Conheça a companhia afrocentrada de balé que forma profissionais reconhecidos no mundo

Em cartaz desde 1988, o grupo afro já viajou a mais de 298 cidades e colaborou com a formação de pessoas de todas as idades em Salvador
Foto: MoviRio/Malani

Salvador (BA) – Internacionalmente baiano, o Balé Folclórico da Bahia é mais do que uma companhia de dança. É uma instituição cultural comprometida com a pesquisa, manutenção e divulgação das tradições populares, folclore e cultura popular baiana desde os anos 80.  

Em seus 38 anos, o Balé acumula turnês, prêmios e reconhecimentos internacionais, mas é no Pelourinho, centro histórico de Salvador, que este organismo vivo pulsa, resiste e transforma. Com uma programação diária que inclui projetos artísticos-culturais, sociais e apresentações regulares que lotam o teatro Miguel Santana, sua casa recebe bailarinos, alunos, colaboradores e público, majoritariamente negro, para uma imersão na dança afro-brasileira.

De 1988 a 2026, a companhia formou mais de 900 bailarinos que gingam na roda das culturas afro-brasileiras, utilizando-se de uma linguagem própria que inclui valores culturais populares da Bahia. Conhecido também pela sigla, o BFdB mostra ao mundo manifestações como a puxada de rede, o maculelê, o samba de roda, a capoeira, o candomblé, além de coreografias exclusivas. O popular faz parte do clássico e o clássico do popular.

Ao longo dos anos, o grupo criou uma identidade própria. Ao mesmo tempo em que traduz as influências do balé moderno e contemporâneo para a linguagem da companhia, nunca deixa de cultivar os pés e a cabeça nas raízes brasileiras. Para Walter Botelho, conhecido como Vavá, diretor e fundador do Balé Folclórico da Bahia, os projetos sociais sempre foram a base da instituição. “Os nossos projetos são contínuos. Eles têm sempre essa vertente voltada para o social e acontecem independentemente da gente ter qualquer evento ou programação artística contínua.” diz. Entre as atividades está o Balé Júnior, que ministra aulas a crianças de 6 a 14 anos há mais de duas décadas, e as oficinas de dança gratuitas, ofertadas desde o início do projeto. 

Fincar raízes para alçar vôos

A região central de Salvador sempre foi território do Balé Folclórico da Bahia, que, mesmo quando não possuía espaço fixo, mantinha seus ensaios em salas alugadas pelas redondezas. A companhia esteve presente em momentos importantes para o centro. Entre 1991 e 1993, o Balé foi convidado a se apresentar durante as inaugurações das três etapas do projeto de revitalização do Centro Histórico. 

Para Vavá, a partir desses eventos, o público baiano, de diferentes classes sociais, passou a frequentar o Pelourinho, observando a beleza e a importância de ter esse espaço reformado. Foi a partir daquele momento que olhos do mundo se voltaram para o Pelourinho, hoje um dos mais conhecidos pontos turísticos do país, embora também haja críticas sobre a gentrificação sucedida ali. 

O Balé que Você Não Vê é um espetáculo do Balé Folclórico da Bahia que homenageia a resiliência da companhia ao longo dos anos. Centrada nos bastidores e no esforço diário dos bailarinos, a apresentação mistura linguagens clássicas e contemporâneas a partir de referências afro-baianas. Foto: Divulgação

Foi em 1995 que o Balé Folclórico da Bahia começou a ensaiar no Teatro Miguel Santana, sua atual sede, espaço cedido especialmente para ensaios antes de uma importante turnê internacional. Após reforma, o espaço também passou a ser palco de apresentações da companhia, que durante 15 anos, transitou entre o espaço alugado, também no Pelourinho, e o Teatro. “A gente descia do nosso espaço lá em cima, 6 horas da noite, com roupa, com tudo, fazia apresentação, que terminava depois das 20 horas, e subia com tudo de novo, isso todos os dias de 1995 até 2003.” relata Vavá Botelho. 

Somente em 2003, após muito subir e descer ladeira, o reconhecimento internacional chegou, quando o Governo da Bahia, através da Secretaria de Cultura, passou o Teatro Miguel Santana para administração do balé.  Os membros do balé, de diferentes gerações, também sentem a ligação da Companhia com o bairro do Pelourinho. 

José Carlos Arandiba, Zebrinha, coreógrafo e diretor artístico do Balé desde 1992, relata que a presença do balé na região histórica é refletida para além da presença dos turistas, pois a localização facilita o trânsito dos bailarinos e equipe, movimenta as ruas, o comércio local e “dá a vida que o Pelourinho precisa”. 

Rose Soares, assistente coreográfica, que entrou como aluna em 1988, conta que o Balé não poderia estar em um lugar melhor e aponta a semelhança do bairro com o BFdB “Uma comunidade simples que  resiste na  preservação da cultura local.” Atualmente, a sede do Balé também serve de casa para outros projetos. 

