moveu Fubá. “Eu sempre fui atrás. Quando vi que era importante falar um idioma, fui buscar isso. No início, a maioria dos artistas aqui era estrangeira, então ficou perceptível pra mim que o idioma era uma ferramenta de trabalho. Fui estudando a parte técnica, comprando materiais, experimentando”, conta o gerente de ateliê. “Com o passar do tempo, eu vi que todas as pessoas com quem eu lidava tinham um curso superior, e decidi que eu não ia ficar assim”, relembra.
Logo em seguida, Fubá retomou os estudos e começou a graduação em História em Brumadinho, entrou em uma pós-graduação de Cultura Afro-brasileira e outra em Filosofia. “Eu sempre fui movido por um medo de passar por alguma situação em que eu fosse apequenado de alguma maneira. Até hoje sou o único com diploma de graduação”, conta.
Erick Silva, de 24 anos, o filho mais velho, conta que o pai sempre teve essas características. “Ele é uma pessoa bastante proativa, criativa, incisiva. Ele sempre demonstrou muita força. Nunca precisou falar diretamente para sermos assim, a gente observava do seu jeito”, conta o jovem. “Ele tem uma relação muito profunda com a arte.”




A sabedoria do material
De volta ao carrinho elétrico, ele dirige até a obra De lama lâmina, de Matthew Barney. Em uma região mais afastada do núcleo do parque, o trabalho é um grande domo geodésico em aço e vidro, no qual um trator sustenta uma árvore de cor branca. Inaugurada em 2009, ela deu seguimento à vocação do Inhotim para construir suas próprias obras, uma marca hoje do museu, que foi se desenvolvendo paulatinamente. A trajetória de Fubá se entrelaça com a da instituição também nesse sentido.
Nessa época, Fubá era auxiliar de área técnica. Ele lembra que o processo de desenvolvimento durou cerca de 2 anos, o que também torna essa uma das obras do museu que se orgulha de ter trabalhado. “Eu aprendi a sempre olhar para o ambiente e ver o que ele carece, o que ele precisa. A me perguntar: o que está faltando aqui”, diz ele. Não foi diferente com essa, que é uma das obras externas mais conhecidas da instituição.
Um dos desafios enfrentados, alguns anos depois da inauguração, teve relação com o encontro do material do trabalho com o ambiente. A árvore vista pelo público é feita de policaprolactona, um poliéster biodegradável muito utilizado na medicina, que começou a sofrer o impacto da luz UV do lugar. Fubá, junto às equipes técnicas, começou a estudar o que poderia estar acontecendo com a obra.

“Vimos que o ponto de fusão dele era baixo, cerca de 60 graus, e entendemos que a refrigeração da galeria precisava ser muito mais potente para evitar o enfraquecimento precoce do material”, conta. “Quanto mais velho ficava o material da árvore, menor ficava o ponto de fusão.”
A obra precisou ser fechada em 2021, e nesse período, Fubá, junto a outras equipes e ao estúdio Matthew Barney, ficou responsável por construir novas soluções para o trabalho artístico. Depois de meses de estudos e restauração, entendeu-se que a galeria precisava de uma proteção UV e um processo de refrigeração no topo da geodésica. “Teve que mudar toda a estrutura”, conta.
O manejo e o caráter experimental das materialidades nos trabalhos artísticos fazem parte da rotina diária de Fubá no Inhotim. Muito foi aprendido na prática, obra após obra, em uma sucessão de conhecimentos que ele chama de “Saberes do Ateliê”.

