Brumadinho (MG) – “Olha ali, sou eu”, diz Davi Gabriel, de 10 anos, ao apontar o dedo para uma pintura de 9 metros de comprimento e 1,36 metros de altura na entrada da Galeria Mata, do Instituto Inhotim. O entusiasmo do menino se explica: ele está retratado ao lado de outras 32 crianças e adolescentes negros na obra Fanfarra, a abre-alas de Dupla Cura, primeira mostra panorâmica de Dalton Paula. A pintura mostra uma banda tocando instrumentos, como caixas, sanfonas, bumbos, pratos, xequerês e trompetes. “Eu tô ali, tocando caixa, aquele instrumento que faz um barulhão”, detalha.
A trajetória do menino Davi e de Dalton Paula, reconhecido internacionalmente como um dos artistas de maior relevância da arte contemporânea brasileira, se entrecruzam por uma série de razões, a começar pela pintura. Como parte da série Infâncias Negras, Dalton pintou a obra de maior dimensão de sua carreira até então. Mas, como é comum na trajetória do artista, o “quadro” levou a um “extraquadro”. Ao procurar os jovens retratados na pintura, acabou por provocar o surgimento do primeiro Coral Negro do Estado de Goiás em 2025.
Nascido em Brasília em 1982 e baseado em Goiânia, Dalton apresenta uma produção cada vez mais envolvida com uma dimensão sociocultural que se torna tão importante quanto o que é produzido dentro do Ateliê. Em 2021, ao lado da professora Ceiça Ferreira, fundou o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, um espaço que oferece aulas de capoeira angola, cineclube, eventos culturais e residências artísticas no Bairro Shangrilá, Região Norte da capital goiana. O Coral surge anos depois neste mesmo espaço.
A possibilidade de participar do Sertão Negro, um quilombo-escola, onde se pode conhecer e experenciar diferentes linguagens artísticas e o próprio trabalho de artistas da região, tem transformado o caminho de adultos e de crianças como Davi, que esteve no Inhotim para abertura da exposição em abril deste ano. “Não existe outra pintura de crianças negras em uma banda marcial negra na América Latina. A gente é os únicos, por isso é muito importante”, argumenta Davi.
Quando começou a participar do Coral, aos 8 anos, o menino já sabia tocar alguns instrumentos, mas a vivência com a pintura, o canto e a capoeira surgiu dentro do ambiente do Sertão. “A importância do projeto para mim é porque eu acho que a gente tem que conscientizar as coisas negras nas escolas. Quando você vê uma obra do Coral, isso já vai ajudar”, opina ele.

Arte para ser lembrado
A exposição de longa duração no Inhotim apresenta uma visão ampla e inédita da produção do artista, cuja carreira completa três décadas de história no ano que vem. A curadoria de Beatriz Lemos reúne 100 obras, refletindo os diferentes suportes e trabalhos que o artista produz — pintura, vídeo, fotografia, instalação e performance. Entre eles, estão trabalhos que ainda não haviam sido vistos pelo público, do início da trajetória de Dalton, com ênfase na própria presença espiritual das entidades afro-religiosas ligadas às crianças, como os Ibejis e os santos Cosme e Damião.
“Eu fui uma criança muito enferma. Então, minha mãe fez promessa para São Cosme São Damião. No dia 27 de setembro, eu corria com meus primos atrás de doce de abóbora, pirulito, maria mole, suspiro. Tinha todo esse universo da doçura”, explicou Dalton na entrevista coletiva durante a abertura da mostra no Inhotim, à qual o Nonada esteve presente.
A presença das infâncias na mostra não é apenas figurativa, mas constitutiva. Se uma forma de alegrar os santos é oferecendo doces, Dalton produz obras que são como essas oferendas, parte de um universo cromático doce, suave, infantil. “As crianças se desdobram neste trabalho para pensar a alteridade e a questão da ludicidade. Tanto em referência às religiões de matriz africana, como uma coisa anti-guerra, porque as crianças vêm sempre com essa energia da brincadeira”, explica. “Foi esse o caminho pelo qual eu escolhi para tratar de questões como racismo, por exemplo. Essas questões que a gente vem trazendo no trabalho, mas tentando usar outros modos, como esse universo das crianças que são potentes e poderosos.”
