Texto: Renata Cardoso
Fotos: Brayan Martins

Arrepiante. A reação natural do corpo de uma mulher ao escutar os dilemas e fardos que carrega transformados em poesia e melodia na voz de outras mulheres é instantânea. Se a antropologia explica que as identidades se constroem na relação com os Outros, aqueles que por algum aspecto são diferentes de nós, em relação ao feminino a construção se dá também pelo compartilhamento das situações pelas quais todas nós passamos. Cada vez que vemos mulheres lutando, cantando e dançando, a representação do igual nos une, nos fortalece, nos caracteriza. É como ver-se no espelho. É como sentir-se em casa. É incrível como, mesmo diante de tanta diversidade e possibilidades de ser mulher, ainda existem tantos traços de união.

Repensar paradigmas, questionar os padrões de uma cultura enaltecida, se descobrir mulher e refletir sobre esse espaço são temas constantes das composições de Clarissa Ferreira, musicista gaúcha, nascida em Bagé e que aos 33 anos é doutora em Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aliás, foi no estado fluminense que Clarissa conseguiu escrever com maior distanciamento sobre a cultura tida como gaúcha, falando de maneira mais crítica sobre as teias sociais que determinam lugares muito específicos para homens e mulheres.

“É possível ter uma visão marxista dessa cultura sobre como a identidade regional surgiu para reforçar que o peão aceitasse esse lugar de subalternidade, que achasse isso belo, então tem toda essa relação com o campo”, diz. Também foi no Rio de Janeiro que ela compôs a letra de “Manifesto Líquido”, que versa justamente sobre a submissão feminina no cenário do gauchismo.

Reconhecida por letras de impacto, Clarissa, que é bacharela em Violino pela Universidade Federal de Pelotas, aposta em experimentação para construir uma linguagem musical libertadora. Afinal, como ela mesma cita, lembrando Isabel Nogueira, “A linguagem que até hoje nos aprisionou não é a que irá nos libertar”. Dona de um olhar profundo e de um discurso franco sobre a cultura hegemonicamente tida como gaúcha, música e feminismo, ela recebeu nossa equipe para um bate-papo. Confira!

Nonada: Quando surgiu tua relação com o gauchismo?

Clarissa: Com 16 anos fui morar em Pelotas para fazer o bacharelado em violino. Até então eu tocava música erudita no Instituto Municipal de Belas Artes de Bagé (Imba). Ao ir para Pelotas, eu fiz alguns amigos que participavam de Centros de Tradicionalismo Gaúcho (CTGs), que me convidaram para tocar. O primeiro foi a União Gaúcha, no qual fiquei por cerca de oito anos, acompanhando a invernada artística. Foi um mercado que se abriu, pois tinham poucos violinistas no segmento da música regional. A partir de então eu comecei a tocar em outros CTGs e veio o convite para participar de festivais de músicas inéditas. Na época havia praticamente um festival de música Nativista a cada final de semana em vários locais do estado. Paralelamente a isso, eu estava na academia, estava estudando e comecei a me interessar pelo tema da música regional. Comecei a pesquisar e fui percebendo que o que se considerava uma tradição muito antiga, na verdade era muito recente, e isso foi me dando mais vontade de pesquisar.

Fiz trabalhos sobre as músicas de festivais e depois segui abordando o tema, mas em um segmento que desde a década de 90 se intitula música Campeira, que eles chamam de música “pura” do Rio Grande do Sul. Ali começaram a acontecer alguns conflitos, porque a etnomusicologia, que é a disciplina que eu estudo, é voltada a perceber e abordar o sentido das músicas para as pessoas que as fazem e o que elas querem dizer socialmente. Tem uma questão política por trás das composições, além da arte pela arte ou da música pela música. Eu comecei a ter um olhar mais crítico e ver como a cultura gaúcha é extremamente machista e não representa a totalidade da população, negligenciando muito a identidade indígena e do negro na formação do estado.

Nonada: Como tu definiria a identidade cultural tida como gaúcha?

Clarissa: Percebi nas minhas pesquisas que essa identidade foi construída por uma série de situações no meio do século XX, que têm uma influência do pós-guerra e do americanismo. Dois folcloristas, o Barbosa Lessa e o Paixão Côrtes, viram o quanto era importante essa identidade, o quanto havia valor nessa representação, e resolveram demarcar e construir essa identidade regional.  

