Reprodução do livro Aldo Obino - Notas de arte (Crédito: Walter Fagundes)
Reprodução do livro Aldo Obino – Notas de Arte (Crédito: Walter Fagundes)

Existe uma Porto Alegre de galerias, exposições, artistas e debates imersa nas entrelinhas dos arquivos de jornais, pronta para receber o tratamento arqueológico – ou melhor, cartográfico – de quem quiser se aproximar da cidade e de sua arte de outros tempos. Não apenas do território urbano e de seus espaços culturais como mera descrição física, mas sim como emaranhado de experiências, ruas e corredores de sentidos móveis que tendem a formar muito mais labirintos do que linhas retas. Como observou Maurice Mouillaud na sua leitura cartográfica do jornalismo, os mapas (e os jornais) são condicionados pela perspectiva e suporte da projeção. Ou seja, nunca são reflexo. Das subjetividades de quem registrou e das condições históricas da imprensa cultural em cada época, emergem inúmeros mapas da cidade, também enquanto circuito de arte.

Na pluralidade de vias que os registros jornalísticos podem sugerir, está a contribuição de alguns sujeitos. Se resistirmos à tentação de rotulá-los a partir de certas características de sua atuação – conservador ou progressista, por exemplo –, eles podem nos surpreender ao ajudar a segurar a régua e o compasso, em relatos informativos, valorativos e também afetivos. Aldo Obino (1913-2007) foi um dos homens de imprensa que deixaram um vasto material para os “cartógrafos” da arte regional. Jornalista que por praticamente 60 anos narrou a vida cultural porto-alegrense, ele marcou suas coordenadas em seu tempo e guiou os seus leitores a partir de suas impressões e trajetos por Porto Alegre. Em uma coluna diária publicada entre 1937 e 1984 no Correio do Povo, chamada “Notas de Arte”, ele compartilhava as suas anotações.

A cidade como âncora  

Lembrado como assíduo frequentador de eventos culturais, Obino registrava praticamente tudo o que acontecia. “Sempre andava com um caderninho debaixo do braço, anotava tudo o que via e perguntava muito”, comentou certa vez Armando Almeida, artista plástico e ex-diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) falecido em 2013. Do seu “registrar tudo” surgiu um arquivo imenso de textos carregados de cenas da vida cultural local. Desse arquivo, podemos destacar tanto dados conjunturais sobre o circuito artístico da cidade, como quais espaços eram mais movimentados em que épocas, que artistas ganhavam proeminência, e que tipos de eventos eram mais frequentes ou prestigiados; quanto informações sobre os debates em voga em certos períodos, já que ele se propunha a mediar também opiniões e a avaliar. Ou seja, pelas “Notas de Arte”, é possível esboçar mapas não só de lugares, mas também de sujeitos, eventos e ideias, desenhando a partir das direções deixadas por um sujeito específico, o que engloba, é claro, silenciamentos, destaques e vieses.

Recortes da coluna Notas de Arte (Foto: Mariana Sirena)
Recortes da coluna Notas de Arte (Foto: Mariana Sirena)

Na projeção de que estamos falando, Porto Alegre ultrapassa o papel de cenário: ela é a âncora da narrativa de Obino, não apenas como o espaço que ele deveria “cobrir” enquanto jornalista, mas também enquanto elemento de participação direta na conformação da atuação dos artistas em pauta. A cidade que ele via nos anos 1950, por exemplo, era a que se modernizava, que tinha o seu centro verticalizado e seu perímetro urbano expandido, mas que, ao mesmo tempo, clamava por um intercâmbio cultural maior com outras capitais, precisava de artistas jovens, de novos espaços expositivos e de instituições para a guarda de acervos. Como uma “metrópole”, ainda que, em uma perspectiva relacional, na “periferia” do Brasil pelo olhar do colunista, a cidade construída pelo seu discurso tinha uma considerável efervescência artística. Ao mesmo tempo em que essa efervescência aumentava ou diminuía, o espaço urbano e a experiência do habitante citadino se modificavam.