A escolha de abrir a exposição com uma obra com laços que emergem do trabalho comunitário realizado no Sertão Negro mostra uma indissociabilidade entre as práticas do artista. Também retratada na pintura de abertura, Kauanne Inácio, de 14 anos, aparece na obra tocando trompete. Desde que o Coral iniciou, os jovens relatam uma sensação de liberdade em comum, expressas também no corpo de trabalho de Dalton. “É uma sensação diferente estar naquele lugar [no Sertão Negro]. Eles não te julgam, te aceitam do jeito que você é”, conta.
A viagem de avião para a abertura da exposição no Inhotim foi a primeira para muitos dos integrantes do grupo. Ao ouvir as crianças, fica evidente um aspecto da trajetória do artista: ele não anda só. Quando voa, muitos voam juntos.
A jovem Cristina Lopes, de 17 anos, conta que conhecer o trabalho de Dalton Paula mudou sua perspectiva sobre a vida. Ao passear pela exposição, ela sente uma grande identificação. As obras trazem a qualidade de leveza e de uma abordagem não-violenta das existências negras. “Eu era uma pessoa muito fechada, muito séria, e depois do projeto comecei a me expressar mais, porque a arte abre caminhos”, explica. “Esse lugar é a minha liberdade, foi o lugar onde eu pude me expressar. Antes eu tinha uma visão muito negativa de tudo e participar do Sertão fez eu ver o lado bonito das coisas.”
Para Emily de Almeida, de 17 anos, as obras do artista ressoam um sentimento difícil de explicar. “A arte dele é algo único, assim como a arte de outros artistas, porque tem esse olhar étnico-racial, de enxergar histórias e rachaduras dos povos negros que muitas vezes são apagados”, conta. “Ele também expressa a arte de ser criança. Eu fico encantada, porque ele, assim como os outros artistas que trabalham no Sertão, conseguem expressar críticas e reflexões que, muitas vezes, não se consegue dizer com palavras.”
O olhar iniciado de Dalton aparece nas diferentes séries que, já no início dos anos 2000, abordavam signos, fundamentos e celebrações. No transcorrer dos anos, tornou-se uma marca do artista sua habilidade de transformar os silêncios históricos em obras. Uma de suas séries mais reconhecidas se desdobra sobre os retratos de personalidades negras cujos rostos ainda não eram conhecidos. Através da fabulação, deu rosto à muita gente, no início pessoas históricas e depois outros protagonistas ainda menos conhecidos pela oficialidade, como as pessoas quilombolas, benzedeiros, raizeiras, mestres griôs.
Uma das seções da exposição reúne os retratos, mas Dupla Cura vai além ao apresentar pinturas dos cotidianos, das culturas populares, das festividades, dos mitos olhados por Dalton desde o interior do Brasil, em uma articulação contínua entre o íntimo e o político. As próprias cosmologias afro-brasileiras estão em evidência em diferentes obras. Enzo Gesiel, de 14 anos, diz que esse é um dos aspectos que mais disfruta da produção do artista, a dimensão espiritual inserida em tudo que pinta: “Eu aprendi muito com o Dalton, porque ele explica para a gente. Inclusive, a nossa pintura, ele nos contou o significado espiritual e religioso dela. Isso foi muito importante”, conta.






Pacto espiritual firmado
O conceito de Dupla Cura não se restringe ao título da exposição, mas a um próprio modo de pensar e de ser instaurado no percurso expográfico. Beatriz comenta que existe o duplo visual, observável nas telas, mas não só. “Sempre que há essa cura individual, ela é também coletiva, e vice-versa. Essa cura trata de Dalton, dos familiares, da própria história negra, e, de alguma forma, todos que entram na galeria”, analisa a curadora.
A presença do duo é uma constante, desde a representação dos Santos Gêmeos, São Cosme e Damião, como na divisão das obras, no espelhamento, nas imagens que apenas existem em par. A exposição também dá espaço para a série até hoje mais conhecida de seu trabalho, Retratos Brasileiros, em que dá rosto a personalidades negras que ainda não tinham representação visual na história. O conjunto foi tema da individual do artista no MASP em 2022 e compôs a exposição História Afro-Atlânticas em 2018. Na perspectiva de Lucas Emanuel, de 15 anos, participante do Coral do Sertão, essa é parte fundamental do trabalho realizado pelo artista: o reconhecimento de histórias ainda não contadas.
