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Edgar Scandurra e Nasi (d): velhos amigos retomaram parceria iniciada três décadas atrás

Fotos: Ita Pritsch

Quando um artista encerra as atividades, seja lá por qual motivo, e retoma anos depois, é inevitável que provoque alguma desconfiança nos fãs mais exigentes. Turnês oportunistas para engordar aposentadorias não são exatamente uma raridade – pra falar a verdade, a coisa se tornou tão banal que às vezes fica difícil saber quem está na ativa e quem não está. Por essas e outras, confesso que estava meio descrente ao me dirigir para o show do Ira!, domingo, dia 29 de março, no Opinião. Mesmo sabendo que a banda, com mais de 30 anos de carreira, sempre foi sinônimo de integridade.

Em um bar abarrotado, quarentões tomavam cerveja ao som de uma discotecagem totalmente voltada para o público daquela noite: músicas como Camila, Camila, do Nenhum de Nós, e Eu Sei, do Legião Urbana, aumentaram ainda mais o clima de nostalgia. Por essas e outras, a banda escalada para a abertura, DiAngelis, me pareceu um tanto deslocada. Não vou falar sobre o show dos caras porque não cheguei a tempo de vê-lo, mas, conhecendo minimamente o trabalho deles (algo mais próximo de Malta e Reação em Cadeia), fico imaginando a reação dos fãs do Ira! durante a apresentação…

Após quase uma hora de atraso, Nasi e Edgar Scandurra surgem no palco acompanhados de Daniel Rocha (baixo), Evaristo Pádua (bateria) e Johnny Boy (teclados). Uma coisa que chama a atenção logo de cara é que o vocalista perdeu vários quilos, aproximando-se de sua antiga forma. Se a primeira impressão é a que fica, ponto para o Ira!.

Scandurra, guitarrista brilhante e bom vocalista, continua sendo a engrenagem principal do hoje quinteto. Embora não seja o frontman, seu carisma no palco impressiona. Mas não há espaço para estrelismos, e o protagonismo é dividido irmanamente entre os dois velhos amigos, mais unidos do que nunca após toda a turbulência que levou ao fim da banda, em 2007.

O clima é de celebração, e o repertório, muito próximo do já clássico MTV Ao Vivo (2000), com acréscimos de canções mais novas (No Universo dos seus Olhos, de Invisível DJ, lançado pouco antes da separação), inéditas em disco (ABCD), faixas meio esquecidas (Arrastão, de Música Calma para Pessoas Nervosas) e covers (Foxy Lady, de Jimi Hendrix).

Representado por Rubro Zorro e Manhãs de Domingo, Psicoacústica, de 1988, é lembrado por Nasi como um “divisor de águas” na carreira da banda. Já o Acústico MTV, de 2004, deu uma nova vida a O Girassol, Tarde Vazia e Eu Quero Sempre Mais, que viraram hits radiofônicos, assim como Pra Ficar Comigo (Train in Vain, do Clash) e a então inédita Flerte Fatal, composta para o unplugged.

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Mais magro, Nasi mostrou estar em boa forma no show em Porto Alegre

Nem é preciso dizer que os principais clássicos têm presença assegurada. Nada menos que seis das dez faixas de Vivendo e Não Aprendendo, de 1986, foram executadas. E poderia ser mais, se Pobre Paulista não tivesse sido tachada de xenófoba (apesar de Scandurra negar a acusação e explicar a letra, é difícil não pensar isso). Bom, basta uma rápida pesquisada na internet para constatar que o Ira! tem deixado ela de fora de seu setlist. Decisão compreensível, especialmente nesses tempos de ânimos tão exaltados. E, vamos combinar, com canções como Dias de Luta, Gritos na Multidão, Flores em Você e Envelheço na Cidade no repertório, Pobre Paulista nem faz tanta falta.

Num agrado aos fãs gaúchos, a banda encerra o show com Bebendo Vinho, de Wander Wildner, que ganhou notoriedade justamente após a regravação do Ira! em Isso é Amor, álbum de covers lançado em 1999. Felizes por poderem dividir um palco novamente, Nasi e Scandurra agradecem a acolhida. Uma hora e meia de show, sem grandes surpresas, mas com as expectativas plenamente superadas e a desconfiança – se é que ainda havia alguma -, vencida.

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