Texto Henrique Coradini  

carlosA arte de Carlos Dias é fundamentalmente catártica. Em suas obras, observam-se explosões de criatividade quase primitivistas. São criaturas que remetem a imagens surgidas em manifestações de fantasia e criação infantis. Seres que, através de distintas disposições de cor e formato, ganham personalidade própria, ganham vida.

Parte de projetos musicais de suma importância para a música underground brasileira como Polara e Againe, o músico e artista porto-alegrense (que atualmente vive em Florianópolis) segue produzindo através de projetos lo-fi como Albertinho dos Reys e Walter & Reys, este último mantido à distância com o músico Matheus Walter.

No mês de Novembro, Carlos Dias esteve expondo suas obras na Galeria Península, em Porto Alegre, ocasião na qual conversamos com ele.

Nonada – De onde vêm essas criaturas que tu cria? De que carga surgiu essa estética adotada por ti em particular?

Carlos Dias – Acredito que do meu universo particular, das coisas que vejo e sinto, materializadas, expressões, camadas de pensamento, situações que são uma coisa e parecem outra, são coisas que povoam minha cabeça e pertencem a quem se interessa por elas. O trabalho começou no lápis e caneta Bic e foi crescendo.

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Nonada – Há algum tipo de planejamento ou elas advêm de algum tipo de experiência catártica?

Carlos Dias – A pintura é sim uma catarse. Acontece na maioria das vezes à noite, quando o silencio permite um estado no qual o inconsciente venha à superfície. A forma que ponho isso na tela não tem muita ordem, apesar de às vezes brincar com o planejamento das coisas, tipo riscar algo ao fundo, ou brincar com esquemas de proporção…Gosto bastante quando, sem planejar, uma obra vista de longe parece uma coisa e de perto outra, assim como quando o acumulo de elementos permite uma sensação de ilusão de ótica, as vezes dando até uma certa profundidade.

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Nonada – Boa parte da trajetória artística tem a ver com produção musical, hoje, atuando principalmente como pintor, a tua experiência como músico afeta de alguma maneira tua forma de criar?

Carlos Dias – Me considero um amador no que diz respeito à música. Faço música porque amo. Meu pai era músico, tocava blues (Flávio Chaminé) e sempre teve uma forma tradicional de me ensinar. Procuro quebrar regras e sempre fazer o que ”não pode”, então, muitas vezes, sei lá, nem considero música o que faço, e sim uma forma de expressão. Música é Napalm Death, Mozart, Cartola, etc. Assim como nos quadros, tento montar camadas de som tal qual em projetos como desenho cego. Atualmente tenho o projeto Google Glass, no qual rola bastante o uso de elementos da internet, vídeos do Youtube, e sobreposições. Apesar disso, adoro compor canções nas quais, apesar do ruído ou da má gravação, tenha algo no fundo que agrade, mas que precisa ser descoberto. Acho que, na verdade, procuro não pensar muito e fazer do jeito que der com uma boa dose de ansiedade. A forma que estou e o lugar onde estou sempre influenciam muito aquilo que crio.

Nonada – Hoje tu mantém um projeto musical com o Matheus Walter, o Walter e Reis. Como começou essa parceria?

Carlos Dias – Conheci o Matheus e a Virginia na época em que eles haviam feito o filme Eternau. A forma de fazer as coisas nos atraiu naturalmente e as diferença musicais me permitiram reviver aquilo que eu só via antigamente quando tentava montar banda entre pessoas com gostos diferentes. Hoje em dia isso é raro, já que é tudo muito segmentado. Nossos gostos encontram afinidade no apreço por bandas como Hollies, Shakers, trilhas de novela, trilhas de filmes obscuros, bandas de baile, discos de orquestra e gravações lo-fi. Eu já tinha o projeto Albertinho dos Reys, então começamos a brincar como uma dupla sertaneja, praticamente .

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Nonada – E como funciona essa dinâmica de uma banda produzir à distância?

Carlos Dias – O Polara continua, o Againe continua…E eu nem moro em São Paulo. Faço música – assim como arte – como uma forma de cura. Ainda que produzida desordenadamente e de uma forma catártica, o caos acaba tomado conta e a coisa acontece naturalmente. Procuro ir em frente, ainda que mergulhado em emoções e vivência, pra buscar coisas, alçar voos. Se alguém gosta já é muito legal, mas ainda me sinto um amador. Estou sempre tentando experimentar, sair da zona de conforto na hora de compor. Se fosse me manter tradicionalmente estaria tocando em alguma banda tipo Cryptic Slaughter até hoje.

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