veredas-banner-300x300px (1)O nome do livro chamou minha atenção, Sem gentileza (Dublinense, 2016). O título é um excerto do poema de Dylan Thomas (1914 – 1953), Do not go gentle, escritor favorito da autora sul-africana, Futhi Ntshingila. “A meu ver o poema é sobre a luta contra a morte. Sem gentileza é uma história sobre a luta para viver e sobreviver. Trata da resistência contra as probabilidades de morrer, de modo que este poema se encaixa como uma mão na luva”, explica ela.

Futhi é primeira escritora estrangeira que o Veredas entrevista. Isso só foi possível porque contei com a ajuda valiosa da poeta Giulia Barão e da professora doutora Aline Vanin, que traduziram as perguntas para mim.

Sem gentileza nos aproxima de um grupo de mulheres negras que vive na África do Sul, de diferentes gerações, cada uma delas com sua luta pessoal. O romance gira em torno de Mvelo e Zola, filha e mãe que vivem em condições de extrema pobreza. Contudo, no decorrer da história, que passa antes e pós-aparthaid (1948 – 1994), vão sendo apresentadas outras personagens que estão, de alguma forma, ligadas à dupla.

Sem gentileza nos aproxima de um grupo de mulheres negras que vive na África do Sul, de diferentes gerações
Sem gentileza nos aproxima de um grupo de mulheres negras que vive na África do Sul, de diferentes gerações

Deste modo, a narrativa nos dá a oportunidade de conhecer suas origens, medos, complexidades e, principalmente, força necessária para conviver num meio que teima em se insurgir contra elas. “Acho que, em vez de enxergá-las (as personagens) apenas como mulheres pobres, eu queria que elas fossem vistas como fortes, orgulhosas e capazes. A única história que costumamos ouvir é de que são pobres porque são preguiçosas e sem instrução”, me diz Futhi, por e-mail.

Esta é a primeira vez que o trabalho de Futhi é traduzido em outra língua. A escritora, jornalista e mestra em Resolução de Conflitos, nasceu em 1974 em Pietermaritzburg e, hoje, vive em Pretória. Futhi pertence à etnia zulu, uma de tantas outras que formaram a população da África do Sul. A identidade e a importância do resgate destes antepassados são explorados em Sem gentileza, assim como o valor dos idiomas das várias etnias.

Sem gentileza é o segundo livro da sul-africana. Sua estreia foi com Shameless, publicado em 2008. Nele, a prostituta Thandiwe narra suas experiências com os clientes, mostra os riscos aos quais é submetida, a violência que a circunda. É uma mulher que vive por suas próprias regras e não enxerga diferença entre o seu trabalho e os jovens que ocupam cargos como “juniors perpétuos” em empresas que os exploram. No passado ela perdeu sua mãe, ficando órfã, e precisou fugir de seus tutores para evitar a circuncisão. O título do livro, dúbio, brinca com a palavra “sem-vergonha”, podendo ser tanto um julgamento, como a ausência de tal inibição diante da vida.

O livro abre com uma dedicatória: “para as crianças que vivem às margens da sociedade e que passam por dilemas colossais. Suas vozes são importantes”. Virando a página, no capítulo 1, nos deparamos com Mvelo e Zola, filha e mãe, num funeral. A primeira, aos quatorze anos, “com a cabeça de uma mulher de quarenta”. A segunda, portadora do vírus da Aids. No caixão, a única pessoa que prestava assistência financeira, e, de certa forma, uma referência paterna para Mvelo, o ex-companheiro de Zola, Sipho, vítima de HIV.

A partir daí, vamos conhecendo aos poucos a realidade das duas, como também das demais mulheres que aparecem na história. Como pano de fundo, estupro, racismo, hipocrisia religiosa, pobreza, machismo e descaso. Assistimos a comovente relação entre mãe e filha e o contexto no qual estão inseridas, cenário este que permite a troca de papel entre as duas, dada a maturidade da Mvelo e a fragilidade física de Zola.

A escritora diz que o ponto inicial na criação de Sem gentileza foi Mvelo. Queria contar a história de uma criança, uma menina, e todas as probabilidades contra ela. “No assentamento informal (onde parte da história se passa) há um problema generalizado de homens mais velhos assediando as meninas sexualmente. Com este tipo de tema, é impossível não falar nas doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids”.

Durante a leitura, percebi que a narrativa é bastante direta, ágil, com poucos diálogos. É o primeiro livro que ela usa a terceira pessoa, me explicou. Em seu romance de estreia, Shameless, ela optou pela primeira. Futhi diz que ainda está experimentando o estilo que melhor se encaixa em sua escrita.

A literatura sul-africana trata de temas diversos, porém, Futhi não acredita que o assunto das mulheres que lutam à margem da sociedade tenha sido explorado o suficiente. Por outro lado, na opinião da escritora, se a abordagem do HIV e a pobreza não é feita adequadamente, pode soar oportunista. Talvez seja por isso que alguns escritores se mantenham longe delas, cogita a autora.

