por Ronald Augusto*

Com uma frequência que só se explica por já ter se tornado um lugar-comum, me deparo de quando em quando com o chiste segundo o qual quem lê poesia são os poetas apenas. Ao menos uma vez sejamos sérios e digamos a coisa tal como ela é. Com efeito, os poetas formam boa parcela dos leitores de poesia, mas não apenas, e esta realidade se pode verificar também no que toca aos leitores de prosa. O público leitor de contos, romances e coisas afins, por estranho que pareça, é também constituído de contistas, romancistas e prosadores de variada tendência e, até que o contrário seja provado, não temo afirmar que este povo é, proporcionalmente, tão numeroso quanto o dos poetas que se voltam criativa e rigorosamente para a produção dos seus pares. Faço esta constatação a partir de dados empíricos acumulados ao longo de uma série de oficinas e cursos de criação textual que venho ministrando já há alguns anos.

No entanto, para que minha posição nesta discussão não seja interpretada como leniente com relação aos dilemas do fenômeno poético e seus desdobramentos mundanos, vamos supor que, a par do seu público considerado restrito, a poesia ainda seja consumida de preferência pelos próprios poetas. Ora, poder-se-ia dizer que isso representa um traço de nascença da poesia. Esta forma de linguagem cujo tratamento dispensado à língua e à pertinência conceitual se dá no âmbito da anomalia e no lugar-incomum da privacidade. Este “jogo jogado no gueto” vem se construindo (ou se desconstruindo), com interrupções, avanços e recuos, desde períodos remotos, e, em certa medida, sempre em atrito com as regras exteriores e públicas do discurso.

A linguagem da poesia não é, mesmo, para qualquer um, no sentido em que ela teria sido inventada para ir ao encontro ou atender à demanda de um determinado público; não. O movimento é inverso. A poesia engendra o seu público e, se necessário, mais adiante o descarta. De fato, não existe o “público apenas leitor” de poesia porque não há, a rigor, o falante de poesia como há, por exemplo, o falante de inglês, de alemão, de iorubá, de português. É neste sentido que a poesia, segundo Carlos Drummond de Andrade, se converte nesta linguagem de alguns instantes. Uma língua-linguagem efêmera que se inventa ao inventar o seu leitor-falante e os modelos de sensibilidade que ele desentranha de si no agora impreciso e irredutível da leitura criativa.

Sou tentado a afirmar, além do mais, que a poesia que na verdade funciona está quase sempre a um passo da intransitividade, da impertinência, da opacidade, da marginalidade, enfim, de um pathos que se nutre de professar nenhuma profissão. Naturalmente há riscos de peso em tal empreitada. A função comunicativa da linguagem, centrada no destinatário, por exemplo, fica relegada ao segundo plano. Por isso há algum sentido no emprego da metáfora do gueto para se referir a esta a condição algo insidiosa da poesia contemporânea. Podemos mesmo identificar no estágio atual da poesia a ratificação de um círculo vicioso de referências recíprocas e autorreconhecimentos que resulta numa espécie de consenso em torno do virtuosismo técnico, de uma empostação cult, mas sem razão de ser e da competência travestida de esnobismo. Esse recorte me parece preferível à exegese consagrada e consagradora do “controle institucional da interpretação” que, às vezes mais, outras vezes menos, é obra tocada pela academia, pelos jornalistas e colunistas da imprensa especializada, pelo mercado livreiro-editorial e pelos intelectuais medianos ocupantes de cargos públicos ou de instituições privadas aparentemente interessadas em questões culturais. Ou seja, tal crítica além de nos desvelar um panorama cujo diagnóstico indica um processo de decadência, marca um parti pris contra a presunção de uma interpretação pasteurizante e autocentrada, que tenta moldar a prática poética de modo a fazer com que sua existência se justifique apenas para servir às necessidades desta mesma interpretação, refém de uma série de interesses e imposturas.

Uma leitura assim, portanto, se justifica, e parece mesmo difícil contradizê-la. Entretanto, alguma coisa não cai bem, resta um ruído. O problema reside, me parece, no seguinte: pode ser que tal perspectiva crítica se apoie em uma dicotomia um tanto quanto improdutiva, isto é, a dicotomia entre a poesia da contemporaneidade e a da tradição. Os resultados de um debate que tem por escopo um conflito dessa ordem não são senão aporéticos. Todos parecem ter argumentos de sobra para defender a supremacia moral e a beleza de uma sobre a outra. Assim, levar a efeito a crítica às contradições da poesia produzida hoje, porém ratificando mais aquela glamourização e reverência excessivas de que dispomos com facilidade quando somos provocados a pensar os clássicos, do que investigando em profundidade a complexidade subjacente à pele do aparentemente frívolo – que vem a ser maneira pela qual se nos apresenta o poema do nosso tempo –, pode ter consequências de cunho retrô. Essa crítica parece pouco disposta a aceitar o fato de que as obras canônicas são submetidas a constantes interpretações e atualizações. Não são, de modo nenhum, marcos fixos de uma narrativa progressiva. De outra parte, elementos vivos da música verbal do passado estão imbricados mesmo nas leituras mais originais com que tentamos interpretar ou representar o presente. O agora indecidível arranca o passado ao seu não-movimento. Só a mobilidade que conquistamos para o passado e a tradição, justificaria esta atenção especial e instintiva que devotamos ao presente irredimível.

Talvez o que desagrade ou cause algum embaraço (a uns e outros) na poesia contemporânea seja o “mundo às avessas” que, a medo, vislumbramos nas lacunas, nos intervalos de sua signagem produtora de sentidos muitas vezes equívocos, frente aos quais ficamos refratários ao apetite de investir nossa parcela de pensamento.

A literatura participa do conjunto das manifestações artísticas. Embora isso provoque um baita desconforto à maioria das grandes editoras, a literatura degenera quando dá as costas ao seu impulso de arte, ou quando é deprimida a sua vocação para a multiplicidade de sentidos. Sendo assim, para a literatura importa mais a releitura do que a leitura. À perspectiva atacadista do mercado editorial interessa a “leitura”. Mas o que faz a literatura, numa época multimídia como a atual, ainda ser alvo de interesse, inclusive em suas manifestações mais antiquárias, é a releitura. E quem se dispõe, para o bem ou para o mal, a enfrentar esta tarefa é na maioria dos casos o próprio produtor, não importando o gênero que pratique, seja o conto, a poesia, o romance ou o ensaio.

*Ronald Augusto é poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013) e Nem Raro Nem Claro (2015). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com