Como as sementes e alimentos contam as histórias indígenas e quilombolas da Caatinga

Preservados pelas comunidades tradicionais da Caatinga, alimentos como umbu, mandioca e abóbora preservam memórias e culturas do bioma
Foto: Foto: Berna/Caatinga Climate Week

Serra do Ororubá (PE) — Antes de virar lembrança, a papa de farinha era feita no fogo. O cheiro vinha da cozinha da avó da professora quilombola Aparecida Nascimento Oliveira e atravessava a casa no Quilombo Estivas, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. Hoje, mesmo sem panela no fogão, a memória ainda aparece pelo olfato. Ela conta que, às vezes, acorda sentindo o cheiro daquele preparo, como se a comida ainda estivesse ali.

Ali na comunidade, a papa de farinha se junta a outros pratos que carregam afeto: doce de abóbora, galinha com xerém e peixe assado na palha de banana. “O preparo não é só comida: é história de família, é a ligação com os mais velhos e com o território”, explica Aparecida.

Na Caatinga, a cultura alimentar começa muito antes do prato. Está nas sementes crioulas, nas roças, nos quintais produtivos, nas casas de farinha, nos frutos nativos e nos modos de preparo transmitidos entre gerações. Em territórios indígenas e quilombolas de Pernambuco, alimentos como umbu, mandioca e abóbora ajudam a contar uma história que passa pela memória, pelo cultivo, pela espiritualidade e pela adaptação ao clima.

O bioma costuma ser reduzido à imagem da seca, do chão rachado e dos cactos. O retrato, porém, ignora um território diverso, exclusivamente brasileiro e fundamental para cerca de 28 milhões de pessoas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma corresponde a 10,1% do território nacional e a 53% da região Nordeste.

Nesse ambiente, comunidades dependem da água, dos solos para cultivo, dos alimentos, das matérias-primas, da polinização, da regulação do clima, da purificação da água e do ar e do armazenamento de carbono. A Associação Caatinga aponta que a região abriga uma das florestas semiáridas mais biodiversas do mundo, com mais de 3.100 espécies de plantas com flores e centenas de espécies de mamíferos, aves, anfíbios e répteis.

Semiárido, Caatinga e sertão, embora muitas vezes usados como sinônimos, não significam a mesma coisa. O semiárido se refere ao clima. A Caatinga envolve clima, relevo, solos, vegetação e fauna. Já sertão é uma designação mais ampla para áreas distantes dos grandes centros urbanos, com baixa infraestrutura e baixa densidade demográfica.

A diferença ajuda a entender por que a comida, nesses territórios, vai além da ideia de culinária típica. Ela nasce da convivência com chuvas irregulares e longos períodos de estiagem, mas também de saberes acumulados por povos que aprenderam a observar o tempo, guardar sementes e aproveitar o que a biodiversidade oferece.

“A ideia é dialogar e mostrar que esse bioma é estratégico. A discussão também passa pela cultura, porque entendemos que ela é fundamental para transformar os espaços e reafirmar esse vínculo. As pessoas escolhem viver neste lugar porque têm pertencimento e uma relação profunda com a cultura popular”, resume Carlos Magno, da coordenação do Centro Sabiá, organização que, desde 1993, atua em Pernambuco na promoção da agroecologia e o fortalecimento da agricultura familiar no semiárido.

O Quilombo Estivas, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, promove atividades contínuas que conectam as questões climáticas com a cultura. Foto: Berna/Caatinga Climate Week

A árvore que dá de beber

Mulher indígena do povo Kambiwá, da Aldeia Nazário, em Ibimirim, no Sertão pernambucano, Jaqueline Gomes de Moura fala da Caatinga como parte da vida cotidiana, da espiritualidade e da memória de sua comunidade. “Para o meu povo, esse bioma é fonte de alimento, medicina tradicional, cultura, espiritualidade e resistência. Cada planta, fruto, nascente e espaço do território guarda conhecimentos transmitidos entre gerações”. Ela é ativista ambiental, agente da cultura e liderança da comunidade, representando os Kambiwá em eventos no Brasil e no exterior.

Na infância, Jaqueline via os quintais e as roças produzirem boa parte do que chegava à mesa. Mandioca, milho, feijão, fava, batata-doce, beiju e mel misturado com farinha faziam parte do cotidiano. “Não eram apenas alimentos. Eram a expressão da nossa relação com a terra e da sabedoria dos nossos ancestrais”, relembra. Os mais velhos conheciam o tempo de plantar, colher e esperar. As mulheres ensinavam as crianças a aproveitar o fruto inteiro, fazer farinha, preparar beiju e guardar sementes para o próximo inverno.