Essas mudanças se refletiam não só no discurso sobre a cidade, mas também nos lugares que mais eram mencionados nas “Notas de Arte” – por vezes, museus ou galerias de instituições oficiais como o Instituto de Artes da UFRGS; por outras vezes, vitrines de lojas, associações estudantis, pequenos ateliês e saguões de prédios. Da mesma forma, a tematização de exposições de artistas jovens ou consagrados; de nomes locais, internacionais ou de outras partes do Brasil, é indicativa de como se conformava o sistema artístico de Porto Alegre em cada tempo, e das preferências do colunista de acordo com cada conjuntura.

Os mapas que se desprendem dos seus relatos, portanto, são mutantes, assim como são mutantes todas cidades “reais” ou imaginadas, e os próprios narradores dessas cidades. Nessas mutações há também espaço para o contraditório. Em certos momentos, a Porto Alegre do jornalista era incitada a olhar para o futuro, a propor e novas ideias, a agarrar o movimento do centro da cidade, e em outros, precisava recuperar o que existe no passado e buscar inspiração no rural. Por vezes a arte social de nomes como Vasco Prado e Glênio Bianchetti, principalmente no que diz respeito às suas atuações nos Clubes de Gravura, era mencionada como necessária a uma renovação de temas e formas. Outras vezes, a ligação desses artistas com posicionamentos políticos determinados era vista como uma ameaça a um ideal de harmonia, um risco para a arte e para uma suposta “ordem social”.

Entre traços e coordenadas  

O conservadorismo que ficou registrado em algumas pesquisas acadêmicas como marca da atuação de Obino é colocado à prova pelo acompanhamento próximo e pela forma descontraída com que o jornalista se aproximava de artistas de diferentes gerações, e das mais diversas filiações e estilos. Os “dissonantes” também estavam em sua coluna. Cristalizar a caracterização de certos agentes jornalísticos implica um perigo: o de fechar os olhos para o tanto de vias que eles podem nos abrir na nossa cidade, e o tanto de novos rostos que eles podem nos apresentar. Sim, a “nossa” cidade. O pronome possessivo na primeira pessoa do plural era empregado pelo colunista com grande frequência para se referir a esse espaço, que já abrigou tantas histórias que nos afetam até a atualidade. Por mais cambiante que seja, a Porto Alegre de hoje, de certa forma, é a mesma a que se referia o jornalista, e carrega um tanto de suas ruas e personagens.

O desafio de se deixar guiar por sujeitos como Obino pelos espaços jornalísticos e artísticos do passado tem uma grande recompensa: eles podem nos ajudar a traçar linhas sensíveis entre coordenadas geográficas, traços com múltiplas significações e caracterizações. Linhas que carregam a memória afetiva de quem viu construções se desmancharem e novas serem erguidas; de quem demonstrou que o museu de artes do Estado deveria ter um espaço próprio ainda na época em que ele funcionava dentro do Theatro São Pedro; de quem ia a exposições escolares e acompanhava a movimentação nos bairros. Linhas também que nos remetem a uma ideia de centro e periferia em nível nacional, e que nos faz reparar que tratar o eixo que ultrapassa Rio de Janeiro e São Paulo como “margem” não é coisa dos nossos dias.

Claro, esse “deixar-se guiar” vem junto com a necessidade de vestir os óculos da crítica e da atenção à História, para que não tropecemos nos labirintos dessa aventura.  Mas não seria surpreendente se esse traçar de conexões, sugeridas pelo avesso e pelo através dos jornais, nos carregasse até o nosso espaço contemporâneo de circulação. Se formos mapear a produção cultural de nossos dias a partir dos nossos jornais e jornalistas, encontraremos mapas tão plurais quanto, ou mais plurais ainda, do que os propostos por um único sujeito que carregava dentro de si tantas cidades? Caberia também perguntar: quanto da nossa cidade tem a cidade que Aldo Obino e outros homens de imprensa de outrora narraram?

* A autora defendeu, em 2014, no PPGCOM-UFRGS, a dissertação “O circuito artístico de Porto Alegre na década de 1950 a partir do jornalismo: análise da coluna ‘Notas de Arte’, de Aldo Obino, no Correio do Povo”.

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