por  Gesiele Lordes

De dia, Sílvio Farias era o pobre que não tinha mais do batatas cozidas para comer. De noite, se transformava no pintor talentoso, fã de Van Gogh, que aparecia na TV e na coluna social. Prestes a completar 40 anos, abriu mão da estabilidade de um emprego fixo e desistiu de um casamento para viver da — e para a — arte.

Sétimo de nove filhos de uma família na qual todo mundo deixava a escola pouco depois de entrar, Sílvio Roberto de Farias sempre soube que seria artista. Sem habilidade para os esportes, o menino nascido em 1960 no bairro São José (Lajeado/RS) sentava na calçada e riscava o chão com uma pedra enquanto as outras crianças jogavam taco na rua. Impressionados, adultos paravam para saber quem era o autor daqueles traçados.

Em sala de aula, o menino desajustado compensava a fala limitada com desenhos. Qualquer papel entregue pela professora virava tela. Chegou a ser encaminhado para a psicóloga do colégio, tamanha era sua obsessão. Ninguém entendia porque o pequeno gostava de um assunto tão distante da realidade que viviam. “Provavelmente, é herança do avô materno, um espanhol da Catalunha que gostava muito de ler”, comentava uma tia.

O mais perto de um artista que o garoto Sílvio conhecia era Tafú, um negro albino que viajava tocando violão na tentativa de ganhar alguns trocados. “É bom mesmo, chegou a tocar ao lado do Teixeirinha”, diziam os adultos. Foram pessoas da comunidade que construíram um casebre para que o andarilho tivesse um teto sobre a cabeça, nos fundos do campo do Esporte Clube São José (onde o pai de Sílvio era zelador, garantindo moradia para toda a família, na casa principal).

Mas Tafú era um nômade, o retrato fiel do artista sem rotina ou destino, que vive da bondade alheia. Por isso, ninguém estranhava quando ele sumia. Se o cheiro da decomposição não tivesse empesteado o lugar em um domingo de jogo, talvez nunca tivessem encontrado o corpo do negro branco caído na casinha.

“Se eu insistir na arte também vou acabar assim?”, questionava-se o menino.

De qualquer forma, o contato de Sílvio com os estudos foi abreviado. Quando a professora mandava abrir o livro, que seus pais também não tinham dinheiro para comprar, tentava espichar os olhos para o material do colega ao lado. Mas a aparência de um menino que fez xixi na cama até os 12 anos, não tinha uniforme, nem sapato algum, afastava os demais.

Gostava de aprender, mas passou a odiar a escola. Foi reprovado. Um ano mais tarde do que os irmãos, aos 13, teve que deixar as aulas para ingressar no ramo que o pai acumulava com a zeladoria: a construção civil. Sabia que, se havia algum privilégio em ser servente de pedreiro, se limitava ao núcleo familiar. Todas as noites, o patriarca cortava uma linguiça e comia a maior parte. Afinal, era preciso estar bem alimentado para trabalhar na obra.

O pedaço menor era entregue à esposa. A mulher ainda dividia a porção em quatro pedaços do tamanho de uma moeda — para si e para cada um dos três filhos menores. Aos outros seis, paciência.

“Esperava meu pai cortar a linguiça, pegava a faca depressa e cortava uma fatia de pão para tentar deixar pelo menos o gosto”, recorda.

Mas o direito a uma fatia de embutido não valia tanto. Em uma semana, o guri jurou que fugiria de casa se o emprego de auxiliar de obras fosse a única saída. Não precisou chegar a tanto. Foi na mesma empresa em que a mãe fazia faxina, uma agência Chevrolet, que Sílvio se descobriu na função que ocuparia por mais de 20 anos: a de chapeador.

Lado errado

Apesar de não ser o emprego com o qual sonhava, Sílvio passou a respeitar a atividade. O trabalho era pesado, mas a remuneração era boa. Foi evoluindo e conquistou fama no setor.