Eu vejo que também se deu por muitos interesses. A gente fica pensando a quem representa esse gaúcho. Também é possível ter uma visão marxista dessa cultura sobre como a identidade regional surgiu para reforçar que o peão aceitasse esse lugar de subalternidade, que achasse isso belo, então tem toda essa relação com o campo. Penso que a cultura gaúcha também está ligada desde a demarcação das fronteiras, dos grandes estancieiros, das grandes propriedades, dos latifúndios, e isso também é uma forma de manter o poder dessas pessoas. A própria Revolução Farroupilha que ainda se comemora foi uma revolução de estancieiros que não foi sincera e correta com o que combinaram com os escravos. Acho que isso representa bastante a cultura gaúcha e a quem ela serve.

Nonada: Quando você passou a problematizar a questão de gênero mais especificamente dentro da “cultura gaúcha”? Como foi e como é fazer essa crítica publicamente?

Clarissa: Quando eu comecei a tocar nos festivais eu era uma das pouquíssimas mulheres presentes, raríssimas instrumentistas, e isso é até hoje. As poucas mulheres eram na maioria intérpretes, fazendo o papel de prenda. Essa era uma questão que seguidamente nas entrevistas de cobertura dos próprios festivais me faziam, “como era ser a única mulher?”Não era uma questão que eu problematizava, pois estava em uma situação na qual eu acabava concordando, e por gostar daquele ambiente era difícil problematizar algumas coisas. Eu ouvia muito expressões como “está enfeitando o palco”. Era algo que eu olhava com bons olhos. Hoje eu vejo que eu estava ali por causa do meu trabalho, que eu não sou um enfeite, eu não sou um vaso de flor (risos).

Para eu ter consciência disso foi preciso todo um processo, que se deve muito ao movimento feminista dos últimos anos e às leituras sobre outras mulheres, sobre a expressão artística de outras mulheres. A partir dessa reflexão veio a consciência. Eu também tive professoras muito boas na minha formação, eu ressalto a Isabel Nogueira, que  é uma pessoa que me influencia bastante. Desde a graduação eu tive disciplinas de música e gênero, com ela e com outras professoras, e comecei a abrir um pouco esse olhar. Penando nisso, na pouca presença de mulheres e na mais rara ainda presença de mulheres compositoras, eu comecei a me dar conta de que não era eu que fazia os meus arranjos musicais, que eu até escrevia, mas não achava que estava apta a mostrar, ou a levar isso adiante e investir na minha escrita. Eu fui me dando conta e pensando que só íamos mudar esse cenário quando outras gurias começassem a ver isso.

Nonada: Como foi o seu início na composição?

Clarissa: Foi bem consciente. Eu pensei: “Acho que eu tenho que começar, pois se eu consegui criar essa consciência graças a uma conjuntura, tive a oportunidade de estudar, de fazer parte desse universo [da cultura gaúcha], mas também da academia, eu tenho uma posição muito privilegiada de ter essa consciência”. Então comecei a compor, pensando sobre isso e também muito como os temas que eu já tratava nos textos do blog [Gauchismo Líquido], que sempre teve uma repercussão, uma vez que eu já era uma musicista do movimento. Pensando nisso tudo eu comecei a trazer esse conteúdo para as composições. Isso também faz parte de uma busca por querer achar a minha linguagem musical. Não estava mais sendo suficiente só tocar, não estava mais preenchendo, então vieram as composições.  

Eu comecei a ser mais crítica para falar de machismo e das questões ideológicas da cultura gaúcha quando eu estava no Rio de Janeiro. Lá eu também comecei a escrever mais criticamente. Eu me lembro que nas primeiras vezes que eu escrevia saía, assim como saiu a letra de “Manifesto Líquido” e eu pensava: “Bah, não vou mostrar isso aqui nunca”. Desde que eu voltei para Porto Alegre, há cerca de três anos, eu comecei a me envolver com o trabalho de outras mulheres e isso me empoderou muito. Sei que eu posso colocar a minha opinião e que mesmo se ela for criticada estarei com uma rede de proteção de pessoas que estarão comigo na ideia.