“O que o Dalton faz é marcar a história. Ele faz pessoas que não eram reconhecidas, mostradas, pintadas dentro das grandes mídias, sejam enxergadas”, reflete. “A arte transforma o mundo e faz com que pessoas que nunca seriam vistas pela sociedade, sejam vistas e lembradas. Porque a vida é isso: ser lembrado por alguém”, reflete o adolescente que durante a abertura, convidou o público a cantar junto a música Maria, Maria, de Milton Nascimento. “O Dalton fez uma obra para gente e ele vai ser lembrado por isso, para a gente ser reconhecido, para a gente ser contado”, define o menino.
Se nos últimos anos, Dalton Paula pintou o retrato de personalidades como Lima Barreto, Itamar Assunção e Ventura Mina, Lucas afirma que ter o seu rosto reconhecido em uma pintura do artista, tem um eco marcante na sua vida. “Talvez eu nunca seria conhecido, nem seu eu fizesse coisas incríveis e maravilhosas, mas aqui eu sinto que eu posso ser visto e lembrado por algo que eu fiz e contribuí”, conta.

O lúdico como força
A exposição apresenta dois vídeos comissionados, intitulados Tuntun Layò e Otá Layò. O primeiro, dirigido pelo artista e pela cineasta Urânia Munzanzu, mostra em uma sala de vídeo as festividades do terreiro Tuntun Olokotun, na Ilha de Itaparica, na Bahia. As crianças estão lá, novamente, como as protagonistas e donas da festa. Ao som dos àwon inxã [crianças no culto aos egungun], elas brincam enquanto protegem as memórias ancestrais. Ellen Moreira de Paula, de 10 anos, cantou, bateu palma, fez reza, e deu presente para os orixás no dia da gravação do filme. Ao se ver em uma tela grande pela primeira vez, relata a alegria que sentiu.
“Eu fiquei emocionada, com vontade de chorar, mas não chorei. Eu fiquei surpresa de me ver na tela e feliz por agora ser uma atriz”, conta. “Eu achei interessante falar da nossa cultura, da nossa religião, de como funcionam para a gente as coisas dentro. A gente interpreta para várias crianças que estão nascendo e também são da religião”, diz a menina, filha de Iemanjá e Iansã.
O segundo filme, também co-dirigido com Urânia, apresenta exatamente isso ao celebrar as elaborações filosóficas das crianças a partir de verbetes, que discutem se afinal, o rio tem vida ou não tem?. Dessa vez situado no quilombo dos Kalunga, maior território quilombola do Brasil, em Cavalcante (GO), o filme narra a história de Matheus e José, que ensinam os adultos a fazer festa e preservar as nascentes dos rios. Segundo Dalton, ambos tratam de um chamado: “Precisamos prestar mais atenção nas crianças”, sintetiza.

Ele conta que a própria formação do Sertão Negro está enraizada em uma aposta nas futuras gerações, na importância da memória. Ele mesmo se enxerga a partir de referências como Rosana Paulino e Eustáquio Neves e entende que a missão de construir uma escola de arte para artistas e jovens negros é também forma de dar continuidade de um legado herdado pelos que lhe antecederam. “É um compromisso que eu fiz com os meus mais velhos, de fortalecer as futuras gerações para que eles não precisem ter esses desafios que a gente teve.”
A atenção que Dalton presta nas crianças é evidente na produção, do início até a mais atual, mesmo. O lúdico, a brincadeira, o jogo da infância está expresso na própria abordagem de temas densos, que no seus traços, aparecem como um afago, de forma generosa – sem abrir mão da complexidade.
Exibida pela primeira vez ao público brasileira, a série Infâncias Negras, exposta na Lisson Gallery, em Nova Iorque, ano passado, representa, segundo Lemos, uma virada na pesquisa e trajetória de Paula. “Uma exposição panorâmica não é apenas uma reunião de obras. Ela nos dá a oportunidade de acompanhar a coerência do pensamento artístico”, destaca. “Dalton Paula é um dos precursores de uma gramática visual que reconfigurou a arte brasileira.”
Nos últimos anos, Dalton Paula integrou exposições internacionais de destaque, como a 60ª Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere e duas edições da Bienal de São Paulo, a 32ª, Incerteza Viva, quando apresentou sua produção em cerâmica sobre a Rota do Tabaco, e no ano passado, na 36ª Bienal, Nem todo viandante anda estradas: Da Humanidade como Prática, quando não mais o artista como indíviduo, mas o projeto Sertão Negro foi um dos convidados.
