• Texto Mariana Sirena

Ao longo da última década, o nome do chinês Ai Weiwei se consolidou como um dos mais representativos da defesa da liberdade de expressão. No dia 8 de outubro,  o artista contemporâneo veio a Porto Alegre para mais uma conferência da série Fronteiras do Pensamento. Atuante na escultura, instalação, arquitetura, fotografia, cinema e literatura, Weiwei ganhou notoriedade por seu ativismo político e social, posicionando-se contra posturas opressoras do comando de seu país e denunciando cerceamentos das liberdades individuais. Tornou-se um inimigo do governo chinês, chegando a sofrer violência física por suas críticas. Atualmente radicado na Alemanha, ele vem desenvolvendo um trabalho artístico em diferentes cidades do Brasil.

O formato do encontro foi o de uma entrevista com Marcello Dantas, curador da exposição de Weiwei que inaugura no dia 20 de outubro, na Oca (Parque Ibirapuera), em São Paulo. Já na abertura, Marcello anunciou qual seria a tônica da conversa: a relação entre a democracia, a arte e a liberdade de expressão. Não poderia ser diferente, tanto pela trajetória do convidado quanto pelo momento político do Brasil: o evento aconteceu um dia após o primeiro turno das eleições, que resultou, com a ascensão do candidato Jair Bolsonaro, em uma conformação da disputa presidencial para o segundo turno cheia de riscos para a própria manutenção da democracia e para a ampliação dos direitos das minorias.

O assunto foi um dos primeiros a serem tocados, através da pergunta que abriu o diálogo, vinculada à contextualização política do Brasil atual: “qual é o antídoto contra o racismo e a intolerância?”. A resposta veio da própria plateia: o grito “Ele não!”. Com uma fala tranquila e pausada que se manteria ao longo de todo o evento, Weiwei defendeu a responsabilidade de cada um nessa resposta: “temos que ver a importância do envolvimento dos indivíduos na defesa de seus próprios valores. Não podemos deixar que os políticos assumam tudo, nem deixar que outras pessoas definam o nosso destino”. Com esse pensamento, Weiwei ressaltou que sente sua arte como algo ainda mais relevante. Para ele, muitas vezes “a violência política coexiste com nossa noção de uma vida pacífica. […]. Nós temos que agir contra a violência. Estamos numa sociedade humana: ela foi criada por humanos e nós somos plenamente responsáveis pelo que nela acontece”, acredita.

A obra e a história de Weiwei

Foto: Luiz Munhoz

Sua obra é, em diversos momentos, marcada pelo desejo de expor injustiça, ou, nas palavras dele, pela necessidade de “dar voz aos que não têm voz”. Um de seus trabalhos mais contundentes nesse sentido foi a investigação sobre as consequências do terremoto Sichuan – como o governo chinês não divulgou o número de vítimas, já que poderia levantar suspeitas sobre a qualidade das obras estatais, Weiwei, acompanhado de voluntários, fez o levantamento de quem eram os mortos, chegando à identificação de cinco mil crianças vitimadas.

Outro exemplo é seu documentário “Human Flow”, lançado no ano passado, que enfoca a questão dos refugiados: “é uma crise humanitária, então o refugiado faz parte de nós. Precisamos defender essas pessoas que não têm voz e que não pertencem a lugar nenhum”, comentou o artista no Fronteiras. Revisitou, também, sua própria história ao ser questionado sobre sua relação com o pai, poeta Ai Qing, perseguido pelo governo e exilado nos campos do nordeste da China na época em que Weiwei era uma criança. “Nunca tive a sensação de casa pois nunca sabíamos para onde meu pai seria enviado”, comentou, identificando-se com os refugiados que tanto retrata.

Em outro momento da conferência, o assunto retornou com a pergunta: como a arte pode romper fronteiras? O dado trazido pelo artista é expressivo: em 1989, ano da queda do muro de Berlim, havia 11 muros dividindo fronteiras entre países. Hoje, esse número cresceu para mais de 70. “Fronteiras são ridículas, sabemos disso. Mas se os muros forem erguidos em nossos corações, eles serão mais fortes. Aí sim estaremos ferrados”, declarou.

“O trabalho de Ai Weiwei transforma antes de virar obra”, sublinhou Marcello Dantas, relembrando “Sunflower seeds”, uma das produções mais emblemáticas do artista. O processo de construção de cada obra integra o que é comunicado no resultado final, como é o caso dessa instalação que cobriu o chão de uma das salas do Tate Modern de Londres com réplicas de sementes de girassol feitas à mão por trabalhadores chineses. Essas sementes, símbolo cultural chinês, feitas em grande escala – como é vista a produção do país asiático pelo Ocidente –, criam camadas de significados pela forma de confecção na diversidade, e pela pela sua distribuição no chão, para serem pisadas.

Os trabalhos que Weiwei vem desenvolvendo no Brasil, através de ateliês montados em Trancoso (Bahia), Juazeiro do Norte (Ceará) e São Paulo (São Paulo), são transpassados por esse mesmo conceito. Entre eles, chama atenção “Terezas”, que resulta da percepção do artista de que existe um sentimento de fuga latente no Brasil. A obra consiste em cordas feitas por presidiárias do Presídio Feminino de Tremembé, a serem instaladas na parte externa de museus e alguns pontos centrais de São Paulo. Nesse tempo no país, Weiwei também teve sua iconografia revisitada pelas mãos de artesãos de Juazeiro do Norte, explorou a ferida histórica da escravidão, refletiu sobre o patrimônio natural de nossas terras e viu  nossas raízes como formas de arte (literalmente e metaforicamente).

O desejo de visitar a América Latina se relaciona com a história de seu pai, que esteve no continente e escreveu um livro de poemas inspirado na experiência por aqui. Ai Qing escreveu, também, sobre as árvores da região. “Eu quis criar uma comunicação com as pessoas do Brasil, visitar o território, pesquisar, e acabei chegando nessa questão das árvores. Sempre sonhei em encontrar uma antiga árvore no Brasil para fazer um molde”, compartilhou Weiwei. Auxiliado pelo curador Marcello Dantas, ele encontrou a árvore sonhada: um Pequi milenar de 35 metros. “O processo de moldagem da árvore, para o qual chamei 12 especialistas chineses, parece a moldagem de um pagode, tem um sentido religioso. Agora, o molde da árvore está viajando pelo oceano, para a China”, completou.

O artista e a autocrítica

“Eu nunca quis ser artista, pois as possibilidades na área da arte eram muito limitadas na China. Ser artista causava problemas”, falou sobre sua trajetória pessoal. Interrogado sobre as dicas que daria aos jovens que iniciam no mundo das artes, declarou: “Eu diria que se deve esquecer a arte e respeitar os próprios sentimentos, o que realmente importa. Levei décadas para encontrar meu jeito de ser artista, e me responsabilizar por esse jeito individual. Assumir a responsabilidade como indivíduo é a forma mais honesta de ser”.

Ao final do encontro, foi perguntado a quem faria o gesto de mostrar o dedo do meio – ato que marcou a sua famosa série de fotografias “Study of Perspective” iniciada em 1995, em que mostrava o dedo para cenários significativos de todo o mundo, da Casa Branca à Mona Lisa. Ele respondeu com a comicidade que também é marca de seu trabalho, assim como o engajamento com questões políticas: “Eu apontaria esse dedo a mim mesmo. Ninguém tem o privilégio moral de julgar, mas temos que criticar a nós mesmos”.

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