por Júlia Manzano

Esta crítica é parte da cobertura do primeiro final de semana do 46º Festival de Cinema de Gramado e foi assistido no dia 18 de agosto de 2018.

Em Benzinho, o novo filme de Gustavo Pizzi, o filho primogênito de uma família de classe média baixa chega na sala de jantar radiante de felicidade: ganhou uma bolsa para jogar handebol profissionalmente na Alemanha, e deve embarcar em breve. Seus irmãos o abraçam. Seu pai fica nervoso. E sua mãe sorri de forma hesitante. Mesmo sabendo que da importância da notícia para o filho e do lado positivo que isso pode ter, ela sofre.  E é nessa complexidade e sinceridade – tão comum do amor – que reside a beleza de Benzinho.

No filme, Irene (Karine Teles) é a jovem mãe de quatro meninos e vive pacificamente com o marido Klaus (Otávio Muller) no interior do Rio de Janeiro. Juntos, enfrentam problemas financeiros e tentam criar os filhos da melhor maneira possível. O primeiro conflito do longa é justamente quando Fernando (Konstantinos Sarris), seu filho mais velho de 17 anos, recebe a proposta acima citada. Nesse turbilhão, Irene, o marido e os outros três filhos começam a adaptar suas vidas para a partida do menino, que desempenha um importante papel dentro da família – seja como babá dos irmãos mais novos, seja como apoio emocional para seus pais, já que o adolescente claramente se mostra maduro e responsável em tela, mas nada que destoe muito de como um jovem rapaz se comportaria.

Foto: Divulgação

 

O longa se esforça para não romantizar nem demonizar relações familiares. E em uma época de tanta exaltação à família (chega a ser assustador), é muito satisfatório poder apreciar uma família comum e cheia de defeitos, mas que funciona e na qual as pessoas se gostam, se apoiam, brigam e discutem o tempo todo, encarando essas questões como o preço de uma boa convivência humana.

Mas o filme não é isento sobre o quão problemáticas algumas dinâmicas familiares podem ser. Um exemplo é a cena onde Irene, por alguma razão, romantiza a casa onde trabalhou como faxineira quando era criança defendendo que ela recebia um salário – mas ele ia todo para seu pai. Klaus se indigna com essa situação e aponta as contradições e os absurdos de adultos obrigarem uma criança a trabalhar. O filme também explora, nesse ponto, as conflitos de classe e de gênero que marcaram a infância da protagonista e como, até hoje, isso reflete em quem ela é e nas relações que mantém.

E é impossível falar do sucesso de Benzinho sem falar do talento de Karine Teles. É quase inacreditável que, há apenas três anos atrás, ela interpretou a terrível patroa de Regina Cazé em Que Horas Ela Volta. A atriz escreveu o roteiro de Benzinho junto com o diretor, sendo uma das razões pelas quais ela está tão confortável em tela. Irene é uma super mãe, uma super mulher, extremamente humana e cheia de defeitos, mas é facilmente compreensível o porquê aquela mulher é tão amada e admirada pelos filhos e pelo marido. E é delicado e admirável que, mesmo mãe de quatro, ela tenha aspirações e desejos próprios e, ao realizá-los, ela seja parabenizada pela família, nunca ficando em segundo plano apesar de também ter um papel central e essencial na família carioca. Os planos em seu rosto deixam claro que quem está conduzindo aquela história é ela, e que os filhos e o marido orbitam ao redor daquele universo que ela oferece.

Foto: Divulgação

 

Falar aqui que Irene é uma super mãe não isenta a responsabilidade de Klaus, já que, mesmo tendo bem menos responsabilidades domésticas que a parceira, ele é um marido legal, sendo uma representação masculina decente na tela. Ele se esforça e é competente, levando a sério a função que precisa exercer para aquele núcleo familiar junto com a parceira, em pé de igualdade.

E há outra personagem maravilhosa na produção. Adriana Esteves (que atriz!) está maravilhosa ao dar toda a complexidade que Sônia, irmã de Irene, merece. Doce e responsável, ela é vítima de violência doméstica, o filme dá atenção para que sua relação com o marido Alan (Cesar Troncoso) seja complexa sem passar pano para a atitude abusadora do homem. O filme nunca deixa essa questão em segundo plano, tratando a dinâmica de ambos sempre como uma bomba prestes a explodir mas com várias nuances. E Gustavo Pizzi é elegante ao não precisar mostrar cenas de violência para mostrar o quão perigoso aquele homem pode ser. Basta que Alan levante a voz para que a plateia se encolha no banco e fique com receio pelo bem-estar de Sônia.

Foto: Divulgação

E aqui vale a pena marcar que Alan não é um homem louco, fora de si ou psicopata. Apesar do filme o colocar como usuário de drogas (mas sem explorar muito bem a questão), ele é um homem normal que abusa fisicamente da esposa, que sabe que está errado, pede perdão e garante que vai mudar – algo clássico dos ciclos de violência. Mas nunca muda.

O filme também acerta em questões mais técnicas. A arte é impecável ao mostrar a casa da família, ao mesmo tempo um ambiente bagunçado e (literalmente) caindo aos pedaços como acolhedor e confortável. A casa funciona como uma espécie de alegoria do que aquela mãe está passando ao deixar o seu primogênito partir e das novas relações e dinâmicas – a nova casa – que está construindo com seus outros filhos. Por serem uma família de classe média baixa, nada que os pertence é novo ou chique, mas o filme não comete o erro de tantas outras produções brasileiras – especialmente novelas – de dar um ar cômico ou suburbano para tudo o que não é o luxo da classe média/alta.

Apesar de todas as temáticas e abordagens acima citada, Benzinho não é um filme que se perde em diversas linhas narrativas. Os personagens são tão realistas que o filme não perde tempo investindo em humores baratos ou piadinhas sem graça para ganhar sua audiência. Pizzi, com elegância, tenta o tempo inteiro trazer os personagens – em especial Irene – para perto de nós, seja a partir de experiências ou de sentimentos já vivenciados. É a vulnerabilidade e o realismo daquelas situações que nos cativam. E é claro, usa o afeto como linha condutora de tudo.

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