Reportagem: Laura Galli
Fotos: Anselmo Cunha

“Preciso tirar o sapato também?” pergunto para a Márcia, assim que entramos no chamado Complexo da Dona Nazaré, onde, entre outros espaços coletivos, funciona a Biblioteca Comunitária do Arquipélago. Inúmeros pares de sapatos e chinelos de diferentes tamanhos repousavam ao lado da porta. Ela me responde que não, “tu sabe que isso foi uma iniciativa das crianças, nós nunca comentamos sobre tirar o sapato, eu até me emociono, é um cuidado deles com o espaço”. Márcia Cavalcante é conselheira da ONG Cirandar, que mantém a Biblioteca há quatro anos em um terreno cedido por Nazaré, moradora da Ilha Grande dos Marinheiros, Porto Alegre.

Vindo do centro da cidade, em quinze minutos estávamos na Biblioteca, que fica em uma região de chão batido e casas simples, num clima de interior que contrasta com a agitação da estrada que passa a alguns metros dali. O local é considerado área de domínio da nova ponte do Guaíba, onde não é permitido nenhum tipo de construção por determinação do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT). Por estar localizada relativamente perto de onde passará a ponte, a Biblioteca, assim como inúmeras residências, um santuário, a quadra de futebol da comunidade e o galpão de reciclagem que garante o sustento das famílias que ali vivem, estão ameaçados.

Quando a obra começou, o departamento garantiu que haveria três possibilidades para os moradores com casas na área de domínio: receber uma indenização; realizar compra assistida, na qual o DNIT adquire um imóvel para a família; ou a construção de uma nova residência, em outro ponto da ilha, em reassentamento construído pela empresa. Muitos moradores, em decisão junto ao Ministério Público, optaram pelo reassentamento: poderiam morar em um local próximo de onde sempre viveram e perto da comunidade onde criaram laços e concretizaram suas vidas. Atualmente, porém, o DNIT alega que por falta de verba e de tempo hábil, não será possível executar a obra do reassentamento. Desta forma, os moradores serão levados a fazer a compra assistida e não haverá mais a possibilidade de ficar na ilha. Ao todo, 1.031 famílias serão afetadas pelas obras, com previsão de conclusão para dezembro de 2019, e o Ministério Público Federal ajuizou ação para que o DNIT garanta o reassentamento das famílias na ilha.

A opção do reassentamento era também a que garantiria a existência da Biblioteca junto à comunidade. Agora, contudo, está sem alternativa, pois a casa que abriga o espaço não está escriturada no nome da ONG Cirandar. O terreno cedido impede que a instituição negocie diretamente com a construtora e o poder público. Com a negativa, a Cirandar se vê frente ao impasse do quê fazer para manter o projeto funcionando nesse local. “Nós não queremos sair daqui, não é só uma biblioteca, nós construímos vínculos aqui, esse é um espaço de identificação e acolhimento”, comenta Márcia.

A Biblioteca como um lugar de encontros

Crianças passam o dia participando de atividades culturais (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Naquela tarde de sexta-feira, vimos um pouco de como funciona o dia-a-dia no espaço. A rotina, em geral, passa pela mediação de leitura e contação de histórias conduzidas pela educadora social Thali, que acrescenta às atividades de leitura sua experiência teatral, sensibilizando as crianças para criarem suas próprias histórias através de jogos com palavras-chave e objetos. Além disso, uma vez por semana o educador Maskote ministra oficinas de cultura popular, como capoeira, percussão e cultura afro-brasileira. A diversidade está presente na Biblioteca com o objetivo de ampliar repertórios e apresentar novos mundos às crianças.

Quando perguntada sobre o que mais gosta de fazer na Biblioteca, Raquele, de 10 anos, não teve dúvidas: “adoro tocar tambor”. Tivemos a possibilidade de ver as crianças tocando e cantando naquele dia, mostrando familiaridade com os instrumentos. Diferente de outras bibliotecas, o mais importante ali não é o silêncio. O acesso à leitura individualizada passa por vivenciar atividades coletivas de sensibilização e incentivo à imaginação, à criatividade, que também contribuem para a construção de vínculos. Além da música, os jogos que são apresentados por Thali também fazem muito sucesso entre as crianças. A educadora comenta da importância das brincadeiras em grupo para exercitar a coletividade, o olhar para o outro, a cooperação. E jogo é assunto sério: as atividades envolvem extenso trabalho de pesquisa e planejamento por parte da equipe responsável.