Entre os alimentos que ajudam a contar a história dos povos indígenas do Sertão de Pernambuco, Jaqueline destaca o umbu, a farinha de murici e a farinha de mandioca. O umbu, conhecido como “árvore que dá de beber”, armazena água nas raízes e resiste a longos períodos de estiagem. É consumido fresco ou transformado em umbuzada, doces, geleias, compotas, sucos e licores. “O umbu nos ensina que a Caatinga é um bioma de abundância para quem conhece seus ciclos e respeita sua biodiversidade”, diz Jaqueline.

Na Aldeia Nazário, a associação de mulheres desenvolve produtos a partir de frutos como umbu, murici e caju. O trabalho gera renda, recupera práticas ancestrais, fortalece a autonomia das mulheres e incentiva a conservação da biodiversidade. A palha do ouricuri, também chamado de licuri, aparece em outra frente de saber: a produção de cestos, balaios, chapéus, esteiras, bolsas, abanos e peneiras.

A mandioca atravessa diferentes territórios da Caatinga. Entre os Kambiwá, aparece na farinha, no beiju, na tapioca e nos pirões. “A farinha talvez seja o alimento que melhor representa a organização comunitária dos povos indígenas”. No Quilombo Estivas, a mandioca também está ligada à memória alimentar e às receitas transmitidas pela oralidade. Registros do Conselho Regional de Nutricionistas da 6ª Região, feitos com moradores de Estivas, reúnem preparos como beiju na folha de bananeira, tapioca, munguzá, cuscuz temperado, galinha caipira, peixe na folha de banana, carne de sol com arroz e doce de abóbora. A oralidade aparece como caminho para a transmissão das práticas culinárias. A terra não é tratada apenas como lugar de moradia, mas como base de existência, laços familiares e resistência. 

O milho também se destaca nesse repertório. Surge no munguzá, no cuscuz, no xerém e nas roças citadas por lideranças indígenas e quilombolas. Feito com milho, leite, coco seco, açúcar e canela, o munguzá aparece como herança que atravessa gerações e aproxima matrizes indígenas e quilombolas no Nordeste.

A relação entre alimento, território e espiritualidade também é presente entre os Xukuru, povo indígena que vive na Serra do Ororubá, em Pernambuco. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), eles estão distribuídos em mais de 20 aldeias, em uma região de clima e solo variáveis, com áreas úmidas e outras extremamente secas, dependentes da chuva.

A Serra do Ororubá tem açudes e rios como o Ipanema e o Ipojuca, que cortam a Terra Indígena. Essa condição contribui para a fertilidade de parte das terras Xukuru e para o abastecimento de Pesqueira em períodos de seca. A maior parte da população vive hoje da agricultura, com plantações principalmente de banana, feijão, mandioca, milho e hortaliças, além da criação de gado leiteiro e cabras. Parte desses alimentos é vendida na feira de Pesqueira, cidade que reserva o sábado para a comercialização dos produtos dos Xukuru.

Com a reapropriação do território tradicional, os Xukuru fortaleceram atividades agropecuárias e passaram a participar do abastecimento local com hortaliças, inclusive orgânicas, frutas e leite. 

A roça na comunidade do Quilombo Estivas, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, onde vive a professora Aparecida Nascimento Oliveira. Foto: Arquivo pessoal

O doce, a avó e a memória

No Quilombo Estivas, a abóbora de leite mobiliza a memória das mulheres. O doce de abóbora, preparado com açúcar, coco, cravo e canela, exige tempo. O fruto é escolhido, cozido, amassado e levado ao fogo até dar ponto. Para Aparecida, o doce fala sobre a cozinha, mas também sobre as mulheres que guardam as sementes e a história local. “A comida nos conecta com nossas raízes e mantém viva a tradição quilombola”, indica.

No quilombo, o papel das mulheres passa pelas sementes, pelos pratos e pela memória. “São elas que cuidam das sementes, garantindo que a diversidade agrícola continue viva e que os alimentos tradicionais não se percam”, diz Aparecida. Essa atuação não se limita ao preparo dos alimentos. “As mulheres também são responsáveis pela transmissão da memória: contam histórias, lembram dos mais velhos, ensinam os filhos e netos sobre o território e sobre a Caatinga”. 

Doutora em Agroecologia e analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga, entidade que há 28 anos atua na proteção da região e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, Rayana Vanessa explica que a cultura alimentar do bioma reúne modos de vida tradicionais. “A agroecologia reconhece que os alimentos carregam histórias, conhecimentos, identidades e valores construídos nas relações entre pessoas, territórios e natureza”.