A alguns quilômetros dali, na rota laranja do museu, se encontra uma das obras mais coloridas do parque, com autoria do artista gaúcho Rommulo Vieira Conceição, chamada O espaço físico pode ser um lugar complexo, abstrato e em construção. A inauguração foi em 2021, mas o processo começou anos antes, com intensos estudos que envolviam o metal, a madeira, a resina, a fibra de vidro, o polipropileno e a pintura automotiva. O artista é geólogo de formação e conhecido por suas esculturas que exploram a questão do espaço contemporâneo.
O debate principal para execução dessa obra era o próprio fato de que ficaria exposta às intempéries do lugar. Se tem um desafio material, Fubá já começa a mobilizar tudo que conhece para concretizar a ideia do artista. “A grande questão do trabalho do Rômulo era a estrutura, porque a base da instalação é 95% de madeira. Como fazer com que isso tenha durabilidade no tempo? Se você olhar o clima de Inhotim, tem momentos extremamente quentes, depois extremamente frios. Alguns materiais não reagem bem a isso”, conta.
Ao lado do artista e da equipe, Fubá encabeçou o processo de testes. Uma das premissas é que as cores precisariam estar vibrantes; o acabamento, liso e brilhante. “Sabíamos que era possível fazer na madeira, mas que precisaria de alguma solução. Depois de muitos testes, encontramos um material para revestir toda obra que poderia resistir ao tempo.” A solução encontrada foi a utilização de uma resina epóxi, um plástico que começa em estado líquido e se transforma em um material sólido, rígido, impermeável e com alto brilho após passar por uma reação química de cura. O teste foi tão bem sucedido que o material também passou a ser aplicado nos bancos espalhados pelos passeios do museu, desenhados pelo designer e artista Hugo França, e que igualmente sofrem com as condições climáticas.
“Existem os desafios inerentes a cada trabalho. Você prototipa, testa, propõe, acerta, erra, compartilha, acolhe ideias”, explica o gerente de ateliê, que aprendeu grande parte do que sabe de forma autodidata. “Todo trabalho requer se reinventar.”
Rommulo lembra bem o trabalho com Fubá. Executada na pandemia, a obra envolvia e demandava oficinas com pessoas da comunidade de Brumadinho. O gerente de ateliê foi responsável por possibilitar isso. “Ele foi excepcional, fez a organização toda”, relembra o artista. “Ele tem uma doçura e ao mesmo tempo é muito preciso. Ele tem um interesse genuíno pelo outro”, descreve Conceição.
Rommulo conta que a equipe desenvolveu perfis que se multiplicavam como se fossem espécies de óculos para conseguir uma geometria curva. “Quando você olha para obra e para os arcos, parecem muito simples, mas foi muito trabalho por trás”, reflete. Apesar dos desafios técnicos, ele também destaca a participação fundamental dele no resultado final. “Fubá faz as pessoas acreditarem que algo pode existir”, define.


Desde sua fundação, o Inhotim sempre produziu obras próprias, ainda que houvesse trabalhos que não eram pensados para o lugar, ou seja, não eram site specific. Com os anos, foi se estruturando o que hoje se chama de CAO, o Centro de Artes e Ofícios. Em 2025, as equipes técnicas ganharam uma espécie de complexo físico, dividido em galpões, onde se reúnem os ateliês dos diferentes setores que sustentam as obras do museu: o Ateliê, a serralheria, e marcenaria, a hidráulica, a elétrica e a engenharia civil. Atualmente, um total de 42 pessoas trabalha nestes setores.
Fubá não só viu tudo isso acontecer, mas participou ativamente da estruturação dos espaços. “Cada vez mais, a gente foi se especializando, chamando pessoas. Hoje na equipe, a maioria das pessoas tem uma especialidade, é um grupo composto de múltiplos saberes, da costura até uma especialidade em resina.”
Inventividade como marca
Fubá é uma pessoa que pensa, em articulação, no passado e no futuro. Fruto do seu modo de ser, se perguntar: como uma obra pode durar no tempo? Mas também: como esse saber pode ser transmitido para os seguintes trabalhos e equipes? Essa preocupação em guardar a história, seja técnica ou estética, o levou a sistematizar uma série de soluções descobertas dentro do Ateliê do Inhotim. Assim, criou um manual de 118 páginas, no qual mostra diversos passo a passo e propostas de resoluções para as equipes internas do museu. Mais do que resolver, Fubá gosta de inventar.
Desde a escolha de lixas para os trabalhos, até o trabalho com resina de poliéster, fibras de vidro e utilização de materiais usados pela indústria automobilística. “Trazer a pintura automotiva para dentro do museu foi um dos saberes que desenvolvemos aqui no Ateliê”, exemplifica. A própria obra de Rommulo é resultado dessa descoberta. O material desenvolvido por ele também reúne informações como a instalação de quadros na parede nos padrões museais e o manejo do silicone.
Uma das intenções de Fubá é profissionalizar a comunidade de Brumadinho e que, com o tempo, cada vez seja menos necessário chamar profissionais de fora da região para a realização desse tipo de trabalho. “A ideia é que fique disponível para a comunidade, que resulte em uma profissionalização da mão de obra, para que as pessoas daqui também possam ter essas expertises artísticas e possam ser chamadas”, explica. “O Ateliê é um lugar de difusão de saber”, defende.
“Há muita prototipagem, muito ensaio, a gente experimenta muito, mas também é importante dizer que 80% das coisas que a gente faz aqui tem um fio condutor do que já foi feito antes. É um conhecimento empírico, que nos ajuda a ver a resistência à água, ao calor, ao toque. Já sabemos como fazer uma pintura durar mais”, conta. Um exemplo recente da inovação difundida no CAO, é, justamente, a exposição Tororoma, de davi de jesus do nascimento, em exibição na Galeria Nascente.