À medida que se consolidava como funileiro, contudo, sentia crescer a distância do pincel. Seu maior medo era acabar conformado com aquela vida de satisfação apenas no quinto dia útil. Por muito tempo, a única forma de fazer arte era desenhar nas lixas que usava no serviço. Com a ponta da unha, dava forma a mulheres nuas, para alegria dos colegas.

Quando sua mãe faleceu, Sílvio descobriu que ela guardava uma caixa com recortes de jornal onde o filho aparecia (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 21 anos, por indicação de uma cliente da oficina, se inscreveu para um curso de desenho com a conceituada artista plástica Magali Santiago. No encerramento, Sílvio foi eleito aluno revelação. Em uma exposição com os trabalhos dos aprendizes, um colunista local escreveu que ele era uma “promessa” no mundo das artes.

Mesmo com os excessos de tinta que causaram alguns defeitos na pintura, a obra despertou o interesse de uma compradora. Na hora de informar o preço, Sílvio chutou alto: pediu um salário mínimo. Tinha certeza que a venda não sairia — quem seria louco? — então falou o número apenas para ver a reação da mulher.

No fim, quem se surpreendeu foi ele. “Isso não vale um salário; vale quatro”, respondeu ela. Entusiasmado com a possibilidade de ficar rico, Sílvio estava disposto a se aperfeiçoar em Porto Alegre. A mãe, com seu jeito recatado e sereno, disse que o filho deveria ser bom para si mesmo, e não ser como ela, que passou a vida toda se preocupando apenas com as pessoas ao seu redor.

O pai, porém, não aceitava que um dos mais velhos apostasse o futuro no desconhecido.

“Agora que você cresceu e preciso que trabalhe para a ajudar a família, você quer fugir”, disse o homem.

Além do pouco apoio da família, que não se sentia em condições de opinar sobre Arte, Sílvio temia não ter as qualidades necessárias para competir na cidade grande. E se não fosse bom o suficiente? Ficou 10 anos sem fazer nenhum curso, apenas esperando da vida um sinal de que seu sonho tinha algum sentido.

Aos 31 anos, em uma manhã de sábado, caminhava pelo centro de Lajeado quando se deparou com uma ação cultural. Cantores cantavam, atores atuavam e pintores pintavam em plena Júlio de Castilhos, fazendo com que os transeuntes se aglomerassem, admirados. Sílvio percebeu que não pertencia à plateia.

“O que estou fazendo da vida? Eu não sou dos que ficam olhando”.

Dali em diante, nunca mais parou de aprender. Em qualquer pequena oficina, lá estava ele. Aos 37 anos, decidiu largar o emprego e a estabilidade que a funilaria dava.

Pensamentos na cova

Sílvio casou-se e se mudou para Santa Cruz, a fim de ficar mais perto de uma universidade, a Unisc. A união foi fruto de seu primeiro namoro sério, tipo de relação que foi sempre adiada pelo medo de que o comprometimento pessoal interferisse no compromisso com a arte.

“Eu cuidava para não me tornar o que eu não gostaria de ser: um pai de família, com gato e cachorro”.

Tentava se inserir na comunidade artística da cidade, mas ainda precisava fazer alguns serviços como chapeador para ganhar dinheiro. Na época, morava ao lado de um cemitério. Quando passava pelos túmulos, a reflexão acerca da própria vida era inevitável. “Meus sonhos não podem parar numa dessas covas”.

A rotina era puxada. Trabalhava muito, pintava menos do que queria e quase não dormia. Depois de um ano de casado e sufocado pela frustração, decidiu que precisava ser drástico se quisesse chegar aos 40 anos realizado. Pediu o divórcio e foi morar com colegas do curso de escultura. Passou a dedicar mais tempo para pintar, mesmo que isso custasse viver no limite das reservas financeiras.

“Estou de perna bamba, tenho 5 reais”. Ele registrava sua angústia em diário.

