Talvez o sonho de muitos meninos gays afeminados seja poder acordar pela manhã com o rosto já enfeitado de strass e maquiagem. Ou então, levantar da cama performando canções de divas do pop quarto afora, inundando a sala de casa com movimentos de dança alheios à vigilância e repressão homofóbica. Ou, ainda, ter as suas paixões e aspirações apoiadas e incentivadas por quem os ama. Talvez a realidade de muitos meninos gays afeminados seja lidar com o fato de que a expressão de suas identidades, ao mesmo tempo que os liberta, também os afasta de quem, com alguma dificuldade, chamam de pai — a figura que, em virtude da homossexualidade do filho, se transforma numa presença fantasmagórica.
Esse pode ser um fato comum na vida de alguns meninos gays afeminados, ou pelo menos algo parecido com isso. Para Gugu, de 12 anos, protagonista de Feito Pipa, longa-metragem representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de 2027, as coisas são assim.
Criado pela avó, Dilma, uma professora aposentada acometida por Alzheimer, interpretada com excelência por Teca Pereira, Gugu (Yuri Gomes) cresce com liberdade para ser quem é e não poupa esforços para se cercar daquilo que é colorido e que reflete sua autoconfiança. Ainda que o brilho das saias plissadas e as coreografias ensaiadas das canções de Pablo Vittar estejam fortemente presentes em sua vida, o futebol também ocupa espaço em seu mundo de cintilâncias. A inclinação para o esporte aparece mais como uma maneira inconsciente de diminuir a distância entre ele e o pai, Batista, vivido por Lázaro Ramos, cuja ausência é compensada pela presença esférica da avó, relação que se torna o grande emblema do filme, do início ao fim.
Ao lado de Dilma, Gugu aprende sobre a nobreza de dançar forró aos sábados, sobre confiança, sobre ciúmes e sobre amor. Nos diálogos com a avó, entende que I love you significa eu te amo, e que o sentido da canção Time after time, de Cyndi Lauper, pode ser apreendido mesmo quando não se sabe a tradução, basta ter um destinatário. Essa relação de amor e cumplicidade é o principal combustível para que Gugu acredite piamente que, quando sai de casa pelas manhãs de bicicleta para encontrar com os amigos e fiéis escudeiros no descampado onde joga futebol, está indo, na verdade, salvar o mundo.
Mas como nem tudo são rosas, o mundo regado a lantejoulas do menino começa a ruir com o avanço do Alzheimer de Dilma, impulsionado pela secagem da barragem que engoliu parte da cidade onde o filme é ambientado – Quixadá, no sertão cearense, e arredores – e que motivou a morte da filha, mãe do protagonista. Conforme a água baixa e a parte da cidade antes submersa é aos poucos revelada, Dilma perde cada vez mais o contato com o real e se torna refém da confusão de suas memórias, esquecendo até mesmo quem é o neto, chegando a confundi-lo com a própria filha morta.
Impossibilitado de continuar sob os cuidados da avó, que passa a morar num asilo, Gugu passa a viver com o pai, a madrasta grávida e a irmã mais nova, a quem o pai demonstra amor e carinho sem reservas, amargando a vida do menino. O sentimento de inadequação e a sensação de não pertencimento enrijecem o que costumava ser espontâneo.
Se antes Gugu se despia temporariamente da maquiagem e das roupas brilhantes ao interagir muito brevemente com o pai, cujo primeiro contato com o filho na narrativa ocorre com o propósito entregar-lhe uma revista erótica com mulheres seminuas, quando passa a morar com ele, esses adereços fogem do alcance permanentemente. As roupas e os movimentos dançantes de Gugu perdem espaço. Ele se afasta do brilho e da expressão que antes tinha. Seu comportamento esmorece. A pipa que uma vez voou alto agora estrebucha rente ao chão, presa pela rabiola.

Com direção de Allan Deberton, que assinou o aclamado Pacarrete (2020), e roteiro de André Araújo, Feito Pipa combina a autenticidade da infância e a complexidade do drama familiar e de questões sociais, como a disputa pelo território e a misoginia na qual se enraíza a homofobia. A partir de uma linguagem cinematográfica que busca não deixar subentendidos na trama principal, o longa leva para as telas, sem medo, uma inflexão no lugar comum das infâncias queer, tidas como acontecimentos complexos de se lidar quando são, na verdade, mais simples do que aparentam. Tanto o diretor quanto o roteirista se inspiraram nas memórias de suas infâncias vividas em Russas, interior do Ceará.
Apesar disso, o filme peca ao não dar conta de algumas das simbologias sobre as quais a sua trama se sustenta, a exemplo dos motivos sombrios que levaram à morte da mãe de Gugu, que resistiu à implementação da barragem na cidade, bem como das consequências desse acontecimento central na narrativa na vida dos personagens. Com esforço, é possível entender as razões para o comportamento desvairado de Dilma ante o avanço do Alzheimer, o esvaziamento da barragem e a emergência da parte da cidade antes submersa, trazendo à tona o fantasma da filha.
Mas quanto às particularidades de Batista, personagem de Ramos, essas são pouco aprofundadas, e o longa perde a oportunidade de mergulhar na complexidade do personagem que, ora carinhoso, oral hostil, aparenta não ser essencialmente intolerante e homofóbico. Batista trabalha com abastecimento de água dirigindo um caminhão pipa, como se o seu ofício girasse em torno daquilo que levou o próprio filho a se tornar órfão de mãe. Com um trauma não trabalhado, o peso que Batista carrega parece não ser apenas ter um filho gay, mas também enxergar no menino a imagem da ex-esposa morta pela crueldade do interesse de gente poderosa.
Há momentos em que o não dito refina e sofistica a obra, criando intimidade entre ela e o espectador. Em Feito Pipa, essa intimidade se constrói a partir dos ditos, como as declarações de amor entre avó e neto, a cumplicidade evidente dos amigos e as afinidades do protagonista. Por isso, se torna importante evidenciar aquilo que parece primordial em sua espinha dorsal.
Sem abordar essas nuances sob um ponto de vista sensível e particular à trama, algo que comumente se atribui às obras concorrentes e vencedoras da maior premiação de cinema do mundo, o longa se envelopa numa narrativa repleta de elementos fortes e pouco explorados que está menos para uma candidatura ao Oscar e mais para uma exibição na Sessão da Tarde, algo que certamente não é um demérito, considerando a importância da mensagem sobre liberdade, amor, autenticidade e resistência que passa. E sem deixar de fora o humor, a comicidade e o fato de que, na infância, até a dor termina em gargalhada. Tudo isso na perspectiva de uma criança preta e viada.
Ao final, o que se sustenta é a força de Gugu e sua relação com Dilma, para quem se volta quando a repressão de si mesmo se torna insustentável e a distância do amor que conhece deixa de ser intransponível. Salvar o mundo também pode ser salvar a si mesmo. Salvar a si mesmo pode significar salvar a avó. Time after time.