Com curadoria de Deri Andrade, a mostra parte da relação do artista com o rio São Francisco, presença metafórica e afetiva recorrente em sua produção, para construir uma instalação que articula pintura, vídeo e espacialidade. Em homenagem e diálogo com os mestres carranqueiros de Minas Gerais, o artista exibe uma carranca, de madeira, centralizada dentro de um olho d ‘ água, que parece colocar o público nas profundezas do rio. Não era a primeira vez que Fubá se via no desafio de fazer conviver a madeira e a água. Evocou, então, os Saberes do Ateliê e impermeabilizou a carranca com a resina que, de algum modo, vitrifica a madeira e pode fazê-la durar, não só os dois anos da exposição, mas uma vida inteira.
“É muito importante para a gente o entendimento da parte conceitual, da ideia do artista, principalmente na questão da materialidade”, explica Fubá. Ele defende que a conexão entre o trabalho artístico e de produção não é um mero detalhe. “A materialidade não poderia ser assim qualquer coisa. Não posso chegar a um artista como Edgar Calel [indígena maia-kaqchikel guatemaleco em exibição no museu], por exemplo, e propor fazermos seu trabalho de concreto. Não, a materialidade está totalmente interligada com a parte conceitual.”
Além do talento de Fubá, o que o artista estadunidense John Ahearn destaca sobre o historiador é sua capacidade de sempre somar com ideias, de contribuir. “Independentemente da situação, Fubá tem um ponto de vista”, conta ao Nonada. Do tempo que passaram juntos, no início dos anos 2000, ele lembra do produtor como congregador, alguém que sabe reunir as pessoas certas para que um trabalho aconteça. “Ele conhecia todo mundo, foi crucial. Ele era o protagonista”, conta.
Segundo o escultor, “Fubá é um contador de histórias”. Em seu idioma, o artista também diz que o amigo é a pessoa que pode dizer we will make it para propostas desafiadoras e também inspira com sua generosidade: “he knows and shares”, diz. Tudo que aprende, Fubá trabalha para não ser o único detentor do saber.