Entre as crianças, o envolvimento com a Biblioteca é evidente. Bianca, de 12 anos, Eduardo, de 9, e Emilly, de 13 enumeraram com animação o que costumam jogar em grupo na Biblioteca. “E vocês vêm todos os dias?”, perguntei. “Sim! É muito bala vir aqui, venho todos os dias pra brincar.”, respondeu Eduardo. Amigos, vizinhos, primos, o pessoal todo se encontra ali. Entre os frequentadores, de tempos em tempos se escolhe o guardião ou guardiã do espaço. Esse é o papel de Bianca atualmente. Ela é responsável por auxiliar Thali e a equipe da Biblioteca a manter o espaço organizado, além de ser ajudante nas atividades em grupo e também contribuir na criação das atividades e jogos.

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O piquenique literário, atividade que acontece periodicamente, também tem forte participação dos pequenos: são eles que escolhem o local onde vai acontecer, sempre fora da Biblioteca em algum ponto da Ilha Grande dos Marinheiros. “Assim eu já conheço quase toda a ilha”, diz Thali. Além dos piqueniques, ela comenta ainda da realização de outras atividades externas, como ida à Feira do Livro, exposições e eventos que reúnem as demais comunidades do Arquipélago.

Assim, a forma como o objetivo da formação de leitores é posto em prática na Biblioteca Comunitária do Arquipélago vai muito além do empréstimo de livros. No espaço tem música, tem afeto, tem conversas, tem jogos, incentivando a criatividade e o trabalho em grupo entre as crianças. Através do intenso trabalho com a leitura, a Biblioteca se transforma num espaço de educação onde o Estado quase não chega. É onde crianças e adolescentes encontram acolhimento e olhares atentos para sua formação e seu direito a conhecerem o novo, a sonhar. Um lugar de aprendizado contínuo.

“E vocês gostam de ler?”, pergunto, ao que Bianca, Emilly e Eduardo respondem afirmativamente. “De qual livro mais gostaram?” Eduardo vai até a estante e volta com O Pequeno Príncipe: “gosto muito desse.” “É, o Pequeno Príncipe é bem legal”, Emilly concorda.

Direito à leitura, direito humano

O acervo da Biblioteca é todo pensado pelas responsáveis da Cirandar, traz autores locais, passando por clássicos brasileiros e da literatura mundial e obras relevantes para a comunidade das ilhas. As estantes estão povoadas por uma diversidade de livros (e brinquedos) como Alice no País das Maravilhas, obras de Erico Verissimo, Mario Quintana, Manoel de Barros, Machado de Assis, Daniel Munduruku, uma seção exclusiva de literatura africana, instrumentos musicais, o globo terrestre e até um boneco do Pikachu. Márcia destaca na seleção criteriosa das obras a preocupação em abordar questões locais, como no caso do livro “Minha ilha fotografo eu”, projeto da ONG Centro de Direitos Econômicos e Sociais – CDES, realizado com a própria comunidade da Ilha Grande dos Marinheiros a partir da construção da ponte do Guaíba.

Espaço contribui no sentimento de pertencimento da comunidade (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Junto com os jogos, brincadeiras, com o espaço de afetos e encontros, estão também os projetos diretamente relacionados à leitura, como o autor do mês. Todo mês é escolhido um autor e seus livros são trabalhados pela educadora com as crianças. Elas leem as obras e, em um determinado dia, o autor vai conhecer a Biblioteca e realizar uma atividade. Foi o caso de Caio Riter, escritor porto-alegrense que se transformou em padrinho da Biblioteca e expressou em matéria no site da ONG sua preocupação com o destino do espaço com a construção da ponte: “Há os que erguem bibliotecas; há os que constroem pontes. E pensar que alguém possa destruir espaços culturais de fomento à leitura, como a Biblioteca do Arquipélago, construída a partir de demandas do PMLL, sem qualquer ressarcimento, deixam claras as reais preocupações dos atuais gestores públicos. Se para construir uma ponte, não se pensa a realocação de uma biblioteca popular, algo está errado. Muito errado.”

A partir dos encontros e das atividades com os livros, surge a vontade de conhecer mais. A mediação de leitura realizada durante as manhãs e tardes na Biblioteca procura incentivar a formação de leitores que possam vir a ser leitores autônomos,  capazes de escolher suas leituras e manter esse hábito. “As crianças são nossa aposta para o futuro”, diz Renata, coordenadora de voluntários da Cirandar. “E o Tiago é como um resultado dessa aposta, é o que a instituição persegue”.