Da mesma organização, a coordenadora de educação ambiental Cássia Paschoal cita os quintais produtivos como espaços de cuidado, troca de conhecimentos e autonomia econômica feminina. O mesmo ocorre com as sementes crioulas, que ajudam a manter variedades adaptadas ao território. “Mais do que conservar recursos genéticos, as guardiãs de sementes preservam conhecimentos, memórias, práticas culturais e estratégias de adaptação construídas ao longo das gerações”, emenda.

Apesar da convivência histórica com o semiárido, as mudanças no clima já alteram a produção de alimentos em comunidades indígenas e quilombolas. Na Aldeia Nazário, Jaqueline relata que as chuvas estão mais incertas, a estiagem se prolongou e a falta de água dificulta cultivos tradicionais. “Muitas famílias já não conseguem produzir a mandioca, o milho e o feijão na mesma quantidade de antigamente. Algumas casas de farinha deixaram de funcionar”, resume.

Quando a roça deixa de produzir, aumenta a dependência dos mercados, e alimentos industrializados ocupam o lugar do que antes era cultivado e preparado no território. Segundo Jaqueline, a mudança ultrapassa a lavoura. “A mudança modifica a nossa cultura alimentar”.

Mario dos Santos Campos Júnior, mais conhecido como Marinho da Estiva, liderança do Quilombo Estivas e coordenador do movimento quilombola, descreve situação semelhante. “Hoje, plantar exige muito mais planejamento. Muitas vezes, as chuvas chegam fora do período esperado ou são insuficientes para garantir uma boa colheita”, relata.

Para lidar com esse cenário, o quilombo adota práticas como adubação orgânica, rotação de culturas, escolha de variedades resistentes e armazenamento de água em cisternas. Aparecida também cita a necessidade de rever o plantio. “Hoje, precisamos adaptar os cultivos, escolher sementes mais resistentes e aproveitar melhor cada gota de água”. 

As três gerações de mulheres da família de Jaqueline Gomes. Foto: Arquivo pessoal

O que se perde quando um alimento desaparece

A sobrevivência da cultura alimentar da Caatinga também depende da regularização fundiária e da proteção dos territórios. Jaqueline Kambiwá afirma que a demarcação das terras indígenas está ligada à preservação dos recursos naturais e à continuidade dos sistemas tradicionais de produção. “A demarcação das terras indígenas não é apenas uma questão jurídica; ela é uma condição para proteger os recursos naturais, recuperar áreas degradadas, preservar a biodiversidade e manter os sistemas tradicionais”. 

No contexto quilombola, Marinho diz que a titulação definitiva é base para garantir a produção de alimentos, a biodiversidade e os modos de vida das comunidades. “As comunidades quilombolas não são apenas beneficiárias de políticas públicas. Somos guardiãs da biodiversidade, da Caatinga e de conhecimentos ancestrais”. 

A dimensão do desafio fundiário é apontada por Antônio Crioulo, educador popular e dirigente nacional da Conaq. Segundo ele, Pernambuco abriga cerca de 300 comunidades quilombolas, das quais 206 são reconhecidas pelo governo federal, mas apenas duas possuem titulação parcial no estado. “Garantir o território das comunidades quilombolas é proteger o planeta”. As mudanças no clima, a falta de regularização dos territórios e a substituição de sementes tradicionais por variedades comerciais ameaçam não só a produção, mas também os conhecimentos ligados ao alimento.

Rayana pontua o risco da perda da diversidade alimentar e dos saberes associados ao cultivo, ao preparo e ao consumo. Na região, a ameaça atinge cultivos como milho, feijão e fava, além de alimentos da biodiversidade local. “Quando uma variedade crioula deixa de ser cultivada ou uma prática tradicional desaparece, perde-se também parte da memória, da identidade, da cultura alimentar e da capacidade de adaptação construída pelas comunidades ao longo das gerações”, alerta.

Jaqueline cita a escassez crescente do caroá, planta nativa usada na produção de fibras, artesanato e vestimentas sagradas. “Quando uma planta como essa desaparece, não perdemos apenas um recurso natural; perdemos parte da nossa memória, da nossa cultura e dos conhecimentos que foram transmitidos entre gerações”. Para Aparecida, o cuidado com a terra passa por cada elemento que sustenta a vida no território. “Precisamos pensar na Mãe Terra, que nos dá o sustento. Precisamos cuidar dela, porque cada semente, cada fruto e cada gota de água são presentes que garantem nossa vida e nossa cultura”. 

*O Nonada viajou a convite do Caatinga Climate Week, realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e o Centro Sabiá  

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