É possível?
No caso da exposição de davi, os bastidores também mostram o entrelaçamento entre a produção e o trabalho artístico. Como parte da proposta da exposição, a curadoria e o artista mantinham o projeto de instalar uma árvore Gameleira no fundo da galeria. Em conversa com a equipe, levantaram algumas hipóteses de como executar.
Ela poderia ser feita de material sintético, mas também poderia ser a partir de galhos coletados raízes, materiais da terra do Inhotim. Mas, Fubá, como é de seu feitio, foi além: propôs que a equipe fosse até Pirapora, cidade natal do artista, origem de toda sua produção, buscar um molde de árvore local, e reproduzir no museu. O artista perguntou, surpreendido, e disse: é possível? Fubá respondeu que sim, que já havia feito antes.
Para muitas pessoas que trabalham com o gerente de ateliê, essa é uma impressão compartilhada. Ele é a pessoa que diz sim. Foram, então, em uma viagem de uma semana na cidade, pesquisando as materialidades do lugar. Além da pesquisa de suportes, Fubá acredita que a conexão real com aquilo que está produzindo faz muita diferença no resultado final das obras. Ao chegar em Pirapoca, mais do que buscar qual seria o molde para a instalação, foram também conhecer os mestres carranqueiros na região, centrais no trabalho de Nascimento, conheceram os pontos turísticos, as comunidades ribeirinhas, os lugares importantes da infância do artista.
O caminho do material não é feito em linha reta e como mostra o gerente de ateliê, mais do que uma escolha objetiva, é também, ou pode ser, uma escolha afetiva, processual. “Nesse processo, o legal é ter uma imersão, sabe? Nas ideias, no local, no artista, pra você se conectar. A gente precisa ter uma conexão. A sua proposta fica muito mais assertiva se você entende de modo profundo as coisas”. Junto às equipes de serralheria, iluminação e elétrica, o resultado ficou impressionante. “A interação dessas equipes aqui em cima é primordial na execução dos trabalhos também.”
“Ninguém faz nada sozinho. A gente sempre precisa de suporte, né? Então, os artistas precisam de uma equipe qualificada, e essa equipe qualificada precisa de uma chefia que dá pra eles condições de trabalho. Precisa de companheiros de trabalho que estejam engajados, que estejam interessados para fazer aquilo.
¨É uma gama de coisas que acontecem para a gente chegar naquele produto final da exposição, que está lá bonito, que agradou todo mundo. É resultado de uma ideia muito bem compartilhada, de uma equipe muito bem entrosada.”
De Pirapora, levaram uma peça. No Ateliê, fizeram uma seção, um corte para prototipagem, que foi replicada na galeria. Em vez de ter um relato de terceiros sobre o que seria o melhor para o trabalho, Fubá prefere sempre ir até à fonte. “A gente trata de entender essa materialidade, o que está ali no coração e na intenção do artista, para que na hora de fazer, isso possa ser irradiado para as mãos que vão estar fazendo isso também”, explica.
No caso da obra da artista Rebeca Carapiá, comissionada pelo Inhotim em 2024, o processo também foi assim: expandir limites. A instalação, localizada entre duas celebradas galerias do museu, a Mata e a True Rouge, de Tunga, também demandou doses de experimentação e testes. A artista baiana é reconhecida por suas esculturas em ferro e cobre, que revelam uma linguagem única e poética.