Tiago tem 18 anos e é considerado um leitor autônomo: vai à biblioteca, retira livros emprestados e lê em casa. Morador da Ilha Grande dos Marinheiros, conheceu a Biblioteca através de sua irmã, que é voluntária na Cirandar. “Eu precisava ler O Continente para um trabalho da escola, aí minha irmã falou que tinha o livro na Biblioteca e eu vim”, contou. A partir daí começou a buscar outros livros e a frequentar as atividades, onde auxilia a educadora e os voluntários com as crianças.

A Biblioteca, que existe desde 2014, vem realizando parcerias com escolas da região, sejam públicas ou privadas, possibilitando que as crianças conheçam e frequentem o local com suas turmas, e também que atividades sejam realizadas pela equipe da Cirandar nos espaços das escolas. Com isso, cria-se uma influência na região para a atenção à leitura, além dos vínculos que vão sendo estabelecidos na comunidade através da cultura. A Cirandar realiza periodicamente atividades de formação com educadores, assim como com sua equipe de voluntários, voltados à temática do livro e da leitura.

Acervo da biblioteca é recheado de clássicos e lançamentos da literatura nacional (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Num bairro com condições de vida precárias, o cuidado com a Biblioteca mostra o quanto ela é valorizada entre crianças e adultos. As paredes coloridas, estantes organizadas, espaço limpo, cortinas confeccionadas por uma moradora da comunidade, são alguns dos aspectos que evidenciam o carinho com que é tratada. E a iniciativa das próprias crianças de tirarem os sapatos na entrada é um exemplo do zelo que têm com o local.

Tanto cuidado também pode ser explicado porque a Biblioteca surgiu como demanda da própria comunidade por mais espaços de cultura na região do Arquipélago. Márcia comenta que no Orçamento Participativo (OP), a região há muito tempo escolhe a cultura como uma das três prioridades para investimento, o que pode ser surpreendente considerando a situação muitas vezes difícil em que vive aquela população. E justo nesse local, exatamente onde a própria comunidade enxerga a importância da cultura – onde se estima que cerca de três mil crianças e adolescentes já tenham sido atendidos com a Biblioteca -, o espaço corre risco de fechar.

Na ilha, o convívio com a adversidade é comum, seja pelo sustento que na maioria das famílias vem do lixo seco nos galpões de reciclagem, seja pela proximidade com o rio e a frequência de enchentes quando chove demais. Márcia, Renata e Thamara, da Cirandar, concordam na observação de que as pessoas que ali vivem são resistentes, criam soluções para as dificuldades diárias e não se acomodam com a precariedade. Elas ressaltam o protagonismo das mulheres em iniciativas comunitárias que também serão afetadas pelas obras da ponte, como a associação de mulheres, a cooperativa de artesãs, o programa minha infância melhor, a cooperativa de pães. E ainda a RIPCA, Rede Integrada de Proteção da Criança e do Adolescente, que se reúne a cada quinze dias e discute questões pertinentes à comunidade como um todo, como a violência, o acesso à cultura e à educação, questões de infraestrutura. Por fazer parte da comunidade, a ONG Cirandar participa dessas reuniões, vendo aí uma possibilidade de fortalecer a rede de apoio local. As representantes da Cirandar veem na ilha um território fértil e potente para o desenvolvimento das atividades da Biblioteca, exatamente em função do espírito comunitário ali presente e as possibilidades de novas parcerias que podem surgir.

A Biblioteca ameaçada

Embora a construção da ponte do Guaíba não seja necessariamente um problema em si, ela se transforma em empecilho para a continuidade de um espaço cultural importante para os moradores da ilha. Segundo Márcia, falta responsabilidade do poder público de olhar para o território em sua complexidade e totalidade, considerando os direitos básicos das pessoas que ali vivem. Há, segundo ela, uma invisibilidade da comunidade aos olhos das autoridades. “O orçamento da obra não considera que ali existem pessoas morando, pessoas que construíram suas vidas na ilha, estabeleceram laços e querem uma solução.” Atualmente, a construtora alega que não existe tempo hábil nem verba para construir o reassentamento, restando as opções de pedir indenização ou realizar a compra assistida. Isso acarreta em desarticulação da comunidade outrora mais organizada, pois ao invés de buscar soluções coletivas, cada família precisa resolver sua própria situação.

