A primeira vez que o Carnaval subiu a Borges

A Subida da Borges reuniu integrantes de várias escolas de samba de Porto Alegre (Foto: Douglas Freitas/Nonada)

A Subida da Borges reuniu integrantes de várias escolas de samba de Porto Alegre (Foto: Douglas Freitas/Nonada)

O Carnaval de Porto Alegre é negro e está ameaçado de não acontecer. A Prefeitura deixou seu apoio à festa popular na campanha, e agora o maior medo das escolas de samba não é a contagem de décimos na apuração do desfile. O argumento da crise financeira é válido sim, mas por quê atinge a cultura negra em primeiro lugar? As comemorações farroupilhas e as festas regionais (cidade do queijo, terra da uva) não se sentiram desamparadas com os novos governantes. Sob esses fatos aconteceu a Primeira Marcha Popular pelo Carnaval, na última sexta-feira (20). A principal reivindicação foi a realização do desfile oficial, em caráter competitivo, no Complexo Cultural do Porto Seco.

A marcha nasceu com uma nova entidade: a União Carnavalesca Popular (UCP), que reúne diversas agremiações da Capital e Região Metropolitana. Além disso,  também aconteceu a 9ª Marcha Estadual Pela Vida e Liberdade Religiosa do Rio Grande do Sul na data, com o objetivo de que se crie a Delegacia de Combate à Intolerância Religiosa e ao Racismo, além do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Porto Alegre.

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Não parecia a primeira vez que a marcha estava sendo realizada. Mesmo sendo de diferentes escolas, todos que participavam tinham conhecimento das músicas cantadas, dos passos a serem dados, do quanto seria alegre. Isso porque o Carnaval de Porto Alegre é uma das maiores tradições do Estado. Ele se tornou forte, assim como no Rio de Janeiro, nos anos de 1980 tanto que “Kizomba: a Festa da Raça”, samba-enredo da Vila Isabel em 1988 foi uma das canções presentes no manifesto. Aqui, os anos de 1990 foram mágicos. A subida da Avenida Borges de Medeiros iniciou com “Festa de Batuque”, samba-enredo do Bambas da Orgia de 1995, e talvez o que mais representasse o momento. A letra presta homenagem aos Orixás, à ancestralidade do povo negro e critica a forma como o negro de religião é visto na sociedade. Xapanã, Sapatá, de aê, aê/ Não deixe nunca quem é da nação sofrer.

Na ocasião, também ocorreu a 9ª Marcha Estadual Pela Vida e Liberdade Religiosa do Rio Grande do Sul (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)

Na ocasião, também ocorreu a 9ª Marcha Estadual Pela Vida e Liberdade Religiosa do Rio Grande do Sul (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)

Arrancando do Largo Glênio Peres, a marcha despertou interesse de quem não tinha conhecimento do protesto. De pedestres que paravam por alguns instantes para observar a outros que registravam o acontecido. Taxistas se solidarizaram com a causa, pois o Carnaval é uma de suas fonte de renda no verão, já que a maioria da população viagem para outras cidades na época. “Tem que ter Carnaval, assim a gente trabalha”, falava um taxista para seu colega. Esse é um exemplo (de muitos) de que o Carnaval de Porto Alegre gera renda a milhares de pessoas. Chegando na Esquina Democrática, um dos membros da UCP pediu que o trio parasse por um momento. Os alabês (tamboreiros da religião) deram espaço a um grupo de harmonia típica da festa. Enquanto o cavaquinho era afinado, uma das frases ditas para quem ouvia as reivindicações foi: “Aqui na Esquina Democrática, nossos pretos se encontravam. Bem aqui nessa encruzilhada”. A menção foi à Esquina do Zaire, apelido do local por muitos negros porto-alegrenses. A referência foi da Copa de 1974, a primeira a ser televisionada. Na competição, a seleção do Zaire jogou e foi um choque para quem assistia ver um time apenas de negros. Logo, qualquer concentração de pessoas negras era chamada de Zaire.

A sequência foi dada com muitos sambas-enredo e uma bateria que misturava escolas como Estado Maior da Restinga, Imperadores do Samba, Império da Zona Norte, Academia de Samba Puro, Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos de Gravataí e blocos como Padedê do Samba e Turucutá. A sincronia dos instrumentos foi proporcionada pelas décadas de Carnaval na cidade. No instante em que surgiam a batida de um novo samba, todos já davam o grito de guerra da escola, seja ela qual for. A rivalidade carnavalesca existe sim, porém as letras que o Carnaval reproduz viram identidade cultural do povo. Assim foi com “Das maravilhas do Éden aos Sete Pecados Capitais”, de 1993 da Restinga e “Perfume, Um Banho de Cheiro”, de 1996 da Imperadores. Além de sambas populares como “Dou a Fantasia” (meu amor, não acredito que você se zangou) e “Se Papai Gira”.

Com muita disposição, a marcha foi até o Capitólio e dobrou na Demétrio Ribeiro, em direção ao Largo Zumbi dos Palmares, onde encerrou. No final flores foram entregues a Oxum pelos participantes da marcha. Esse foi o primeiro ato em defesa do Carnaval em Porto Alegre, como diz a própria UCP: Quem nos chamou, chamou pra ficar/ Somos a União Carnavalesca Popular!

Confira mais fotos da Subida da Borges:

Foto: Douglas Freitas/Nonada

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