“Como torcer um ferro de quase duas polegadas e ainda imergi-lo em água?”, foi o desafio apresentado por esse trabalho. Fubá lembra do diálogo que tiveram entre as equipes, em especial com a serralheria, e reflete: “Se fosse uma serralheria convencional, diria que não era possível, que precisaria de uma máquina para fazer isso. Só que as nossas equipes têm uma lida artística. Quando a artista nos fez a proposta, dissemos: beleza, pode deixar, vamos conseguir”, conta.
“O profissional de ateliê, da serralheria, da marcenaria, da elétrica, é um profissional com um fazer artístico também. Não vamos produzir simplesmente uma peça convencional, mas uma peça artística mesmo. Eles são artistas no que fazem”. Fubá mostra que quem trabalha por trás tem um labor importante: expandir os limites do possível.
Os nomes nos créditos
Outra vez no carrinho, Fubá retoma a rota rosa do Museu e nos leva até a obra Sonic Pavilion, do estadunidense Doug Aitken. No ponto mais distante do parque, na parte norte, a obra sonora recebe centenas de visitantes todos os dias. Inaugurada em 2009, a instalação a céu aberto é o resultado de um processo de cinco anos entre pesquisa, projeto e construção.
No centro do espaço, há um orifício de 202 metros de profundidade, por onde passam um conjunto de microfones que captam os sons da terra. Transmitido em tempo real, os ruídos emitidos ocupam todo o ambiente. Os vidros da galeria são revestidos de um filtro que torna a paisagem – de vales e montanhas – nítida quando vista de frente, e difusa quando observada a partir de qualquer outro ângulo.
Todo visitante, para acessar a obra, entra por um corredor largo, isolado acusticamente, como se fosse possível imergir na terra. O que ninguém imagina é que neste mesmo corredor de entrada há uma porta, quase imperceptível, que leva à sala de reserva técnica da obra, que garante o funcionamento pleno da experiência do público.
Fubá entra pela porta, com a intimidade que tem com as obras, e revela uma camada ainda mais profunda. Dentro da reserva, havia uma outra porta, uma espécie de tapume, onde se via escrito à mão um agradecimento a todas as pessoas que contribuíram para a feitura do trabalho.
Em inglês, a inscrição dizia: “Thank you, Fubá”. Como uma ficha técnica improvisada, no âmago do trabalho, o momento também revela um outro tempo das instituições, onde nem todos os trabalhos eram creditados com o destaque que mereciam. “Foi há muito tempo, mas lembro até hoje porque foi muito legal. Na época, a gente se via muito pequeno no processo, no todo.”
Ele também tem na memória quando seu nome apareceu pela primeira vez na ficha técnica, dessa vez de forma oficial, em uma exposição na Galeria Mata do Inhotim. Como um reflexo também dos processos que aconteceram nas últimas décadas, ele conta que começou a existir um processo progressivo de valorizar quem estava pelos bastidores. “Esse reconhecimento foi muito importante. São práticas que, eu acho, hoje já não têm mais retorno, entendeu-se como uma política.” Fubá acredita que esses processos revelam também a complexidade de produzir arte, que vai muito além do artista, do curador e das figuras que geralmente são lembradas pela história.
“Na cultura, às vezes a gente não costuma pensar: para essa obra estar aqui na parede, quais foram as pessoas envolvidas? Não é só esse painel, não é só uma equipe. Foi muita gente que precisou contribuir para uma obra estar de pé. É uma rede extensa”, reflete. “A ficha pode parecer coisa boba, mas é importante. Se eu olhar e falar, lembraram de mim. Significa que nós também somos importantes.”

Presença negra no museu
A articulação política e a valorização dos diferentes sujeitos é uma marca do trabalho feito por Fubá. Ele lembra, nitidamente, quando entrou o primeiro artista negro para o acervo do Museu, Rommulo Vieira, em 2021, mesmo ano do 1º ato Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra.
Ele considera importantes os avanços dos últimos anos, em que mais artistas e curadores negros e negras ocuparam lugares de destaque na instituição. Os 20 anos de trajetória permitem que ele veja, realmente, do zero esse processo. “Pessoas como eu precisavam ver que portas estavam abertas para que elas se entendam donas desses lugares também, enquanto agentes de ocupação, de pertencimento.”
O enfrentamento racial por mais direitos sempre preocupou Fubá, dentro e fora do trabalho. No Inhotim, ele encabeçou um Comitê de Equidade Racial, o Ginga, em 2022, sendo responsável por articular junto a colegas diretrizes, metas e protocolos para as pessoas negras que trabalham no museu. Ele conta que, com o passar do tempo, começou a sentir o incômodo com a baixa presença de pessoas negras na liderança, e também com episódios de racismo por parte de visitantes do museu.
Assim como fez em outros momentos da sua trajetória, resolveu institucionalizar, sistematizar e estruturar um plano de proteção. “Eu comecei a fazer esse questionamento junto a outros colegas. Levamos para a diretoria e começamos a fazer um documento com propostas, com tudo que a gente achava que precisava ser movimentado”, conta. “Muitas pessoas pretas sofrem racismo de visitantes, aconteceu comigo também. A gente não sabe o que fazer para lidar com aquilo, então entendi que era importante ter um protocolo do que fazer”. Hoje as orientações criadas pelo Ginga já são colocadas em prática.