O espaço é emprestado para ensaios de grupos de dança que não podem pagar por aluguel de um teatro para ensaiar, além de receber o Projeto Axé e Tv Pelourinho, como uma contrapartida social. “A gente tem esse projeto social de poder dar possibilidade a grupos como a gente há 38 anos, que não tinha onde ir. Esses grupos que não têm onde ir, que não têm onde ensaiar, não têm onde trabalhar. A gente abre para esses grupos aqui gratuitamente. É um retorno que a gente dá até para a própria sociedade, para a comunidade.” relata Vavá.

Neste espaço muitas histórias nasceram e floresceram. Adna Rodrigues, bailarina da companhia, conta que foi neste espaço que fez suas primeiras aulas profissionais de dança, em 2022, e onde realizou as audições para o elenco principal. “Estar naquele lugar é conviver com memória e resistência. É um lugar de trabalho, troca e reconstrução de uma nova história junto a tantos outros espaços culturais e comerciais que ficam lá. Para sempre guardarei no ‘okan’. Foi minha primeira casa na dança, onde aprendi a ser uma profissional.” conta ela.

A companhia contribui não apenas para a formação artística dos bailarinos, mas também para uma construção de identida política. Foto: Andrew Eccles/Divulgação


O balé feito de gente

Como uma organização viva, o BFdB é feito de gente. Homens e mulheres majoritariamente negros e baianos, que encontram no Balé um espaço de formação, acolhimento, desenvolvimento profissional e pessoal. A companhia realizou a formação de mais de 900 bailarinos, aproximadamente 50 músicos, 30 cantores, 60 técnicos, 20 de cada função (palco, luz, som). Em 38 anos, apenas 4 pessoas vieram de outros estados para integrar o elenco, oriundas de Minas Gerais, Alagoas, Sergipe e Rio de Janeiro. E apenas uma bailarina não negra, baiana, bailou pela companhia. 

O diretor artístico conta que a entrada de uma pessoa branca foi motivada por “necessidade e racismo” para realização de uma turnê internacional. “Antes de ser o Balé Folclórico que determinava as nossas diretrizes, que dava as ordens e as cartas. [os contratantes] disseram assim: ‘a gente quer, mas tem que ter pessoas brancas também, porque a Bahia tem branco, a Bahia tem mestiço, a Bahia tem mulato. E a gente quer também que no elenco tenha pessoas brancas.’ Foi uma exigência. 

Para evitar perder a oportunidade, ele aceitou a proposta. “Nós tinhamos que fazer, para mostrar trabalho e para abrir caminho. Escolhemos uma pessoa maravilhosa que a gente já conhecia, da área de dança. Ela não fez só esse projeto, ela ficou durante um bom tempo com a gente.” conta Vavá. Em quase quatro décadas de companhia, muitas pessoas beberam da fonte desta escola, aprenderam e ensinaram no universo da dança afro-brasileira. Alguns continuam na área da dança, lecionando e/ou pesquisando e outros, ainda que sigam profissionalmente por outros caminhos, levando o Balé Folclórico da Bahia como exemplo pelo mundo, como um espaço formado de profissões e identidade.

Corpo político


Para Zebrinha, seu maior legado é ter seus alunos alçando vôos. Assim como ele se reconhece como a soma dos seus ancestrais, contribuir com o desenvolvimento de jovens, também é uma forma de continuidade. Ele conta que muitos dos seus alunos entram no balé vistos como cidadãos de segunda classe e saem de lá com uma formação, sendo vistos com outros olhos pela sociedade e por eles mesmos, num processo de transformação pessoal.

Desde que assistiu à primeira apresentação do BFdB, Zebrinha conta que já sabia que faria parte da companhia, pois ficou encantado pela singularidade das danças tradicionais afro-brasileiras e seus figurinos ‘belíssimos’. Em 1992, foi convidado extra oficialmente para acompanhar o Balé e desde então seu nome aparece nos créditos como coreógrafo e diretor artístico. Com uma trajetória internacional, Zebrinha conta que sua erudição é afrocentrada e se soma aos princípios do balé, quando une dança contemporânea e moderna com a dança afro em suas criações. “Eu costumo dizer que o Balé Folclórico da Bahia é o meu corpo político.” declara.

Uma percepção semelhante tem Rose Soares, bailarina que ingressou no grupo em 1988 e, atualmente, trabalha como assistente de coreografia.“O balé Folclórico da Bahia foi relevante na formação da minha identidade”, define ela. O grupo lhe possibilitou uma formação de qualidade, com profissionais de referência em diferentes tipos de dança, como o balé, dança moderna, afro, aulas de capoeira e música. 

Hoje ela trabalha em expandir o que aprendeu para novos integrantes. “Tenho orgulho de fazer parte da história do BFB, porque estamos inseridos em uma luta contínua de valorização e preservação da cultura popular brasileira. Me sinto realizada, feliz por continuar formando pessoas não somente para o balé, mas para a vida.”