A primeira vez que apresentei uma composição minha foi em março do ano passado, quando eu apresentei a “Flor Extinta”, que é uma música que fala da degradação da Pampa por causa das áreas de pastagem para a criação não adequada de gado e também das plantações de eucalipto que tomam conta do Rio Grande do Sul. Eu falo nessa música que só tem 36% da vegetação nativa. Então essa Pampa que é tão admirada nas canções não é cuidada nem pelas próprias pessoas que se dizem gostar dessa natureza e se identificar com ela.

Nonada: Como teu trabalho, apesar de mais recente nessa questão autoral, tem sido recebido dentro do estado?

Clarissa: Eu vi que dentro do movimento regionalista há muito pouco espaço para ser contestadora, então ali não era um lugar. Apesar de a gente estar vivendo em um momento de muitas pessoas com um pensamento conservador e preconceituoso, também tem uma outra parte da população que está muito afim do novo, de discutir e melhorar as questões sociais, de repensar a tradição, e eu foquei nesse outro lado, que na verdade é o que está mantendo alimentada a cultura aqui em Porto Alegre.

Quem está fazendo mesmo é o pessoal da música independente. Acho que a única forma de fazer música autoral é de forma independente. A questão da profissionalização de músicos nesse novo segmento de mercado foi o tema da minha tese de doutorado. Eu vi nesse segmento pessoas com as quais eu queria trabalhar e dialogar. Atualmente eu defino minha música como um pós-gauchismo. Acho que é uma apropriação dessa música [gauchesca], afinal, eu também faço parte dela, também quero falar sobre ela. Também quero tocar milonga e chacarera.

Eu percebo que não dá para ignorar todo o passado de uma linguagem musical, rítmica, melódica, harmônica. Aí a minha construção vem de uma apropriação desses ritmos que são identificados como regionais, mas trazendo outros discursos. Meu trabalho chamado “Pampa de Vênus” é uma ótica feminista e contemporânea desse regionalismo gaúcho. Nesse cenário, eu tenho tentado trazer cada vez mais a experimentação para as minhas composições, como os pedais que eu uso para processar o som do violino, que é um instrumento com uma tradição secular. Também se trata de desconstruir um pouco essa sonoridade, de subverter essa sonoridade, com a ajuda dos eletrônicos. É uma forma de ir além dessa linguagem. Essa é a minha busca.  

Nonada: Como é o teu processo de criação?

Clarissa: Eu tenho percebido que por mais que o senso comum ache que a criação é inspiração, a minha é bastante trabalho e bem consciente, ao ponto de ter até uma metodologia de como eu vou compor. Hoje eu tenho desenvolvido até oficinas sobre, que é a  “Oficina de Musas”, específica para mulheres, para estimular e achar esses caminhos e essas ferramentas de expressão. Também deixo muita coisa fluir, eu sempre ando com um caderno para anotar, uso muito o computador. Eu tenho arquivos com o tema que eu quero abordar em cada canção e vou pesquisando sobre.

Meu trabalho não é só arte pela arte, eu vejo ele como ferramenta. Cada palavra que está ali tem um motivo, e eu levo isso com seriedade. Então eu vou escrevendo, desenvolvendo e experimentando com os instrumentos. Uma coisa que eu penso bastante é como eu quero que soe aquilo. Penso como vai ser a recepção dessas pessoas e como eu quero que soe.

Por exemplo: a “Flor Extinta”, eu queria que tivesse uma linguagem e uma poética que conversasse com esse regionalismo, que usa bastante metáforas, que usa uma poética mais estruturada, uma rítmica mais presente, já para dialogar com esse universo da música regional. Ela é uma milonga e constrói todo um universo com aquela característica do belo, mas fala de um problema. Uso de uma determinada estética para penetrar o público-alvo e poder entregar uma mensagem.  

Nonada: Quais são os teus planos para esse próximo ano?

Clarissa: A ideia é gravar novas composições. Acredito que vai rolar um financiamento coletivo para viabilizar isso. Outra meta é fazer um livro disco, um trabalho que englobe várias linguagens. Eu tenho trabalhado bastante com imagens, especialmente com colagens e isso também estará presente para construir a ideia do que seria essa Pampa. A ideia é fazer esse disco e abrir novas turmas para a “Oficina de Musas”, essa troca com outras mulheres tem trazido muita matéria-prima para meu trabalho artístico. Tem os projetos que eu faço parte, como “As Tubas” e uma banda que se chama “Enxame”.  Também dou oficinas de violino popular e tenho alguns planos em relação a isso em 2019.