O livro da escritora foi lançado pela editora Dublinense em Porto Alegre (Foto: divulgação)
O livro da escritora foi lançado pela editora Dublinense em Porto Alegre (Foto: divulgação)

(…) Passavam momentos difíceis, principalmente quando chovia. A água entrava pelas rachaduras nas paredes. A natureza era cruel. Zola sentia-se como se Deus estivesse cuspindo nela e em sua filha (…) (trecho do livro Sem Gentileza)

A partir do quinto capítulo de Sem gentileza, o passado de Zola é apresentado: um amor, a gravidez precoce, a rejeição dos pais e a batalha de criar uma filha sozinha na periferia. Apesar das condições desfavoráveis, elas não são vitimizadas. Futhi sustenta que é de extrema importância mostrar que sim, há pobreza, mas as mulheres a enfrentam de frente, como pessoas que vivem da melhor maneira possível, dadas as circunstâncias.

Em uma passagem do livro, a jovem Mvelo precisa participar de uma sessão de teste de virgindade. As “testadoras” se preocupam com o abuso infantil e enxergam no teste uma maneira de resolver o problema. A prova serve também para que as mães tenham controle contra os abusos dos “tios”, seus namorados. Assim que a virgindade é confirmada, as avós recebem um certificado e as meninas são marcadas com um ponto em suas testas, indicando que são puras. Presas fáceis, já que alguns homens contaminados pelo HIV acreditam que, se transarem – no contexto do livro, estupram mesmo – com meninas virgens, podem se livrar da doença.

Correspondentes estrangeiros e tarados endinheirados amontoavam-se com câmeras para um circo carnal repleto de garotas imaculadas abrindo as pernas (…) Elas deitavam-se em filas, cada uma acompanhada de uma examinadora, e abriam as pernas. Com dois dedos de cada mão, a examinadora forçava a abertura dos lábios de suas vaginas, procurando por um “olho”; a vagina de uma virgem é fechada, como o botão de uma flor. Ao encontrar o olho, a examinadora erguia-se, posicionada no vão entre as pernas da virgem, e assentia positivamente (…) Haveria então muitos uivos de alegria das vovós (…)

Pergunto à Futhi a importância de se levar tais assuntos para a literatura, as diversas formas de violências sofridas por mulheres ao redor do mundo. A escritora destaca que todos sabem que elas estão lidando com dificuldades, mas não escrevem sobre isso. Não as tornamos personagens centrais na nossa narrativa. Nós as escondemos ou as enxergamos apenas como pobres, não como pessoas complexas, com sentimentos, pensamentos e capacidades de tomada de decisão. Eu queria lhes dar o centro do palco da existência, como seres humanos que amam e têm desejos para o futuro”.

A língua e a crise de identidade na literatura

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A escritora sul-aricana Futhi Ntshingila (Foto: divulgação)

 

Se há personagens em Sem gentileza que omitem suas origens, fingindo serem “americanos fajutos”, existem as que fazem questão de se agarrarem às raízes de sua história. A advogada bem sucedida, Nonceba, por exemplo, prima pela memória de seus ancestrais. Sua avó, chamada Mae, deixou os Estados Unidos, onde morava, para traçar suas origens até os escravos da África Ocidental e os povos nativos da América do Norte. “E, então, houve o execrável horror das violações de escravas pelos seus senhores, o que a tornou menos africana e mais exótica”. O objetivo de Mae, na África, era encontrar o homem mais negro que pudesse e se casar, fazendo com que suas crianças fossem negras, para que não tivessem a crise de identidade que ela teve.

Pergunto à Futhi se a valorização da língua materna e a busca pelas origens têm importância central para os personagens de Sem gentileza. “(isso) reflete o meu próprio processo de pensamento e valores, eu acho. África do Sul é multicultural, mas o inglês e o pensamento ocidental é dominante, a ponto de alguns jovens manifestarem algumas formas de crise de identidade”, relata.

Motivada por questões pessoais e também desejando enfrentar o cenário mencionado por ela, a própria escritora vem trabalhando na tradução de Sem gentileza para a língua isiZulu. Futhi conta que, apesar de o inglês ser uma língua presente na África do Sul, o idioma é mais utilizado e compreendido por muitos africanos negros. Há autores que escrevem diretamente no isiZulu. O mercado não é grande, pois as pessoas preferem o Inglês ou o Afrikaans. Os livros mais vendidos são na sua maioria nessas línguas. Ultimamente, no entanto, Futhi relata que há um incentivo para os escritores descolonizarem um pouco a literatura.

Eu poderia citar outros trechos, mas um em especial me ganhou. Quando li a descrição da personagem Nonceba. A narradora não descreve a beleza física da advogada apoiada nos atributos comumente destacados nas mulheres. Suas curvas femininas remetem a mulheres “como a forte e altiva rainha Ashanti, Ya Asantewa, Sojourner Truth, Nongqawuze, Ellen Khuzwayo, Lilian Ngoyi e muitas outras mulheres guerreiras do mundo”. Pronto. A autora deixa claro o significado da beleza e de onde ela vem.

Tenho curiosidade em saber um pouco mais sobre o cenário das escritoras negras, na África do Sul. Futhi conta que, no pós-apartheid, houve um crescimento constante das autoras, embora ainda lutem por reconhecimento. Em alguns casos, elas estão presentes apenas para preencher números de representatividade. “Nos meios de comunicação o nosso trabalho não é visto no mesmo padrão dos demais escritores. Branco é associado à qualidade, enquanto o preto é relacionado à narrativa local. “Recentemente uma nota no jornal Mail and Guardian perguntava ‘Onde estão as escritoras negras sul-africanas?’, o que foi uma surpresa, porque pensávamos que já existíamos”, finaliza Futhi.

Tradução: Giulia Barão e Aline Vanin

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