Dona Imaculada, moradora da Ilha, contou seu ponto de vista sobre a obra e o tratamento que os moradores recebem. “É um direito meu poder ficar onde eu quero, ou poder comprar uma casa onde eu quiser, não onde a construtora decidir. A gente fica a mercê deles, pra te colocarem em qualquer canto onde eles bem entenderem. Preciso de acesso ao rio, porque eu pesco, vivo disso. Não quero sair daqui, se eu tiver que ir pra outro lugar é todo um recomeço, são 30 anos morando na ilha, foi onde estruturei minha família. Sinceramente, eu ia me sentir numa gaiola num apartamento desses que querem nos colocar, tão me tirando do meu habitat. E foi o que eu disse numa das reuniões:  vocês vão ter que me dar um apartamento com cobertura que tenha lago, floresta, que eu tenha onde pescar e colher no meu pátio.”

Construtora da ponte alega que não tem verba para reassentar as famílias na Ilha (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

O caso da Biblioteca é delicado em função do terreno não estar escriturado em nome da Cirandar, e Renata expressa o receio da entidade de que se interrompa o vínculo que foi construído ao longo de quatro anos, uma confiança mútua, fruto do trabalho da instituição e da comunidade.

Em depoimento publicado pela Cirandar, Liane Farias, conselheira do OP e participante da comunidade da Ilha Grande dos Marinheiros, desabafa: “A ponte irá afetar em tudo. Principalmente nas férias quando as crianças não tem para onde ir e acabam indo para a biblioteca. Será uma grande perda por que para nós ela é importante. Tem muitas crianças que não estão no centro social então procuram a biblioteca que é um espaço onde elas leem, elas brincam, onde elas aprendem bastante coisas. A gente já perdeu muita coisa dentro da Ilha então temos que lutar para ela ficar dentro da Ilha Grande dos Marinheiros”

A entidade enviou ofício para a prefeitura contando o histórico da Biblioteca, a situação do espaço e expressando a vontade, tanto da Cirandar quanto da comunidade, de que a Biblioteca permaneça na Ilha, e solicitando uma audiência com o vice-prefeito para tratar do assunto. O ofício ainda não foi respondido.

Quando a ponte vira muro

Obras da nova ponte do Guaíba passam a poucos metros de onde vivem os moradores (Foto: Anselmo Cunha/Nonada)

Após a visita à Biblioteca, fomos até onde passa a construção da ponte. Andamos algumas quadras e entramos no terreno do santuário Nossa Senhora das Águas, uma pequena capela em funcionamento, mas que também se localiza no caminho da obra e, por estar na área de domínio, deverá ser desativada. As crianças presentes naquela tarde na Biblioteca tomaram a frente, nos indicando por onde ir para chegar na obra. Conforme andamos por entre as árvores do terreno em direção ao Guaíba, se descortinou por trás do verde um enorme bloco de concreto, de não mais do que três metros de altura. Ali estava um pilar da ponte. Ao contrário da enorme altura que tem sobre o rio, chegando na ilha a construção passa muito perto do chão, o que preocupa os moradores e trabalhadores quanto à passagem de carros, de caminhões de lixo e de ônibus. Tudo indica que vai cortar a ilha. “Ela passa por cima de nós, não tem espaço nem de uma pessoa em pé aqui, tá vendo?”. As crianças avançam em direção ao pilar, que daquele ponto de vista parece um muro.

A construção que para alguns representa o progresso do Rio Grande do Sul, o desafogamento do trânsito e inúmeras melhorias que até podem vir a se confirmar, para outros significa o impedimento de seguir vivendo como sempre viveram. Ela interrompe não só as condições básicas e práticas de vida, mas também os laços estabelecidos na Ilha e o acesso à leitura e à sociabilidade permitido pela Biblioteca Comunitária do Arquipélago.

Enquanto caminhávamos em direção à parada de ônibus para voltar ao centro de Porto Alegre, passamos novamente pela Biblioteca. Chegava no fim da tarde o transporte de uma das escolas conveniadas, crianças desciam correndo para as atividades literárias. No fim do turno, elas participam dos encontros e mediações de leitura antes de voltarem pra casa. A alegria e o direito à cultura resistem enquanto é possível.