O bailarino José Carlos Arandiba, conhecido como Zebrinha, é coreógrafo e diretor artístico do Balé desde 1992. Foto: Andrew Eccles/Divulgação

“O balé acabou virando a extensão da minha vida”, conta Vavá Botelho. Ele conta que, embora não seja graduado em dança, teatro ou artes, sua formação em antropologia foi fundamental para conhecer o universo artístico-cultural da Bahia, a história da África, a sua ligação com o candomblé e abrir sua cabeça para o desenvolvimento do Balé Folclórico da Bahia. A partir da fundação da companhia, toda sua vida foi redirecionada para este propósito. Até hoje, depois de 38 anos, todos os figurinos do BFdB são lavados por ele, em sua casa. 

“Há 38 anos, as roupas do balé, do figurino, são feitas por mim e por minha assistente, Terezinha. Nós dois costuramos todo o figurino a uma semana do balé estrear. A gente comprou aqui na Baixa do Sapateiro o tecido, as pedras,a  linha, agulha, costuramos e bordamos e fizemos tudo em uma semana para o balé estrear. Desde então, essas roupas são lavadas na minha casa, por mim. ” A dedicação, porém, tem um custo. Ele conta que, desde a fundação da companhia, não costuma tirar férias e possui presença constante na sede do balé. Virou sua missão pessoal. A extensão da sua vida.

Circulação dentro e fora do país

Com ingressos esgotados e abertura de sessões extras, o Balé Folclórico da Bahia encanta plateias pelo mundo. Sua primeira turnê comercial ao exterior foi em 1994, durante a Bienal de Dança de Lyon, na França, onde 3 mil pessoas foram assistir ao espetáculo da companhia. Após isso, o Balé passou a fazer turnês internacionais praticamente todos os anos, com destaque para as turnês nos Estados Unidos, fundamentais para a carreira e sucesso internacional da companhia. Entre 1996 e 2001 o Balé circulava no país em média 5 meses por ano, com apresentações em 282 cidades diferentes, lotando os maiores e melhores teatros do país. 

Vavá Botelho acredita que essa aceitação se dá porque a dança é uma linguagem universal, que não precisa de palavra ou tradução, E dentro dessa universalidade, o balé folclórico tem uma linguagem única no mundo. “Balé Folclórico da Bahia só existe na Bahia e só somos nós. Não tem outro para concorrer, não tem outro igual.” 

Além do grau de competência, qualidade e excelência que lhes garantiram o status de melhor companhia de dança folclórica do planeta, pela Associação Mundial de Críticos, Prêmio de melhor companhia de dança do país pelo Ministério da Cultura (1993) e Fiat Brasil (1990), melhor pesquisa em cultura popular Ministério da Cultura (1996), entre outros reconhecimentos.

O espetáculo “O balé que você não vê” percorreu cidades pelo mundo em diversas turnês interais. Foto: Divulgação

Mas, apesar da grande circulação e reconhecimento internacional, o Balé Folclórico da Bahia enfrenta dificuldades para realizar turnês em solo brasileiro. Segundo Vavá, é muito caro circular pelo Brasil com uma companhia tão grande e, mesmo com leis de incentivo como a Lei Rouanet, ainda falta patrocínio. Em seus 38 anos,  o Balé Folclórico da Bahia acumula apresentações em quase 40 países, 282 cidades nos Estados Unidos e apenas 14 cidades no Brasil. Os grupos artísticos de teatro, de música e dança do Norte e do Nordeste do Brasil, compartilham uma realidade comum a do Balé Folclórico da Bahia: a dificuldade em penetrar no mercado comercial, com grandes empresas captadoras e patrocinadoras, concentrado no sudeste. 

Vavá conta que apesar dos avanços na comunicação com a internet e dispositivos móveis, ainda é muito difícil fazer contatos à distância. “A gente sabe que não tem a mesma sensibilidade, não toca do mesmo jeito. Eu não encontro as mesmas pessoas que as companhias do sul encontram nas mesmas festas, na mesma praia, nas mesmas estreias. Eu teria que sair da direção do Balé e viver lá, virar lobista, com minha pastinha embaixo do braço, mostrando de porta em porta. Essa distância dificulta muito.” relata.

Apesar da dificuldade de circulação, o Balé Folclórico da Bahia é bem recebido por onde passa, dentro e fora do país. Sua última turnê nacional “O balé que você não vê” foi um exemplo deste sucesso e perseverança, que pode ser conferido em um documentário homônimo disponível no YouTube, com direção de Glória Peres. O Balé Folclórico da Bahia enche o Teatro Miguel Santana, em Salvador, em todas as apresentações, há 31 anos e atualmente realiza uma pesquisa para entrar no Guinness World Records como a companhia de dança há mais tempo em cartaz no mesmo espaço com um espetáculo.

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