À noite, vestia um a melhor roupa e participava da cena cultural. Passou a conhecer gente importante. Aparecia na TV e nas colunas sociais com frequência. Assíduo nesses ambientes, certa vez foi convidado para jantar na mansão de um médico, apreciador das artes. Enquanto os convidados se serviam de um banquete, um pianista tocava, no meio da sala.

Sentado ao lado de uma funcionária do Banco Mundial que era a cara da Rita Lee, Sílvio pensava em como a vida era engraçada. Será que aquela gente imaginava que há muito tempo ele não comia mais do que batatas cozidas em casa? (Por ironia, um dos quadros mais famosos de Van Gogh, seu artista preferido, se chama ‘Os Comedores de Batata’). Ou que a única vez que alguém de sua família entrou em um banheiro tão chique fora para limpar?

Não que ele escondesse suas origens. Se alguém tocasse no assunto, dizia com naturalidade ser filho de um pedreiro e de uma faxineira. Por ser moreno, havia quem pensasse que Sílvio era da fronteira, herdeiro de algum estancieiro de posses. Afastou muita gente negando essa tese, mas também peneirou os bons amigos.

No dia seguinte àquela recepção, Sílvio ajudou um amigo a levar tijolos para uma obra em um bairro simples. Enquanto olhava para a carriola degringolada, teve certeza de que a vida é mesmo muito engraçada.

Onde fica Pasárgada?

Depois de quatro anos vivendo nessa instabilidade, Sílvio ouviu de um professor que a região não tinha potencial para absorver talentos. Se houvesse algum novo Picasso por ali, passaria despercebido.

Convicto de que deveria migrar, voltou para Lajeado, onde juntaria o restante das coisas e se despediria da família. Foi quando encontrou uma amiga que havia trabalhado na organização da Bienal do Mercosul. Por essa conhecida, ficou sabendo que ter talento não era suficiente para fazer nome. Importava ser amigo de atores globais, conhecer críticos de jornais do Sudeste, ser patrocinado por empresas influentes.

Desapontado, Sílvio, mais uma vez, teve dúvidas. “Ficava lembrando do poema de Manuel Bandeira: ‘vou-me embora pra Pasárgada/ lá sou amigo do rei’”. Passada a euforia trazida na bagagem de Santa Cruz, pensou melhor na mãe. Olhava para os cabelos brancos daquela velhinha que já havia enterrado três filhos e perdeu coragem de ir embora.

Direcionou seus esforços em uma missão talvez tão difícil quanto a de conquistar gente importante fora dali: cativar as pessoas de sua própria comunidade para a arte. No início, seus trabalhos eram carregados de idealismo. Ganhava muitos prêmios, mas vendia pouco.

Começou a agradar quando aceitou fazer trabalhos unicamente porque combinavam com a cortina ou sofá do cliente. Também encontrou a vocação para ensinar, instalando uma escola junto ao seu ateliê. Descobriu que, se havia alguma nobreza na arte, era a de lhe dar uma vida digna.

Em um dia de férias, parado na sinaleira de uma cidade do litoral, abriu o vidro e deu uns trocados para um malabarista. Naquele instante, lembrou que, pouco antes, havia comprado milho de uma vendedora humilde e uma pulseirinha de uma índia.

“No momento em que parei de pintar tragédias, ganhei algum dinheiro e realmente pude ajudar as pessoas. Antes, não podia diminuir nem a minha própria miséria, quem dirá a alheia”.

Não que Sílvio tenha vendido a alma ao diabo — sempre tem algum entusiasta que paga bem por obras conceituais. Mas precisava comprovar a possibilidade de viver da arte. Não acabaria como Van Gogh. Muito menos como Tafú.

P.s: Até hoje, quando quer extravagar, Sílvio compra linguiça.


*Perfil escrito pela jornalista Gesiele Lordes para o curso Escrita Criativa no Jornalismo, com Rafael Gloria.

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