O filho Erick acredita que essa é uma parte fundamental da trajetória do pai: “Ele tem uma importância grande, mas não só nas obras, também na conscientização contra o racismo.” Já Patrícia Silva, sua filha mais jovem, de 20 anos, também destaca a capacidade analítica do pai. “Ele ensina a gente a ser muito crítico com as coisas que acontecem à nossa volta.”
Para além das movimentações internas, Fubá acompanhou a chegada de artistas negros e indígenas à instituição, como Dalton Paula, Edgar Calel, assim como as curadorias sendo ocupadas por pessoas não brancas nos últimos anos. “Hoje a gente tem uma diversidade étnica e de gênero muito mais interessante. Eu espero ver ainda mais pujante daqui a 10 anos”, sinaliza. “Que a gente tenha cada vez mais pessoas negras, LGBTs, mulheres, nas lideranças. Hoje já tem muito, mas eu quero mais. Que a gente vá se fortalecendo, se consolidando. Quero que isso se perpetue e se expanda.”
Ele conta que toda vez que um trabalho de um artista negro ou negra chega a seu ateliê é um sentimento diferente. Se no início, trabalhava mais com estrangeiros e artistas brancos, hoje já pode dizer que tem contribuído para realização de muitos artistas jovens, negros, e de diferentes lugares do Brasil.
“Eu fico feliz de pegar o trabalho de uma pessoa preta, de trabalhar para fazer acontecer. São anos em que esses artistas estão produzindo muito conhecimento, então vê-los nesse lugar de destaque que também é importante para mim.”

Um sonhador sem limites
Quando olha para a própria história, Fubá pensa na infância e em como sempre nutriu o desejo de que sua trajetória fosse diferente de outras gerações. “Quando eu comecei a estudar, eu pude entender que alguém precisa romper com esse ciclo, que alguns autores chamam de ciclo cumulativo de desvantagem. Quebrar com esse padrão me motivou muito a seguir”, conta ele, que é o primeiro da família a obter um diploma de ensino superior. “Ele é uma inspiração pra mim, em tudo que faz”, diz a filha, que agora se prepara para uma graduação também nas áreas de humanidades, como o pai.
Quase ninguém conhece Elton pelo nome, e assim foi toda sua vida. O apelido Fubá foi dado pelo pai Geraldo, quando nasceu. A mãe, Patricia, conta que quando ele era bebê, sofria de um soluço constante. Dentre as simpatias que conhecia para melhorar o mal-estar do filho, ela tentou todas, inclusive uma que recomendava tirar um fio do pacote de fraldas de pano e colocar na testa da criança. Um dia, enquanto cozinhava o angu, contam que o pai recortou uma parte da embalagem do papel que dizia fubá e colou no bebê. Ele parou de soluçar.
Nesses 20 anos de trajetória, tem uma técnica que Fubá ainda não trabalhou: a fundição de metal. Ele conta que sonha em aprender e produzir alguma obra por esse meio. “Tem uma parte que você faz a escultura, depois a cópia em cera, o molde em gesso. A parte teórica eu já sei, mas seria fantástico aprender na prática mesmo, realizar uma escultura de metal”, anuncia.

Depois de algumas voltas por todas as rotas coloridas do museu, o relógio marca 17h. Fubá arruma suas coisas, sobe no carro, coloca uma música para escutar e dirige à própria casa, a 15 minutos do museu. Ao entrar e abrir a porta, se pode ver que mesmo dentro de casa, as esculturas estão presentes.
No quintal, ele segue fazendo arte, dando corpo a personagens em gesso, aprimorando a técnica e experimentando. Na sala, um objeto se destaca: é o busto de Fubá, feito em gesso pela dupla de artistas que trabalhou há 20 anos atrás no Inhotim. O cabelo black power e o estilo reggae marcaram a sua identidade na época e estão ali, imortalizados na obra de arte que os artistas lhe presentearam.
No pescoço da escultura, repousam mais de 30 medalhas de maratonas e corridas que participou. Além de artista, Fubá é ultramaratonista. Já correu provas de 112 quilômetros, em um total 14 horas de percurso. Na vida e na arte, ele é afeito às grandes distâncias, que exigem mentalidade serena e muita determinação.
Fubá é uma das pessoas que fazem, diariamente, o maior museu a céu aberto da América Latina existir. Seu trabalho está no material, na concretude, em tudo aquilo que é visível. E sua história nos conta que um museu também é feito do que não se vê.
*A repórter do Nonada viajou a Brumadinho a convite do Instituto Inhotim