por Leandro Melito, Ana Elisa Santana e Sueli de Freitas, da Agencia Brasil
Confira aqui o especial completo produzido pela EBC

Em outubro de 2017, o movimento artístico que ficou conhecido como Tropicália completa 50 anos. A apresentação das músicas Alegria, Alegria e Domingo no Parque, em 21 de outubro, durante a final do III Festival Record em 1967, marcaram o início de uma série de experimentações que permitiriam uma nova forma de compreender a música brasileira. Essas inovações estéticas continuam nos discos seguintes dos músicos Gilberto Gil e Caetano Veloso e no LP coletivo Tropicália ou Panis Et Circencis, o disco manifesto lançado no ano seguinte às apresentações no Festival da Record.

O clima tropicalista contagiou o Brasil, e a efervescência se estendeu até dezembro de 1968, quando Caetano e Gil foram presos e, meses depois, obrigados a se exilar do país. A ditadura militar (1964-1985) acabava de iniciar a fase mais dura com o decreto do AI-5. A repressão não deixou passar o trabalho dos tropicalistas que, naquele momento, tinham sua máxima expressão em um programa semanal exibido na TV Tupi, emissora extinta no ano de 1980.

O pesquisador Frederico Coelho, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e especialista em Tropicália, relembra o que foi o movimento e a obra:

Novo olhar sobre a MPB

No momento em que a Tropicália surgiu, o que predominava na música brasileira era a Bossa Nova, já com sua segunda geração de músicos; a chamada MPB ou Música Popular Brasileira, uma música politizada, que chegou a ser chamada de “canção de protesto”; além da música pop, representada principalmente por artistas da Jovem Guarda, liderados por Roberto Carlos e seu iê-iê-iê, que mimetizava Beatles e Rolling Stones. Era o auge da ditadura militar.

A radicalização política no país também se expressava na música, com a oposição entre os adeptos de canções de protesto e os fãs do iê-iê-iê. “Os tropicalistas buscavam justamente uma cena que fosse um pouco mais aberta, com menos preconceitos e mais liberdade de criação”, aponta Carlos Calado, autor do livro Tropicália: história de uma revolução musical, em entrevista para a Agência Brasil.

Multiformas

A Tropicália representou uma renovação no cenário musical do país ao investir em ritmos como o baião, bolero, marcha, música caipira, além de incluir a música pop e o rock. “A Tropicália era muito mais um ponto de vista crítico sobre a cena da música brasileira, sobre o repertório da música brasileira, do que propriamente uma maneira de se fazer música. Não existia uma forma tropicalista, na verdade os tropicalistas buscaram várias formas”, explica Calado. Passados 50 anos do movimento, o autor considera que o disco Tropicália ou Panis et Circensis representa hoje seu principal legado por permanecer moderno e desafiador.

“É um disco que não envelhece. Praticamente se tornou um clássico que você pode ouvir a qualquer momento e ainda se surpreender de alguma maneira”, considera Calado. Já Solano Ribeiro, idealizador dos festivais da Record, onde o movimento surgiu, considera que seu efeito principal se deu na época e reverberou na carreira de seus integrantes posteriormente. “Acredito que o Tropicalismo se perdeu no tempo. Ele não existe como movimento, ele existiu como um momento e ficou nesse momento”, destacou em entrevista para a Rádio Cultura de São Paulo por ocasião dos 50 anos da Tropicália.

O poeta e compositor Salgado Maranhão também considera que a Tropicália foi fruto daquele momento e teve o papel de abrir caminhos e possibilidades no campo artístico. “A Tropicália nos deu uma modernidade e uma ousadia que não tínhamos”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

Para o poeta e compositor Antônio Cícero, o mais interessante no tropicalismo foi o fato de ser um movimento de vanguarda ocorrido na música popular. “Foi através da Tropicália que eu rompi com essa separação radical entre a cultura erudita e a cultura popular. Foi muito importante para o Brasil, representou a liberação de todas as possibilidades para a música brasileira”, concluiu.

Uma “cruzada”

A expressão Tropicalismo, como se definiu o movimento artístico que começou a tomar forma no Festival da Record, em 1967, apareceu pela primeira vez em uma coluna do jornalista Nelson Motta, publicada no jornal Última Hora, em 5 de fevereiro de 1968, sob o título de A Cruzada Tropicalista:  “[…] um grupo de cineastas, jornalistas, músicos e intelectuais resolveu fundar um movimento brasileiro mas com possibilidades de se transformar em escala mundial: o Tropicalismo. Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra ainda desconhecido.”

A ideia repercutiu em outros jornais e ganhou respaldo de um dos integrantes do movimento, o poeta piauiense Torquato Neto, que endossou a ideia de Motta em um texto intitulado Tropicalismo para Principiantes. Torquato não achava que o movimento fosse vingar. “A moda não deve pegar (nem parece estar sendo lançada para isso), os ídolos continuarão os mesmos – Beatles, Marilyn, Che, Sinatra. E o verdadeiro, grande Tropicalismo, estará demonstrado”, traz o texto.

Havia algum tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil discutiam um nome para a experiência musical pela qual estavam se dedicando. Chegaram a utilizar “som universal” e “som livre” para definir a nova proposta. Por fim, se renderam ao Tropicalismo, que se espalhou rapidamente.

Em entrevista à Rádio Cultura de São Paulo, em dezembro de 1967, Caetano explicou que não concordava com o termo “música universal”, mas o utilizava para facilitar a comunicação com a imprensa: “Essa ideia de som universal é muito fraca, muito vaga, estou trabalhando ainda hoje numa cultura interna. Acho que estou fazendo música no Brasil, brasileira e para brasileiros”, afirmou Caetano naquela ocasião.

Entre os anos de 1967 e 1968, diferentes formas de ver aquela empreitada apareciam entre os integrantes do movimento:

“O que é o Tropicalismo? O Tropicalismo é você fazer o que você está com mais necessidade. É o exercício de liberdade, é mil coisas, você pode dizer mil frases a respeito disso, mas de fato nenhuma frase resolve.”

Torquato Neto, meses após o lançamento do disco-manifesto Tropicália ou Panis Et Circensis

“Tropicalismo é isso, apenas a tentativa de enfocar, essa geleia geral, essa contradição, as contradições existentes dentro dela mesma, o subdesenvolvimento querendo se autodestruir, por isso mesmo se autossuperar.”

Gilberto Gil, em 1968

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