Na vida e na obra, os artistas pintam crianças negras que não estão sozinhas. São vistas em dupla, em grupo, em família, em ciranda. Rebate e questiona, portanto, todo um imaginário social das infâncias negras na história da arte. Uma característica se mantém nas produções mais recentes: o cabelo das crianças é feito de folha de prata, remetendo ao período colonial. O fundo azul esverdeado também segue presente, demonstrando uma continuidade no pensamento do artista desde a série de Retratos Brasileiros. Ele se pergunta: “Qual lugar as crianças querem estar?” e propõe novos caminhos, sempre guiados pelo protagonismo.
Dalton Menino
Se a infância é um tema de destacado interesse do artista, visitar o próprio tempo de menino de Dalton é também uma forma de acessar o nascedouro da sua produção. Ana Ivete, sua mãe, foi também a primeira marchant do artista, a pessoa que viu os rascunhos, as primeiras obras e que incentivou o seu crescimento. “Eu levava muito esses meninos [ele e o irmão] para exposições, para o teatro, porque eu sempre gostei de arte”, conta ela.
“O Dalton sempre gostou muito de desenhar”, lembra. Ana recorda dos primeiros desenhos, ainda com 12 anos, quando o filho desenhava os cavaleiros do Zodíaco no papel. O emprego no serviço público levou a família de Brasília a Goiânia, de onde não saíram mais. Foi lá que Dalton começou a estudar artes na Escola de Artes Visuais e, segundo a mãe, de lá seguiu sem nunca descartar o viés de experimentador que sempre teve consigo.
“Ele sempre quis estudar e fazer coisas longe. Fez engenharia da pesca, futebol, natação, karatê. Ele queria fazer todos os cursos que existissem. Gostava de estar sempre estudando”, comenta. Um trecho da biografia do artista que costuma ser lembrado é o fato de ele ter atuado 10 anos como bombeiro. Esse tempo também foi incentivado pela mãe, para que Dalton pudesse ter uma segurança financeira, já que demoraram anos para que o Sistema da Arte reconhecesse sua firme e brilhante produção. Ela lembra do dia em que Dalton disse: “Mãe, eu vou deixar de ser bombeiro.”
Ana Ivete incentivou que o filho percorre os próprios caminhos. “Você que escolhe o que você quer fazer”, costumava dizer. A mãe tem uma recordação privilegiada de um artista que se destacou desde a adolescência, em salões de arte locais e concursos. “A hora dele vai chegar”, pensava sempre, quando Dalton ainda não havia recebido o reconhecimento nacional e internacional que se soma hoje.

Duplo sonho
A cada vez maior ascensão de Dalton Paula no cenário artístico representou um momento de realização dupla de sonhos. Desde criança, a mãe do artista sonhava em conhecer Veneza — colecionando os famosos barquinhos do lugar. Juntos, ele e a mãe, viajaram à Bienal e a diferentes lugares e exposições de destaque realizadas pelo artista.
A relação da mãe e do filho configura parte importante da exposição no Inhotim. Para Dupla Cura, várias das obras, em especial as do início da produção de Dalton, saíram das paredes da casa de Dona Ana. Ela, em visita à mostra, aponta orgulhosamente para as placas que contam o nome da colecionista, em um gesto que, como o das crianças do Coral, também diz: eu estou aqui.
O propósito coletivo na vida-obra de Dalton Paula fica evidente quando ele fala do desejo de que “a marca Dalton Paula” se torne cada vez menor. Ou seja, que o Sertão, os projetos que envolvem o coletivo fiquem cada vez maiores no curso da própria trajetória. Na perspectiva de Ana, Dalton sempre demonstrou um desejo de criar em relação à comunidade, longe de uma visão individualista de artista. Se dentro de casa, a lição era de liberdade, também foi esse o fundamento que transpôs para as crianças e artistas que hoje usufruem do Sertão Negro.
Na abertura da exposição, que também deu início às inaugurações de 20 anos do Inhotim, o Coral do Sertão Negro se encontrou com a Escola de Música do Inhotim. As crianças cantaram e tocaram músicas juntas, unindo as infâncias de Brumadinho e de Goiânia, e, ao fim, conduziram o público em um cortejo pelos caminhos do museu. A pintura ganhou corpo. No exterior da galeria, existia um duplo da imagem. A Fanfarra se tornou convite para o público e anunciou, desde a energia saltitante dos Erês, que a cura começa com a celebração.
*A repórter do Nonada viajou a Brumadinho a convite do Instituto Inhotim



